segunda-feira, 4 de outubro de 2021

Hoje, devagar

Um sorriso meu
Que é teu
E me o entregaste
Porque me falaste.
 
Ai de mim ser teu -
Que para ti caminha
A vontade de seres minha
Que ninguém te deu.

A nossa conversa nua
Disposta num encanto
Provocante titula
Um novo entretanto.

Em ti mergulho
Sem medo do fim
Porque acaba sem mim
Teu meado orgulho.

Vem de novo -
Lentamente -
Ser minha sozinha.
Ser contente.
Vem;
Sem repente.

domingo, 12 de setembro de 2021

Ambos

Tu que embaixo os teus olhos nos meus tocam
Tão defletidos da falatória costumária.

Não me sintas no nervosismo decadente
Mas no encontro de suspiros ultrapassados.

Havemos de chegar a um encontro perfeito
De haverismos necessários e recíprocos.

Todas as conversas de iniciação alcoólica
Privam de sentir a sua verdadeira substância.

Eu com algumas frases feitas.
Tu com o querer saber de que se trata tudo isto.

quinta-feira, 19 de agosto de 2021

Há alguns anos

Lembro-me de viver no jardim dos sonhos
Numa rua perpendicular à realidade.
Saía de casa nas tardes de céu encoberto,
Talvez pelo sol ter vergonha do que ilumina.

Teus cabelos tempestuosamente negros
Que se perdiam amplos nos teus ombros.
Raiava-se o teu olhar fixo no meu
E as memórias inexperientes perduram.
 
A reflexão sem o contraditório
Não é mais que hipótese nunca demonstrada.
O sonho não tem peso na algibeira do passado,
Mas este é que me tem esmagado.

quinta-feira, 18 de março de 2021

Quando nos encontramos outra vez

Ainda há tempo para ver os dias passar
Acomodando-nos no solarengo estado presente.

Estamos quentinhos no nosso sítio, para quê mover-nos?
Amanhã o tempo passará! É dia de passar.

Mas o dia de nos vermos? É uma miragem;
Um fecho de cortina inundado de aplausos.

Com efeito nos vemos ao longe,
Transmitindo um olhar passageiro.
 
As minhas mãos tremem...
Depois deste tempo todo?
Sempre...

sábado, 7 de novembro de 2020

Como é bom ter um carro

Como é bom ter um carro!
Que regalo passear sozinho,
Partir agora para uma cidade
Diferente da atual,
Só porque posso
Pegar eficazmente no carro
E seguir para outras bandas.

Ai, que sabor tem o deslocamento!
A locomoção mecanizada, movida
A combustível, que me permite mudar.
Quero ver mais sítios à distância
De um motor a combustão,
Quero conhecer as planícies das
Estradas que as ligam, das redes viárias,
Das vias de aceleração de alcatrão e asfalto.
 
À noite o mesmo carro traz-me 
De volta para o meu sítio de estar.
E eu vou dormir satisfeito por ter um carro
Que me faz sorrir mais que algum livro
Faria com as suas descrições faustosas.

segunda-feira, 2 de novembro de 2020

A descer no decadentismo

Passo bem horas na mente a fazer de conta que crio, faço, estudo, produzo.
Mas traduzindo isso em ações, perde-se tudo.
Que vontade tenho, que arte faço, que obras extensas eu pus no mundo!
Mas é só no pensamento.

Quando for velho - muito velho - e morrer, não vão encontrar nada escondido.
Porque o consciente em mim cessou.
As ligações elétricas que criavam sonetos belos, definindo paixões, concluíram-se.
O dia da minha morte será o dia em que morrerei.
 
Eu leio poetas do século dezanove e vinte. Estudo matemática de Newton a Fubini.
Uso paradigmas de software modernos.
Tudo graças a quem não deixou no pensamento o que podia deixar escrito.
Mas que uso teria a minha tinta inútil?

Olho para o que escrevo como quem olha para o próximo livro de um autor conhecido.
A expectativa é elevada; o estilo conhecido.
Mas que expectativa teriam de mim, se não lhes dei possibilidade de a terem?
Que estilo esperariam, se não foi ainda inventado?
 
