sexta-feira, 23 de março de 2018

Sentimento intemporal

Acordo cedo nas manhãs.

Cumpro as tarefas do dia a dia
Para garantir estabilidade.

Tomo almoços nutritivos porque olho por mim
Partilhando mesa com os amigos
Para poder olhar por eles.

Tenho objetivos escaláveis para garantir
O argumento de estar neste mundo
Com algum propósito.

E contudo sou miserável
Porque um poema teima em ficar na cabeça
E uma específica interação social
Num dia longínquo me correu mal.

terça-feira, 13 de março de 2018

Tu

Tu.
Que te ocupas com um fascínio qualquer.
Que bem fazes ao mundo por acordares.
Que proteges o conforto dos que te rodeiam.
Sim - tu - ó magnífico; ó necessário magnífico.

Que te sentas nos bancos dos jardins com o céu encoberto
E rezas pelos teus que já morreram.
Tu que não tens por hábito usar a negação
Mesmo quando o "sim" te é adverso.
Tu que fazes da vida uma avenida
Cruzando ruas e bairros de temperamentos variados.
Que descobriste tu nesta passagem plana?
Nesse rodopio invulnerável às emoções negativas?
Tu...
Tu - ó alma imune a experiências fracassadas.

Faz-me ver o amanhecer e o anoitecer como duas coisas iguais
E sonhar com o calor das tardes de verão
Nas tarde frias passadas naquele banco de jardim.
E não me deixes dizer "não" por eu ter medo
E pára-me antes de eu começar a enumerar.
Sim - tu. 

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

O amor, como um caça bombardeiro F16 atacando o meu coração

O amor, como um caça bombardeiro F16 atacando o meu coração,
Faz com que qualquer oposição seja uma inutilidade rendida.
O posicionamento tático das emoções extingue-se logo aquando
Da explosão inevitável dos morteiros de sentimentos flanqueadores.

Ao ataque dos pensamentos noturnos paraquedistas na retaguarda,
Tenta a mente responder com suporte de unidades de artilharia
De sensatez e bom senso, apenas para serem bloqueadas pela
Brigada de emoções contraditórias e de desgostos antecipados.

No final da guerra apenas a história de quem ganha é contada.
"Foi assim que me apaixonei - foi simples e belo e para sempre".
Mas o amor no fim de tudo esquece-se de quanto custou vencer.

Há memoriais aos soldados caídos, às paixões falhadas,
Às investidas que caíram nas armadilhas da meditação excessiva.
Há sangue e morte e noites sujas nas trincheiras de quem se apaixona.

domingo, 28 de janeiro de 2018

Amanhã

Ter preparações obrigatórias
Para coisas importantes da vida
E ainda assim adiá-las.

Isso é o que me define.
Nada me vale ter nascido aqui
Ou ter privilégios que nem todos têm.

É essa a minha inércia,
Que me contraria, por me prender
Quando tento avançar para lá daqui.

Ou que me suspira cá dentro
E diz que está tudo bem
Quando não está - e eu bem o sei.

E por fim é essa que me faz olhar desconfiado
Para a minha razão, que viaja sobre rodas
Num mar de coisas difíceis de entender.

domingo, 21 de janeiro de 2018

Poema anti-auto-interpretativo

Triste.
Triste.
Sou triste. Um acabado. Um vagabundo do sentimento.
Tenho farrapos de emoções.
A minha vida é um despojo de choros
Após dias de chuva feliz.

E quando me vejo a analisar-me
Julgo que vale mais a pena olhar para coisas hipotéticas.
No espelho pareço de carne e osso - reconheço-me
Como os outros me reconhecem.
Mas no pensar há qualquer coisa que recolhe
Dividendos de não se conseguir entender.

Bebo água porque dizem que faz bem e já se acabou
O vinho ou a cerveja ou o dinheiro.
Mas beber água é a razão da minha tristeza.
Beber água perpetua a falta de reconhecimento,
Que a noite é tão escura e a água tão clara.

E vejo-me acabado pelos amores, pelo meu amor próprio,
Pela falta de reconhecimento e por não saber ler
Aquilo que faz com que eu funcione neste mundo.

Já chega de poemas auto-interpretativos.
O que se escreve não é o que se lê.

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

O poder de criar

Pensar e escrever,
Mesmo sem querer,
É coisa de toda a gente.

Sentimento é coisa popular.
Quem vive é quem sente.

Mas sentir no papel
E ver a tinta a gravar
É simples como andar
Em petiz num carrossel.

Seja saudando a perda
De um amor passado,
Ou a trágica partida
De alguém chegado,
A tinta é dissolvida
Por uma lágrima perdida.

Querer mais do que isto,
Criando coisas à força,
É de génio do sentimento
Ou de vigarista publicado.

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Soneto das causas passadas

Lembras-te, amor, como fomos felizes?
Como vimos as almas um do outro
E jurámos entre sorrisos que a eternidade
Seria fácil de alcançar se nos mantivéssemos juntos?

Percorrias o meu rosto com a ponta dos teus dedos.
Trazias-me a primavera no teu pulso perfumado
Quando acordava nas manhãs húmidas de inverno
Agachado e quentinho entre ti e os lençóis de flanela.

Após o apogeu de tudo isto, que mais faltaria alcançar?
Velho amor, que seria de nós se não tivéssemos tudo?
O que ficou por ver não era o nosso encanto.

Que futuro será o desta gente - essa que faz perguntas;
Que desenterra amores antigos e não os deixa acabar?
Por não haver resposta, guardarmos as memórias das coisas bonitas.

sábado, 30 de dezembro de 2017

Amontoado

Os acontecimentos sucedem-se
E eu continuo igual.
É uma vontade tal
De não fazer uma única coisa para a minha felicidade;
De não precaver o meu futuro:
De o ver desmoronar-se.

Para que assim, completamente parvo,
Possa jogar isto da vida
Em modo de dificuldade elevada.

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Até quando for tarde demais

Na escuridão rompe o desejo
De te dar as mãos uma vez mais -
De saborear o doce do teu beijo -
De ver em nós duas almas iguais.

O tempo que passe e que acenda
O que de nós ontem era passado,
Que quando sentirmos de novo
Já não me vais querer acordado.

De mim resta o que já foi de ti,
Que não era a inocência nem
As brincadeiras amorosas.

Eram as palavras saudosas
Que não diziam nada.
Soubesse eu saber ler-te calada.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Vento

Que saudades eu tenho do vento a soprar.
Da brisa da serra que fazia bem.
Das tardes no campo a ver as casas.
E à noite, a tremelicar, do frio do mar.

Era uma juventude partilhada e diferente.
Não era de coisas vividas nem de vidas
À espera de se tornarem numa conclusão.
Era de jogos na estrada e fazer parar carros.

E agora? Nada é simples.
Todos se fartam do que têm.
Não existem recomeços.
O sol brilha e a lua completa ciclos.

Basta - recomecemos.