domingo, 30 de novembro de 2025

O amor pelos anos

Como viverei sem ti?
Como, meu amor?
O amanhã virá sem ti,
Não estás mais cá
E eu viverei -
Mas viverei de verdade?
Porque sem ti não sou capaz
E vivrei só para funcionar,
Não é vida de verdade.

E se eu ficar?
E se nos mantivermos os dois?
A vida que perdi
Não foi vida que deveras perdi.
Porque viveste tu
E eu consigo ir ter contigo.
Essa vida que não vivi
Quero que a vivas comigo.

Se me encontrares,
Se me dizeres olá novamente,
O ridículo passou.
Eu não quero saber.
Mas fui ridículo deveras
E viveste a vida
E a minha foi passada.

Se te encontrar
Estou por aqui.
Se te encontrar amei.

sábado, 16 de agosto de 2025

Regresso

I
 
Quero sentir novamente.
Sem serifa, só escrevendo.
E o que se sente;
O que vai havendo,
Sem censura do presente,
Quer escrever sem innuendo.
 
Passar pela casa dos meus pais
Que me viu crescer;
E as paredes sentimentais
Guardam promessas recentes
Que se calhar eram permanentes;
Faz-me andar para a frente
Num mundo que me sinto diferente.
 
A música que escutava.
A métrica que obedecia.
O trabalho que me prendia.
Quem eu outrora amava.
 
Nem o sinto.
 
Pois vamos continuar
Para o infinito;
Lírico, como é amar,
Real, como construir.
 
O sorriso olhado,
Envolto de tias,
Descrito por padres,
Capturado em fotografias...
Estou muito ocupado.
 
II 
 
Continua a realeza na cidade principal.
Podem invadir todo o campo
E desconfiarem do final.
Mas se há pedido ao santo
É que não entrem no palácio,
Que o seu sítio permaneça.
Por inércia, um novo ciclo começa. 

Com os soldados que gritam
A uma bala desconhecida,
Afronta novamente a ida...
Para a capital
Com medo da capital
Sem capital
Pode ser capital. 

sábado, 2 de agosto de 2025

Uma frase de Fernando Pessoa de que me lembrei hoje

“To narrate is to create, for living is just being lived.”
Fernando Pessoa (Book of Disquiet)

How many times have you felt the urge to tell a story? To capture a moment, a thought, or a feeling, and give it shape through words? I’d guess most of us have been there, while staring at a blank page or screen, thinking “One day, I’ll write something. One day, I’ll have something to write about, something that feels good.” 

I wrote in the past. Writing used to feel simpler. Before the absurd massification of internet media became such a central part of our lives, people weren’t as concerned about being judged or criticized for what they put out there. I mean, sharing thoughts is at an all time high, and some people seem to thrive in controversy, but for those who search for meaning within words, the internet can be a very unforgiving place. 

Today, it’s easier than ever for anyone to write something and share it instantly on Reddit, Facebook or whatever. Still, I believe we’re all storytellers, not necessarily of a narrative, ideology or structured composition, but of just words. Every photo we take, every conversation we have, every moment we share with others, every thought we have while busy - these are stories in the making, waiting to be written. As in, today I didn't think about when I was younger; I longed for the time when becoming invincible was just waking up on the next day. 

So what’s stopping you? Grab that pen. Open that laptop. Start typing. Remember that your preferred blogging platform won't be there forever, there's AI bots consuming your content now and you are finite. Then start writing (again).

domingo, 31 de julho de 2022

Templo de Diana

Sobre as ruínas que afrontam
O passado dos deuses,
Descansa um pensamento
De idealização e conformismo.

Paciência, modéstia e tranquilidade
São só virtudes dos homens
Que têm bom-viver e
Corações abrandados.

O cansaço é uma consequência
De pensar com sentimentos.
Os sorrisos são só verdadeiros
Se deles só sobrar um instante.

