terça-feira, 12 de junho de 2018

"A crueldade da dor — gozar e sofrer"

Após ter perdido duas batalhas
Um capitão
Junta os soldados - os que sobram -
Para lhes dizer que ainda não acabou a luta.

Após o noturno deboche tresloucado
Uma puta
Acende um cigarro leve
E recolhe com vagar o seu soldo.

Após lhe ter sido enterrado o filho
Um pai
Recolhe-se pensativo num abraço
Que uma mãe nunca pode receber.

Após ter cantado de bebedeira
Um santo
Vai beber raios do amanhecer
Numa missa muito opinada.

Após chegar ao fim
Uma vida
É feita do prazer que há na dor
E das agonias da alegria.

quarta-feira, 6 de junho de 2018

A lenta passagem do tempo (mas que nós notamos todos os dias)

Em todas as manhãs olhamos ao espelho para arranjar alguma particularidade das nossas feições. Vemos-nos todos os dias e sem exceção apontamos-nos defeitos em terceira pessoa. É a nossa cara de cada dia - a mesma de ontem e igual à de amanhã.

Com um pouco de olhar atento e pormenorizado conseguimos ver o cansaço a entranhar-se lentamente, em cada dia, no canto dos olhos, nas pálpebras, na rigidez das maçãs do rosto. As feições do nosso sorriso estão hoje mais profundas em cada nova ruga rabiscada na tela da nossa face.

Sabemos que é um combate perdido e que todos os remédios são remendos de prevenção ou de angústia de emergência. Amanhã estaremos a queixar-nos novamente - seja do rosto ou do decaimento contínuo do contentor da nossa alma.

No fim disto tudo a única cova que nos dará as boas vindas não está vincada nos traços dos sorrisos das pessoas que nos conhecem, mas no choro dos nossos filhos e na palidez do velho rosto espelhado nos seus olhos.

sábado, 26 de maio de 2018

Proto-problemas

Se viesse alguém fazer de conta
Que para lá do céu há coisas maiores que nós,
Lhe diria que deixasse de pensar nessas coisas.

Cá onde estamos temos depressões,
Crises de ansiedade,
Choros desmedidos pelos problemas das
Dívidas,
Mortes de familiares,
Fracassos profissionais
Ou romances falhados -
Que são nossos e de ninguém maior.

A pequenez dos nossos problemas
Todos juntos é enorme.

O alívio da resolução de uma coisa
Que é capaz de nos tirar o sono
É o prelúdio de mais sono por dormir
E de fracassos por vir maiores ainda.

E cá continuamos a sonhar
Que para o infinito após o céu
Há algo maior que nós;
Com satisfação maior para nos dar.

terça-feira, 22 de maio de 2018

Pomar

Olhos subnutridos,
Que ao colo frágil
Esperam o pai que almoça,
 Viram quantos ismos houve para ver
E cada pincelada branca na tela cheia.

 Viram presidentes da liberdade
E críticas realistas
De quem no rosto só sabe a idade.

Mas viram tempos passar
E tempos mudar.

Quem lhe comprar
Um quadro desconhecido
Verá outra coisa certamente.
E por ser assim
Era o mais diferente.

~
Tão cedo não há de cá passar
Outro assim tão igual,
Outro alguém como Pomar.
 ~

sábado, 28 de abril de 2018

Só penso nela a toda a hora


Não sei quem és
E não sei quem serás,
Para me pores assim
Na alegria que me dás.

E não há um segundo
Desde que te conheci
Em que chegue ao fundo
Sem saudades de ti.

Sorrio quando vens
E dou-te um beijinho.
Tanto amor que tens
Nem deixo um bocadinho.

Conto-te memórias passadas
E sonhamos com o futuro.
Tantas as tardes contadas
Ao teu ouvido com sussurro.

Por em toda a noite te dizer sim,
Amanhã não te posso falar.
O que seria de mim
Se fosse homem pra recusar.

Venha o destino sisudo
Afastar-me de ti,
Que hei-de no fim de tudo
Olhar-te como quem ri.

sexta-feira, 23 de março de 2018

Sentimento intemporal

Acordo cedo nas manhãs.

