domingo, 27 de janeiro de 2019

Depois dos 20 anos entra-se na pré-morte


Sentado no meu sofá
Vejo, paciente,
Esta coisa do tempo
Que passa sem ninguém
A incomodar.

Tão desinteressado
O momento atual
Se torna, tão certo,
No momento que vem.

E aquele que veio,
Antes daquele que passa,
Também já foi outrora
Um momento
Cheio
De esperanças de tantos,
De angústias de alguns,
De certezas que haveriam de vir,
De trabalhos que ficaram por fazer.

Mas eu estou sentado aqui
Deixando a vida passar,
Porque ela passa sempre.

Nem atento ao lado de fora
Da janela da sala,
Nem esperando ninguém
Que me bata à porta de casa.

Reconheço esta
Configuração específica de coisas
Que provoca,
Por consequência,
Outra nova.
Não ignoro.

A minha coragem esgota-se
Por reconhecer as semelhanças entre
Estar sentado aqui, no meu sofá,
No conforto do momento presente,
E estar sentado sobre os dividendos
Do trabalho que ainda não fiz.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

Introdução à vida e felicidade: exercícios resolvidos


Entrei numa livraria da minha cidade;
Perguntei ao livreiro se tinha um livro
Que me mostrasse a vida e a felicidade.
Com teoria, que é com essa que me sirvo;

E com alguns exercícios para praticar
Para o exame que há-de chegar.
E também alguns exemplos
De quem já viveu esses momentos.

Importante seriam umas anotações
Com opiniões do autor do manual:
Assim ficava a conhecer as razões
De estar incluído um capítulo do Mal.

Ou porque é destacado o Amor,
Que é tão próspero a tantas leituras.
E porque escolheu tornar múltiplas
As razões de viver, com ou sem Dor.

E que haja no fim uma conclusão
Para quem é mais apressado.
Com um resumo do que foi dito
Para que não passe nada ao lado.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

Follia


Veste-te com as roupas de Milão,
Encontra um amor de Veneza.
Come o que Nápoles te oferecer
E deixa Roma mostrar sua grandeza.

Que eu me vista com trapos da feira
Para que, com roupa alta costura,
Possas brilhar nas noites em que durmo.
Conquista corações, sê a prevista rotura.

Que eu fique sozinho para sempre
E encontres quem no infinito esteja
Na sua grandeza a viver para ti.
Sê antípoda eterno da solidão.

Que eu passe fome como um prole
E tu comas caviar e camarão.
Deixa-te alimentar até não conseguires
Falar do que comeste de manhã.

Que eu seja pequenino e um
Mísero insignificante. Sim.
E que tu me olhes de cima, com rancor,
E me corrompas irrecusavelmente.

domingo, 25 de novembro de 2018

Ser maior do que o mundo

É parte de mim.
Parte de mim para todos.
Para todos em todas as direções.

E assim me assemelho
Ao gritante
Silêncio
Do centro do universo.

Que se acabem as palavras
Dos poetas apaixonados
E o sangue quente
De quem deixa acessa
Uma paixão a começar;
Que seja um dizer
Do que já foi dito
E um viver
De paixões novas
Revisitadas.

Tão alto se encontram
Os que estão ao meu lado.
Esses que sonham em
Disparates acabados de começar.
Mas que sendo assim sonham.

Tão imprevisto é um gesto
Que nos leva para longe
De tudo o que se passa
E de tudo o que se passou.
São abruptos os momentos
Que se perdem na definição
Da imprevisibilidade.
Não ajudassem os dicionários
Quem não sabe escrever
O seu próprio destino
Sem a ajuda de alguém.

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

Anatomia de um beijo

Há-os longos e os prolongados;
Os românticos e os fingidos;
Há beijos suaves e delicados
Que nunca a chegam ao destino.

Há beijos de memória
Que ficam para a história.
Há-os arrependidos
Por já não serem amigos.

Há beijos de mãe;
De quem nos quer bem;
Há os de tradição
Que não mostram feição.

Há beijos escondidos
Nas covas dos sorrisos;
Há os que ficam por dar
Num olhar devagar.

Há também os tímidos
Numa noite estrelada;
Há aqueles sofridos
Por antecipada chegada.

Os beijos não mudam
E continuam iguais.
O coração é o mesmo
E quer sempre mais.

terça-feira, 16 de outubro de 2018

Java Virtual Machine

Um beijo na despedida
E ao horizonte o destino.
Passam anos e toca o sino
Da igreja velha enchida.

Não há pessoas diferentes.
São tão somente iguais
Aos impulsos recentes;
Só muda quem sente os sinais.

E se houver um caso estranho
Na plataforma a ir-se embora,
Olhe-se para dentro de si,

Que a partida não demora.
A máquina que rege a emoção
Só aceita comandos do coração.

segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Máquina de sentir


Sou ruim. Sou bastante ruim.
Acabaram-se as balas antes do inimigo chegar;
E ele chegou destruindo tudo o que encontrava.
Mas sou ruim. Hei-de ser ruim como as espadas manchadas.