Pelas ruínas passaram os séculos.
Quem concentra o olhar no frontão
Consegue com algum esforço
Notar a pedra manuscrita:
 
"Abandone toda a esperança
Quem ainda permanecer de pé -
Pois eu sou a Morte,
A destruidora do mundo."

quarta-feira, 15 de junho de 2022

O meu amor

O meu amor
Tem uns olhos de avelã.
O meu amor
Canta as músicas mais belas.
O meu amor
Vê o mundo a cores pastel.
O meu amor
É um sorriso de outubro.

O meu amor
É o meu amor
No outono,
Na primavera
E nas estações
Que há no meio.

terça-feira, 29 de março de 2022

Lugar comum

O sol brilha num dia inverneiro.
Num instante olhei para ti e sorri;
Perguntas-me em que penso
Mas eu só penso que gosto de ti. 

Aqui estamos na primavera presente
E o amor brota em dificuldade.
A flor é incerteza que morre,
Ultrapassa sempre a adversidade.

Passou tempo e não é cedo.
Confia na minha vontade...
A ti me entrego sem medo.

Nas madrugadas custa mais.
Quão certas estavam as horas
Que juntaram os teus pais?

quarta-feira, 16 de março de 2022

Meu amor, desculpa-me

Meu amor, desculpa-me
Por não ser amor normal.
Meu amor difícil, desejo-te
Sem sofrimento sentimental.

E agora, meu amor, que faço?
Tanto me ensinas a não saber,
Tanto queres e eu não dou.
Eu quero dar... Mas sem doer. 

Meu coração só faz sonetos
E não sabe fazer mais nada.
Só sinto em mim apertos.
 
E a alma - meu amor, meu bem,
Meu por-do-sol à beira mar -
A alma que é minha é tua também.

sábado, 5 de março de 2022

Suprema

Tu suprema dos corações partidos,
Ambivalente, dual e bi-sentimental;
Que subtrais de noite o sofrimento
E de dia és quem quer esperança.

Ai os suspiros que a ambos provocas.
Os retirados moços sem entregar recados.
O sair de fininho no meio da dança
Inofensivamente comprometedora.

Todas as passagens dos livros românticos
No teu olhar franco espelhadas,
Ensinando por entre fios de cabelo
A aproveitar a vida fugaz e sensível.

Quem és tu, que sentes com a razão?
Provocas-me, vives-me, sorris-me.
E no final quem ganha é o sentimento,
Que a esperança é paga em duodécimos.

sábado, 13 de novembro de 2021

Passado doente da minha cabeça

Passado doente da minha cabeça
Em que a natureza tinha ritmo
E a poesia enchia os jardins.

Os caminhos do arvoredo
Com passagem nas frestas de luz
E o chão de musgo húmido.
 
As rosas albardeiras selvagens
Da minha memória florida,
Colhendo uma para a minha mãe.
 
O cheiro do por do sol
Num fim de dia cansado
Por correr sem saber porquê.

Ai as enchentes de elogios
Que a tia velha vinha dar
Só a mim porque merecia.

Os doces tão finitos
Que embora fossem poucos
Davam para o dia todo.

Mas eu cresci.
E não há tempo melhor
Que aquele que tivemos.

É noite no fim do trabalho.
De manhã tenho sono.
O meu amor...
Onde está o meu amor?

domingo, 24 de outubro de 2021

Esta paisagem não existe

Que benefício tem viver
Se não posso mostrar?
Passeio para partilhar
Com todos esta paisagem.

Mas se não a puderem ver?
Até o mais fugaz sorriso
Só existe se for visto.
Há paisagem sem ser vista?

Ninguém sabe onde estou
Mas todos sabem da paisagem.
Ela existe no momento 
De quando a mostro.

Fora disso é um vazio
Que não entra no enredo.
Eu vivo para mostrar
E o tangível quer esconder.
 

segunda-feira, 4 de outubro de 2021

Hoje, devagar

Um sorriso meu
Que é teu
E me o entregaste
Porque me falaste.
 
