domingo, 15 de outubro de 2017

Foram os nossos pais que nos fizeram quem somos hoje ou foi Deus?

Verdade é ver o tempo a passar sem que doa;
Observar a próxima geração fluir na família
E cantar mais um aniversário ao pequeno.

Verdade é não querer trocar de mobília
Quando os pais morrem e um dia nós também -
Enquanto lá vai o rapaz estudar para fora.

Verdade é não ver o futuro olhando além
Daquilo que foi uma juventude distante
Narrada por quem veio para que contem a quem vem.

Verdade é ser velho e sem amante -
Que o medo de ficar sozinho
Foi substituído pela constante de não ter ninguém.

Verdade é saber o caminho
E mesmo assim escolher o errado.
Ninguém merece ficar nesse estado.

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Ex-namorados e contas do Netflix: um problema dos nossos tempos

 
O fim de uma relação envolve sempre um certo sofrimento explícito: uma sensação de impotência para enfrentar os mais simples problemas do dia a dia, sentimo-nos fracos e não queremos sair da cama de manhã para cumprir as nossas obrigações, as nossas comidas favoritas perdem o sabor, olhar para as silhuetas enquanto passeamos nas ruas da cidade faz-nos sempre lembrar da nossa antiga cara metade e aquele filme romântico com o ator famoso já não é o que era.

Precisamente para nos distrair da nossa vida miserável, pensamos que talvez um filme ligeiro ou uma série entretida nos anime o espírito. Afinal de contas subscrevemos ao Netflix e é inegável a qualidade tanto da imagem como do conteúdo desse agregador multimédia. Porém, ao abrirmos a página web do Netflix deparamo-nos com mais um sinal da nossa antiga relação, outrora perfeita, mas que falhou e nos consome por dentro tal inferno sem dar tréguas: a conta de quem era o nosso mais que tudo, a razão de vivermos, a mais significativa parte de nós ainda está presente no refúgio audiovisual que procurávamos para descansar um pouco a alma.

De um momento para o outro esquecemos Stranger Things ou House of Cards ou Narcos e o nosso pensamento deriva uma vez mais para o precipício do romance que pereceu. Ali está a nossa conta que agrega a qualidade de entretenimento que nos faz sonhar e querer viver intensamente junto à conta que agrega o nosso sofrimento flagelado por quem já não nos quer. Fica complicado conciliar tantos sinais que ficaram de um passado mais confortável e em que tudo era jardins de flores coloridas com a sólida dor solitária do presente pântano que fede.

Cegamente enraivecidos, decidimos criar uma outra conta falsa com o intuito de fazer parecer que já seguimos em frente e temos uma nova pessoa na nossa vida. Desse modo, quem anteriormente partilhou aventuras e vivências connosco, irá sentir-se muito mal ao fazer login no Netflix, vendo que a nova conta que lá se encontra é claramente - sem margem para dúvidas - uma nova etapa no nosso mundo romântico e que eles são coisa do passado. Já que estamos bastante enraivecidos escolhemos, no caso dos homens, o nome sugestivo "Sara Sampaio", ou, no caso das mulheres, "José Cid" (porque é ele o apogeu do simbolismo romantico-sexual para as mulheres). Totalmente seria possível. As antigas cara-metade vão cair certamente.

Pouco tempo depois verificamos o quanto ridículo fomos. Notamos que chegámos ao ponto de criar artimanhas no Netflix para iludir quem nos deu tudo. Facetas desprovidas de lógica, tal é o estado decadente do nosso espírito. Pensamos que nos falta alguém - aquela pessoa antiga. Lentamente descemos ao abismo. Ficamos deprimidos.

Onde assenta a reflexão é que fazemos coisas ridículas a toda a hora enquanto estamos apaixonados. Vemos Netflix juntos e trocamos carícias verbais com entoação duvidosa, juramos que tudo o que está bem se vai prolongar e pensamos que é bom ser ridículo porque se gosta da outra pessoa e, em bom sinal, estamos a ser ridículos juntos. Quando isso acaba julgamos que passamos a ser ridículos sozinho - o que é mentira. Não é uma praga de contas caídas em desuso num website de filmes e séries que definem o ridículo nem os atos que a tão simples existência dessas contas levaram a cometer.

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Ser sozinho

É comum querer ter alguém -
Já que sentir falta é um prazer,
Mas se isso não acontecer
Vou sozinho que vou bem.