Aqui há uns tempos todos os meus sentimentos
Eram mediados para saírem cristais nas minhas ações.
E tive sucesso - sucesso imediato, digo eu.
Era tudo contínuo e linear. Até quando me convidavam
A puxar o gatilho da minha indignação, lá avagarava os coices
De maneira a não ferir suscetibilidades.
Curioso: era feliz por querer.

Tornei-me no senhor nosso deus todo poderoso.
Fui à boleia de quem era mais entendido do que eu
E nem uma saliência da veia do pescoço mostrava enquanto explicava.
Fiz-me ruim. Bastante ruim.

Os novos entendimentos dividiam-se e conquistavam os antigos.
Nenhuma ideologia era aberrante e ninguém,
Pela origem dos seus preceitos, era um escárnio.

Foi tudo para esconder o que lá habitava por detrás.
Lá na curva da esperança de revolucionar.
E nem uma realização houve. Nem uma.
Senão fosse ruim, nem isso seria.

Porquanto sinto uma revolta não me sinto nada envolto.
Sou o fim de uma ceia de jejum
E já há dentro de mim um falhanço incontornável.

Sou calmo; serei calmo.
Recomeçarei todos os recomeços falhados
Até nunca mais falhar ou pensar que assim é.

sexta-feira, 31 de agosto de 2018

Guia prático para resistir às tentações da carne secular

Todos nós nos deparamos, diariamente, com tentações que colocam à prova a nossa capacidade de fechar os olhos, respirar fundo, e dizer que não. Dizer que não a variadas situações: jovens veraneantes de bikini nos seus 18 anos; jovens veraneantes de bikini nos seus 19 anos; ou até mesmo jovens veraneantes de bikini nos seus 20 anos. Em situações mais inesperadas defrontamo-nos até com jovens veraneantes de bikini topless nos seus 21 anos

Com todas as condições reunidas para falharmos o objetivo de uma sacra vida pura e íntegra, torna-se imperativo desenvolver mecanismos para que nos passe ao lado toda a tentação e luxúria. Proponho, portanto, alguns aspetos que, ao integrarmos no nosso quotidiano, nos ajudarão a ignorar a mais voluptuosa modelo de Instagram.

Ficar cego: a visão, de qualquer maneira, é sobrevalorizada. Esta solução corta o mal pela raiz: se não há nada para ver, não há nada a tentar-nos. Atingir este objetivo nos dias que correm é bastante simples, uma vez que há uma variedade de fármacos alternativos, relativamente simples de adquirir, que fazem o serviço. Em alternativa pode-se tirar o curso da Associação Portuguesa de Árbitros de Futebol.

Ir à missa vespertina: se o prezado leitor é como eu, não falta a uma missa. Porém, há que ter atenção à tipologia de missa que se frequenta. Missas de domingo são uma mina de tentação - principalmente no verão em igrejas sem ar condicionado. A missa de sábado à noite, por outro lado, é um atalho para atingir a santidade. Ainda assim é preciso ter cuidado com algumas viúvas.

Casar: pensando melhor, podemos saltar este ponto.

Tirar uma licenciatura e posteriormente mestrado numa área científica obscura; perceber ao longo desse percurso que ninguém está a contratar na área; tentar a sorte numa bolsa de doutoramento "porque o panorama pode melhorar nos próximos anos"; passar 10 anos a estudar sem obter resultados significativos; ter 30 e muitos anos e ouvir os auxiliares de 25 a sussurrar "que a qualquer momento isto vai virar"; perder gradualmente a esperança e, de um momento para o outro, perdê-la por completo: esta é infalível. Se o estimado leitor conseguir integrar esta simples técnica na sua vida nunca mais vai tropeçar no caminho da fonte - porque provavelmente tropeçou no caminho para a sala de conferências na antecipação de mais um briefing de introdução a novos graduados cheios de esperança.

Espero que este guia seja do agrado de todos os leitores que, como eu, procuram uma vida sem sobressaltos.

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Ode ao vinho Lambrusco

Vai um e sobra outro
Entre mesas e rodopios.
Já cá pára um sozinho
Que não há copos vazios.

Urbano - remexido.
Faz mover até as urnas.
Colhe-se nas manhãs
E bebe-se à noite:

Rimos como amigos
E saímos como irmãos.
O vinho é Lambrusco

E se fosse Verde era igual;
Mas é este que temos!
Muito ou pouco, não faz mal...

segunda-feira, 16 de julho de 2018

A roda dos pretendentes

Dançam noite fora sem ligar às horas
Os escolhidos daquela princesa.
Vem um com vagar, zelando o seu passo,
Devagarinho, chegar-se ao regaço.

Outro, noutra ponta, planta sorridente
Um pé maiúsculo e um joelho no chão.
Abre os braços em boas-vindas
Um com todas as fivelas atadas.

Num canto canta um
E noutro não descansa nenhum.
Mas a princesa, caprichosa,

Que escolhera para seu regalo,
Disse com uma voz calorosa:
"Não quero príncipe nem vou amá-lo."