Ai de mim ser teu -
Que para ti caminha
A vontade de seres minha
Que ninguém te deu.

A nossa conversa nua
Disposta num encanto
Provocante titula
Um novo entretanto.

Em ti mergulho
Sem medo do fim
Porque acaba sem mim
Teu meado orgulho.

Vem de novo -
Lentamente -
Ser minha sozinha.
Ser contente.
Vem;
Sem repente.

domingo, 12 de setembro de 2021

Ambos

Tu que embaixo os teus olhos nos meus tocam
Tão defletidos da falatória costumária.

Não me sintas no nervosismo decadente
Mas no encontro de suspiros ultrapassados.

Havemos de chegar a um encontro perfeito
De haverismos necessários e recíprocos.

Todas as conversas de iniciação alcoólica
Privam de sentir a sua verdadeira substância.

Eu com algumas frases feitas.
Tu com o querer saber de que se trata tudo isto.

quinta-feira, 19 de agosto de 2021

Há alguns anos

Lembro-me de viver no jardim dos sonhos
Numa rua perpendicular à realidade.
Saía de casa nas tardes de céu encoberto,
Talvez pelo sol ter vergonha do que ilumina.

Teus cabelos tempestuosamente negros
Que se perdiam amplos nos teus ombros.
Raiava-se o teu olhar fixo no meu
E as memórias inexperientes perduram.
 
A reflexão sem o contraditório
Não é mais que hipótese nunca demonstrada.
O sonho não tem peso na algibeira do passado,
Mas este é que me tem esmagado.

quinta-feira, 18 de março de 2021

Quando nos encontramos outra vez

Ainda há tempo para ver os dias passar
Acomodando-nos no solarengo estado presente.

Estamos quentinhos no nosso sítio, para quê mover-nos?
Amanhã o tempo passará! É dia de passar.

Mas o dia de nos vermos? É uma miragem;
Um fecho de cortina inundado de aplausos.

Com efeito nos vemos ao longe,
Transmitindo um olhar passageiro.
 
As minhas mãos tremem...
Depois deste tempo todo?
Sempre...

sábado, 7 de novembro de 2020

Como é bom ter um carro

Como é bom ter um carro!
Que regalo passear sozinho,
Partir agora para uma cidade
Diferente da atual,
Só porque posso
Pegar eficazmente no carro
E seguir para outras bandas.

Ai, que sabor tem o deslocamento!
A locomoção mecanizada, movida
A combustível, que me permite mudar.
Quero ver mais sítios à distância
De um motor a combustão,
Quero conhecer as planícies das
Estradas que as ligam, das redes viárias,
Das vias de aceleração de alcatrão e asfalto.
 
À noite o mesmo carro traz-me 
De volta para o meu sítio de estar.
E eu vou dormir satisfeito por ter um carro
Que me faz sorrir mais que algum livro
Faria com as suas descrições faustosas.

segunda-feira, 2 de novembro de 2020

A descer no decadentismo

Passo bem horas na mente a fazer de conta que crio, faço, estudo, produzo.
Mas traduzindo isso em ações, perde-se tudo.
Que vontade tenho, que arte faço, que obras extensas eu pus no mundo!
Mas é só no pensamento.

Quando for velho - muito velho - e morrer, não vão encontrar nada escondido.
Porque o consciente em mim cessou.
As ligações elétricas que criavam sonetos belos, definindo paixões, concluíram-se.
O dia da minha morte será o dia em que morrerei.
 
Eu leio poetas do século dezanove e vinte. Estudo matemática de Newton a Fubini.
Uso paradigmas de software modernos.
Tudo graças a quem não deixou no pensamento o que podia deixar escrito.
Mas que uso teria a minha tinta inútil?

Olho para o que escrevo como quem olha para o próximo livro de um autor conhecido.
A expectativa é elevada; o estilo conhecido.
Mas que expectativa teriam de mim, se não lhes dei possibilidade de a terem?
Que estilo esperariam, se não foi ainda inventado?
 
