terça-feira, 13 de março de 2018

Tu

Tu.
Que te ocupas com um fascínio qualquer.
Que bem fazes ao mundo por acordares.
Que proteges o conforto dos que te rodeiam.
Sim - tu - ó magnífico; ó necessário magnífico.

Que te sentas nos bancos dos jardins com o céu encoberto
E rezas pelos teus que já morreram.
Tu que não tens por hábito usar a negação
Mesmo quando o "sim" te é adverso.
Tu que fazes da vida uma avenida
Cruzando ruas e bairros de temperamentos variados.
Que descobriste tu nesta passagem plana?
Nesse rodopio invulnerável às emoções negativas?
Tu...
Tu - ó alma imune a experiências fracassadas.

Faz-me ver o amanhecer e o anoitecer como duas coisas iguais
E sonhar com o calor das tardes de verão
Nas tarde frias passadas naquele banco de jardim.
E não me deixes dizer "não" por eu ter medo
E pára-me antes de eu começar a enumerar.
Sim - tu. 

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

O amor, como um caça bombardeiro F16 atacando o meu coração

O amor, como um caça bombardeiro F16 atacando o meu coração,
Faz com que qualquer oposição seja uma inutilidade rendida.
O posicionamento tático das emoções extingue-se logo aquando
Da explosão inevitável dos morteiros de sentimentos flanqueadores.

Ao ataque dos pensamentos noturnos paraquedistas na retaguarda,
Tenta a mente responder com suporte de unidades de artilharia
De sensatez e bom senso, apenas para serem bloqueadas pela
Brigada de emoções contraditórias e de desgostos antecipados.

No final da guerra apenas a história de quem ganha é contada.
"Foi assim que me apaixonei - foi simples e belo e para sempre".
Mas o amor no fim de tudo esquece-se de quanto custou vencer.

Há memoriais aos soldados caídos, às paixões falhadas,
Às investidas que caíram nas armadilhas da meditação excessiva.
Há sangue e morte e noites sujas nas trincheiras de quem se apaixona.

domingo, 28 de janeiro de 2018

Amanhã

Ter preparações obrigatórias
Para coisas importantes da vida
E ainda assim adiá-las.

Isso é o que me define.
Nada me vale ter nascido aqui
Ou ter privilégios que nem todos têm.

É essa a minha inércia,
Que me contraria, por me prender
Quando tento avançar para lá daqui.

Ou que me suspira cá dentro
E diz que está tudo bem
Quando não está - e eu bem o sei.

E por fim é essa que me faz olhar desconfiado
Para a minha razão, que viaja sobre rodas
Num mar de coisas difíceis de entender.

domingo, 21 de janeiro de 2018

Poema anti-auto-interpretativo

Triste.
Triste.
Sou triste. Um acabado. Um vagabundo do sentimento.
Tenho farrapos de emoções.
A minha vida é um despojo de choros
Após dias de chuva feliz.

E quando me vejo a analisar-me
Julgo que vale mais a pena olhar para coisas hipotéticas.
No espelho pareço de carne e osso - reconheço-me
Como os outros me reconhecem.
Mas no pensar há qualquer coisa que recolhe
Dividendos de não se conseguir entender.

Bebo água porque dizem que faz bem e já se acabou
O vinho ou a cerveja ou o dinheiro.
Mas beber água é a razão da minha tristeza.
Beber água perpetua a falta de reconhecimento,
Que a noite é tão escura e a água tão clara.

E vejo-me acabado pelos amores, pelo meu amor próprio,
Pela falta de reconhecimento e por não saber ler
Aquilo que faz com que eu funcione neste mundo.

Já chega de poemas auto-interpretativos.
O que se escreve não é o que se lê.

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

O poder de criar

Pensar e escrever,
Mesmo sem querer,
É coisa de toda a gente.

Sentimento é coisa popular.
Quem vive é quem sente.

Mas sentir no papel
E ver a tinta a gravar
É simples como andar
Em petiz num carrossel.

Seja saudando a perda
De um amor passado,
Ou a trágica partida
De alguém chegado,
A tinta é dissolvida
Por uma lágrima perdida.

Querer mais do que isto,
Criando coisas à força,
É de génio do sentimento
Ou de vigarista publicado.

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Soneto das causas passadas

Lembras-te, amor, como fomos felizes?
Como vimos as almas um do outro
E jurámos entre sorrisos que a eternidade
Seria fácil de alcançar se nos mantivéssemos juntos?

Percorrias o meu rosto com a ponta dos teus dedos.
Trazias-me a primavera no teu pulso perfumado
Quando acordava nas manhãs húmidas de inverno
Agachado e quentinho entre ti e os lençóis de flanela.