Mesmo que haja um azar
Ninguém se vai chatear;
E as matérias de sentimento
Não são mais que pensamento.

Se a vida correr bem
Eu durmo descansado,
Se for o contrário
Mais ninguém fica acordado.

E aquelas manhãs chatas
Que precedem o café
Seriam minhas e só minhas -
E no almoço tinha a fé.

Que morte seria essa
Vida que se levava?
Nem a vida estava acesa
Nem a chama se apagava.

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Quadras de outro mundo

No céu escuro da noite
Esconde-se um planeta
Que guarda os segredos
Que não se podem dizer.

Guarda toda a esperança
Dos corações sozinhos
De quem não se cansa
Quando não há solução.

Esse planeta sem mar
Fica longe das estrelas
E não se pode navegar
Com medo de se perder.

Orbita as memórias
De um sistema estelar
Que é feito de sonhos
Mas tem de se calar.

Tem uma lua brilhante
Mas sem lobos que uivam
E desertos extensos
Que são feitos de razão.

Eu visitei o planeta
Quando lá era verão.
Fiquei de mansinho
Até mudar de estação.

Foi uma visita guiada
E com muito para ver -
Era um planeta bonito
Mas fácil de ofender.

Agora vejo à distância
Com lentes de lembrança
Aquele mito planetário
Que um dia terá vida.

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

A passagem das horas

Pensando no passado
Fico, pesado, querendo
Voltar atrás no tempo.
(Era um tempo bom).

O que lá se passou?
É uma pergunta sem
Significado algum.
Passou-se a história
Do avanço do tempo.

Sem pressa se acumulam
Os desgostos do passado
E do tempo e da história
Que ficou por avançar.
Porque o que avançou
Foi de repente o tempo.

E as histórias que foram
Contadas noutra hora
São forjadas pela memória
Que passa por nós agora.
E sem nos querermos
Magoar, achamos melhor
Sentir a história de agora.

Quem poderia querer
Alguma coisa sem querer?

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

The place with two lagoons

People ask me if I have ever found love;
I say to them that's not important.
They ask me if it wouldn't make me happy;
I say that I'm not that constant.

But when I go to the place with two lagoons
And I see those calm waters
My memory stops by those past moments
That showed me how love matters.

When I'm at the place with two lagoons
My heart turns so brightly blue.
Sitting by the mirrored sky shows me
That it was love and it was true.

But today people ask me if it was worth it
And with a shut mouth I respond.
They're not so silly after all
Because they know there was no bond.

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Teresa

Nos anos 60 estava Teresa
Junta ao balcão fumando
E seu marido esperando
Extinguindo a beata acesa.

É avó nos dias que correm
E viúva do cancro que apareceu.
Os homens que morrem
Reclamam sempre o que é seu.

E Teresa não foi exceção...
Teresa escreveu com o coração
Na lápide do antigo marido:

"Está neste local jazido
Quem nunca me faltou
Mas rápido o tempo passou."

domingo, 13 de agosto de 2017

Vai tudo correr bem

Se algo correu mal no passado então deve-se aprender com isso. Com calma ninguém se chateia e com comunicação faz-se transparecer tudo. Esconder as coisas nunca leva a lado nenhum e apenas faz com que existam desatinos emocionais que, embora façam parte de qualquer relação, prejudicam o bem estar de ambos. Sentir-nos bem é algo bom. Querer fazer a outra pessoa sentir-se bem é ideal.

Numa nota pessoal, eu cá seria a pessoa mais feliz do mundo só por provocar um sorriso a quem está do outro lado. Um sorriso para todos os dias e eu sorriria também.

Vai tudo correr bem.

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Quando nos calamos

Não existe no mundo
Melhor coisa do que
Estar sempre calado.

Estar calado para o amor.
Isto é, não falar dessas coisas.
Ser fechado e intransponível;
Ser um cadeado do sentimento.

Que sempre que falamos
Não dizemos o que queremos.
E sempre que dizemos o que queremos
Fica algo por dizer.
Mas não devia ser assim.

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Meu amor do outro lado da serra

Meu amor do outro lado da serra
Sorri-me ao longe devagar.
Engana-me por desejar
Qualquer coisa que me encerra.

Meu amor na encosta oposta a esta
Sente falta do afeto que a envolveu.
Algo também me falta para eu
Acordar desta longa sesta.

As feridas que se curam
Não são obra do acaso;
Porque enquanto duram

São como flores num vaso.
Meu amor é da cidade
E cresce com a idade...