Perco-me no tempo. O infinito que guarde o meu pensamento.
O lápis violento que rompa o papel.
Que eu sonho no sonhar e pesa-me o escrever.

sábado, 31 de outubro de 2020

Crises de depressão e alcoolismo

Quando a vida está louca
E virada do avesso -
Passando ao lado -
Bebo - bebo bem e passa.
 
Refugio-me no álcool
Porque ele é meu amigo.
Não é um problema. Digo;
Afirmo e tenho a certeza.

Faz-me ver com clareza
Que isto de estar vivo
Só pode ter uma conclusão
Que é a morte que há-de vir.

Estarmos vivos e não beber -
Mas beber a preceito,
Que é uma ciência -
É como se estivéssemos mortos.

Como se caísse sem pudor 
O mais rico homem na terra
Aos meus pés, chorando,
Pedindo um copo de aguardente.
 
A bebida não interessa.
Faz tudo bem.
A vida não interessa
Porque vamos todos morrer.

(Mas com que sentido?
Não hemos nós de conseguir
Melhorar o mundo
Enquanto cá estamos?

De chorar com a emoção
De ter filhos, vê-los chorar,
Crescer e um dia eles
Terem filhos também?)
 
Não interessa. Desde que tenha
O copo cheio daquilo
Que me faça esquecer.
Estou bem. Estou feliz.

segunda-feira, 26 de outubro de 2020

Ainda a arquitetura

Pousando a caneta,
Perguntou o mestre à noite:
 
"Como chegámos aqui,
Que ainda o sol se pôs 
Atrás daqueles sobreiros
No início destes versos?"
 
Um poema leva horas.

"Para ficar bem escrito?
Ou seja, que não escape 
Um sentimento distante?
Uma razão de rima?"

O que tu concluis.

"Amando a pessoa certa?
Ou talvez possível?
Não obstante confundirem-se
Em definição uma com a outra."

A pessoa possível faz o poema possível.

Concluiu sozinho o mestre,
Com sensatez alcoólica,
Que não era mestre
Nem sensato
Nem alcoólico.

segunda-feira, 11 de maio de 2020

Crescer e morrer

Crescer com doutrina.
Com ideais de conformidade ética e moral.
Crescer - crescer bem e corretamente.
E voltar a crescer uma vez mais
Num embrulho de certezas.
Como foi determinado
E não podia deixar de ser.

No meio. Estar no meio é crescer.
Amar o suficiente para não causar choque
Ou intriga que invalide o meado crescimento.
Olhar para a natureza, se for preciso.
Ou a linha de vista de uma cidade grande
Que nos enche de urbanidade.
Coexistir pacificamente.
Como não podia deixar de ser.

E os velhos, que já cresceram?
Pois que morram com dignidade
Porque é o que lhes falta
Do crescimento com doutrina.
Aceite-se o predeterminado.
Não há alternativa - tem de acontecer.
Se houvesse alternativa
Como poderia ser?

quinta-feira, 2 de abril de 2020

Quando me escreves

Quando me escreves
Do teu esconderijo:

Soltam-se os fogos,
Há festas de homenagem,
Tambores triunfantes,
A força aérea solta os caças,
Comemora-se a vida,
Alegrias bastantes,
Aparece Vénus despida
E todo o mundo é a esperança
Do sorriso de uma criança.

Quando me escreves
E parece poesia:

Vêm-me as lágrimas aos olhos,
Tamanha é a emoção,
Raios tremulam o céu,
Deus acorda só para mim,
As guerras chegam ao fim,
Os passarinhos cantam
E todo o mundo é perfeito,
Extingue-se qualquer defeito.

Quando me escreves
Sem conclusão:

Raia o sol na eterna manhã,
Enche-se a cidade de luz e de cor,
A realidade é feita de amor,
Ouvem-se sonetos nas janelas,
Os namorados são para sempre,
As ruas são bailes de donzelas,
E todo o mundo é beleza solta
Quando eu te escrevo de volta.