Após o apogeu de tudo isto, que mais faltaria alcançar?
Velho amor, que seria de nós se não tivéssemos tudo?
O que ficou por ver não era o nosso encanto.

Que futuro será o desta gente - essa que faz perguntas;
Que desenterra amores antigos e não os deixa acabar?
Por não haver resposta, guardarmos as memórias das coisas bonitas.

sábado, 30 de dezembro de 2017

Amontoado

Os acontecimentos sucedem-se
E eu continuo igual.
É uma vontade tal
De não fazer uma única coisa para a minha felicidade;
De não precaver o meu futuro:
De o ver desmoronar-se.

Para que assim, completamente parvo,
Possa jogar isto da vida
Em modo de dificuldade elevada.

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Até quando for tarde demais

Na escuridão rompe o desejo
De te dar as mãos uma vez mais -
De saborear o doce do teu beijo -
De ver em nós duas almas iguais.

O tempo que passe e que acenda
O que de nós ontem era passado,
Que quando sentirmos de novo
Já não me vais querer acordado.

De mim resta o que já foi de ti,
Que não era a inocência nem
As brincadeiras amorosas.

Eram as palavras saudosas
Que não diziam nada.
Soubesse eu saber ler-te calada.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Vento

Que saudades eu tenho do vento a soprar.
Da brisa da serra que fazia bem.
Das tardes no campo a ver as casas.
E à noite, a tremelicar, do frio do mar.

Era uma juventude partilhada e diferente.
Não era de coisas vividas nem de vidas
À espera de se tornarem numa conclusão.
Era de jogos na estrada e fazer parar carros.

E agora? Nada é simples.
Todos se fartam do que têm.
Não existem recomeços.
O sol brilha e a lua completa ciclos.

Basta - recomecemos.

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Condenação

Tudo parece excessivamente arbitrário.

Nasce-se, casa-se e morre-se.
No meio temos filhos e gostamos deles.
Tomamos vinho por vezes e quando
Nos sentimos tristes pensamos no significado disto tudo.

Nascemos e somos crianças até deixarmos de ser.
Vemos os bonecos na televisão;
Rimos de piadas simples e rimos com vontade.
Alguém nos alimenta e dá amor.
Vamos à missa nos domingos de manhã
E pensamos que isso de Deus é coisa simples.

Crescemos. A família anterior começa a morrer
E somos responsáveis por fazer uma nova.
Encontramos alguém e fazemos crianças
Para que essas também se possam rir
Com bonecos coloridos e ir à missa sem pensar.
A mente ocupa-se com uma ocupação diária
E sustentamos a família e a sociedade.

Já é fim do mês. Já não vamos à missa com vontade
E o padre pede que pensemos em fazer o bem.
Ser dependente de quem depende de nós
É um dever mais do que assumido.
Mas não pensamos nisso porque há vinho na mesa
E quando esse se acabar compramos mais.
Vendo o nosso reflexo no espelho
Surge-nos uma estranheza.
Onde está o cabelo?
A mulher ficou gorda.
Os filhos estão na universidade.
A vida foi, toda ela, uma mentira.
E que drama é uma vida onde não há drama.

terça-feira, 28 de novembro de 2017

No canto de um círculo te encontro

No canto de um círculo te encontro
E vejo-te embrulhada em meu redor
Aproveitando o abraço e o calor,
Descrevendo o sorriso que te mostro.

Passas com leveza a ponta dos dedos
Nos meus lábios esperando os teus
E confias-me desconfiada os teus medos
Sem que te passe em pensamento os meus.

Não te pertencem a ti amores excessivos,
Ainda que te pareçam necessários olhares
Molhados que repelem sentimentos nocivos.

Não é daqui, amor, essa vantagem.
Vem. Fica comigo junta e perto.
Aqui já vimos tudo - sigamos viagem.

domingo, 12 de novembro de 2017

Se não tens que beber

Se não tens que beber,
Bebe a razão;
Já que para sofrer
Chega o coração.

Da tua fala sofrida
Só sai a verdade;
Tão curta é a vida
Nesta cidade...

E tão bela é a noite
Que nos mostra o luar
E se reflete pequena
No teu olhar.

Quando amanhecer
E surgir um bocejo
Lembra-te do beijo
Que ficou por te dar.

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Ano após ano continuamos andando

Ano após ano continuamos andando.
Eu que por cá reservo memórias
De fingir ter a vida por comando,
De fugir de todas as recordações,
Desejo voltar a quando éramos um.