Cumpro as tarefas do dia a dia
Para garantir estabilidade.

Tomo almoços nutritivos porque olho por mim
Partilhando mesa com os amigos
Para poder olhar por eles.

Tenho objetivos escaláveis para garantir
O argumento de estar neste mundo
Com algum propósito.

E contudo sou miserável
Porque um poema teima em ficar na cabeça
E uma específica interação social
Num dia longínquo me correu mal.

terça-feira, 13 de março de 2018

Tu

Tu.
Que te ocupas com um fascínio qualquer.
Que bem fazes ao mundo por acordares.
Que proteges o conforto dos que te rodeiam.
Sim - tu - ó magnífico; ó necessário magnífico.

Que te sentas nos bancos dos jardins com o céu encoberto
E rezas pelos teus que já morreram.
Tu que não tens por hábito usar a negação
Mesmo quando o "sim" te é adverso.
Tu que fazes da vida uma avenida
Cruzando ruas e bairros de temperamentos variados.
Que descobriste tu nesta passagem plana?
Nesse rodopio invulnerável às emoções negativas?
Tu...
Tu - ó alma imune a experiências fracassadas.

Faz-me ver o amanhecer e o anoitecer como duas coisas iguais
E sonhar com o calor das tardes de verão
Nas tarde frias passadas naquele banco de jardim.
E não me deixes dizer "não" por eu ter medo
E pára-me antes de eu começar a enumerar.
Sim - tu. 

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

O amor, como um caça bombardeiro F16 atacando o meu coração

O amor, como um caça bombardeiro F16 atacando o meu coração,
Faz com que qualquer oposição seja uma inutilidade rendida.
O posicionamento tático das emoções extingue-se logo aquando
Da explosão inevitável dos morteiros de sentimentos flanqueadores.

Ao ataque dos pensamentos noturnos paraquedistas na retaguarda,
Tenta a mente responder com suporte de unidades de artilharia
De sensatez e bom senso, apenas para serem bloqueadas pela
Brigada de emoções contraditórias e de desgostos antecipados.

No final da guerra apenas a história de quem ganha é contada.
"Foi assim que me apaixonei - foi simples e belo e para sempre".
Mas o amor no fim de tudo esquece-se de quanto custou vencer.

Há memoriais aos soldados caídos, às paixões falhadas,
Às investidas que caíram nas armadilhas da meditação excessiva.
Há sangue e morte e noites sujas nas trincheiras de quem se apaixona.

domingo, 28 de janeiro de 2018

Amanhã

Ter preparações obrigatórias
Para coisas importantes da vida
E ainda assim adiá-las.

Isso é o que me define.
Nada me vale ter nascido aqui
Ou ter privilégios que nem todos têm.

É essa a minha inércia,
Que me contraria, por me prender
Quando tento avançar para lá daqui.

Ou que me suspira cá dentro
E diz que está tudo bem
Quando não está - e eu bem o sei.

E por fim é essa que me faz olhar desconfiado
Para a minha razão, que viaja sobre rodas
Num mar de coisas difíceis de entender.

domingo, 21 de janeiro de 2018

Poema anti-auto-interpretativo

Triste.
Triste.
Sou triste. Um acabado. Um vagabundo do sentimento.
Tenho farrapos de emoções.
A minha vida é um despojo de choros
Após dias de chuva feliz.

E quando me vejo a analisar-me
Julgo que vale mais a pena olhar para coisas hipotéticas.
No espelho pareço de carne e osso - reconheço-me
Como os outros me reconhecem.
Mas no pensar há qualquer coisa que recolhe
Dividendos de não se conseguir entender.

Bebo água porque dizem que faz bem e já se acabou
O vinho ou a cerveja ou o dinheiro.
Mas beber água é a razão da minha tristeza.
Beber água perpetua a falta de reconhecimento,
Que a noite é tão escura e a água tão clara.

E vejo-me acabado pelos amores, pelo meu amor próprio,
Pela falta de reconhecimento e por não saber ler
Aquilo que faz com que eu funcione neste mundo.

Já chega de poemas auto-interpretativos.
O que se escreve não é o que se lê.