Perco-me no tempo. O infinito que guarde o meu pensamento.
O lápis violento que rompa o papel.
Que eu sonho no sonhar e pesa-me o escrever.

sábado, 31 de outubro de 2020

Crises de depressão e alcoolismo

Quando a vida está louca
E virada do avesso -
Passando ao lado -
Bebo - bebo bem e passa.
 
Refugio-me no álcool
Porque ele é meu amigo.
Não é um problema. Digo;
Afirmo e tenho a certeza.

Faz-me ver com clareza
Que isto de estar vivo
Só pode ter uma conclusão
Que é a morte que há-de vir.

Estarmos vivos e não beber -
Mas beber a preceito,
Que é uma ciência -
É como se estivéssemos mortos.

Como se caísse sem pudor 
O mais rico homem na terra
Aos meus pés, chorando,
Pedindo um copo de aguardente.
 
A bebida não interessa.
Faz tudo bem.
A vida não interessa
Porque vamos todos morrer.

(Mas com que sentido?
Não hemos nós de conseguir
Melhorar o mundo
Enquanto cá estamos?

De chorar com a emoção
De ter filhos, vê-los chorar,
Crescer e um dia eles
Terem filhos também?)
 
Não interessa. Desde que tenha
O copo cheio daquilo
Que me faça esquecer.
Estou bem. Estou feliz.

segunda-feira, 26 de outubro de 2020

Ainda a arquitetura

Pousando a caneta,
Perguntou o mestre à noite:
 
"Como chegámos aqui,
Que ainda o sol se pôs 
Atrás daqueles sobreiros
No início destes versos?"
 
Um poema leva horas.

"Para ficar bem escrito?
Ou seja, que não escape 
Um sentimento distante?
Uma razão de rima?"

O que tu concluis.

"Amando a pessoa certa?
Ou talvez possível?
Não obstante confundirem-se
Em definição uma com a outra."

A pessoa possível faz o poema possível.

Concluiu sozinho o mestre,
Com sensatez alcoólica,
Que não era mestre
Nem sensato
Nem alcoólico.

segunda-feira, 11 de maio de 2020

Crescer e morrer

Crescer com doutrina.
Com ideais de conformidade ética e moral.
Crescer - crescer bem e corretamente.
E voltar a crescer uma vez mais
Num embrulho de certezas.
Como foi determinado
E não podia deixar de ser.

No meio. Estar no meio é crescer.
Amar o suficiente para não causar choque
Ou intriga que invalide o meado crescimento.
Olhar para a natureza, se for preciso.
Ou a linha de vista de uma cidade grande
Que nos enche de urbanidade.
Coexistir pacificamente.
Como não podia deixar de ser.

E os velhos, que já cresceram?
Pois que morram com dignidade
Porque é o que lhes falta
Do crescimento com doutrina.
Aceite-se o predeterminado.
Não há alternativa - tem de acontecer.
Se houvesse alternativa
Como poderia ser?

quinta-feira, 2 de abril de 2020

Quando me escreves

Quando me escreves
Do teu esconderijo:

Soltam-se os fogos,
Há festas de homenagem,
Tambores triunfantes,
A força aérea solta os caças,
Comemora-se a vida,
Alegrias bastantes,
Aparece Vénus despida
E todo o mundo é a esperança
Do sorriso de uma criança.

Quando me escreves
E parece poesia:

Vêm-me as lágrimas aos olhos,
Tamanha é a emoção,
Raios tremulam o céu,
Deus acorda só para mim,
As guerras chegam ao fim,
Os passarinhos cantam
E todo o mundo é perfeito,
Extingue-se qualquer defeito.

Quando me escreves
Sem conclusão:

Raia o sol na eterna manhã,
Enche-se a cidade de luz e de cor,
A realidade é feita de amor,
Ouvem-se sonetos nas janelas,
Os namorados são para sempre,
As ruas são bailes de donzelas,
E todo o mundo é beleza solta
Quando eu te escrevo de volta.