Esse pensamento é plural como nós.
Está parado no passado e hoje é
Intermitente com as estações do ano.
Sinto-me triste: é outono, acabou o verão.
A melancolia solta-se e as folhas caem.

É um pensamento quase real:
Quase tão real que é sentimento.
E por mais dias que passem, que de dias
Se farão meses, vai e volta como um banco
De jardim num dia solarengo de agosto.

Por fim irás caminhando em contínuo.
Não há ciclos que não se fechem
Nem invernos que durem o ano todo.

domingo, 15 de outubro de 2017

Foram os nossos pais que nos fizeram quem somos hoje ou foi Deus?

Verdade é ver o tempo a passar sem que doa;
Observar a próxima geração fluir na família
E cantar mais um aniversário ao pequeno.

Verdade é não querer trocar de mobília
Quando os pais morrem e um dia nós também -
Enquanto lá vai o rapaz estudar para fora.

Verdade é não ver o futuro olhando além
Daquilo que foi uma juventude distante
Narrada por quem veio a quem vem.

Verdade é ser velho e sem amante -
Que o medo de ficar sozinho
Foi substituído pela constante de não ter ninguém.

Verdade é saber o caminho
E mesmo assim escolher o errado.
Ninguém merece ficar nesse estado.

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Ex-namorados e contas do Netflix: um problema dos nossos tempos

 
O fim de uma relação envolve sempre um certo sofrimento explícito: uma sensação de impotência para enfrentar os mais simples problemas do dia a dia, sentimo-nos fracos e não queremos sair da cama de manhã para cumprir as nossas obrigações, as nossas comidas favoritas perdem o sabor, olhar para as silhuetas enquanto passeamos nas ruas da cidade faz-nos sempre lembrar da nossa antiga cara metade e aquele filme romântico com o ator famoso já não é o que era.

Precisamente para nos distrair da nossa vida miserável, pensamos que talvez um filme ligeiro ou uma série entretida nos anime o espírito. Afinal de contas subscrevemos ao Netflix e é inegável a qualidade tanto da imagem como do conteúdo desse agregador multimédia. Porém, ao abrirmos a página web do Netflix deparamo-nos com mais um sinal da nossa antiga relação, outrora perfeita, mas que falhou e nos consome por dentro tal inferno sem dar tréguas: a conta de quem era o nosso mais que tudo, a razão de vivermos, a mais significativa parte de nós ainda está presente no refúgio audiovisual que procurávamos para descansar um pouco a alma.

De um momento para o outro esquecemos Stranger Things ou House of Cards ou Narcos e o nosso pensamento deriva uma vez mais para o precipício do romance que pereceu. Ali está a nossa conta que agrega a qualidade de entretenimento que nos faz sonhar e querer viver intensamente junto à conta que agrega o nosso sofrimento flagelado por quem já não nos quer. Fica complicado conciliar tantos sinais que ficaram de um passado mais confortável e em que tudo era jardins de flores coloridas com a sólida dor solitária do presente pântano que fede.

Cegamente enraivecidos, decidimos criar uma outra conta falsa com o intuito de fazer parecer que já seguimos em frente e temos uma nova pessoa na nossa vida. Desse modo, quem anteriormente partilhou aventuras e vivências connosco, irá sentir-se muito mal ao fazer login no Netflix, vendo que a nova conta que lá se encontra é claramente - sem margem para dúvidas - uma nova etapa no nosso mundo romântico e que eles são coisa do passado. Já que estamos bastante enraivecidos escolhemos, no caso dos homens, o nome sugestivo "Sara Sampaio", ou, no caso das mulheres, "José Cid" (porque é ele o apogeu do simbolismo romantico-sexual para as mulheres). Totalmente seria possível. As antigas cara-metade vão cair certamente.

Pouco tempo depois verificamos o quanto ridículo fomos. Notamos que chegámos ao ponto de criar artimanhas no Netflix para iludir quem nos deu tudo. Facetas desprovidas de lógica, tal é o estado decadente do nosso espírito. Pensamos que nos falta alguém - aquela pessoa antiga. Lentamente descemos ao abismo. Ficamos deprimidos.

Onde assenta a reflexão é que fazemos coisas ridículas a toda a hora enquanto estamos apaixonados. Vemos Netflix juntos e trocamos carícias verbais com entoação duvidosa, juramos que tudo o que está bem se vai prolongar e pensamos que é bom ser ridículo porque se gosta da outra pessoa e, em bom sinal, estamos a ser ridículos juntos. Quando isso acaba julgamos que passamos a ser ridículos sozinho - o que é mentira. Não é uma praga de contas caídas em desuso num website de filmes e séries que definem o ridículo nem os atos que a tão simples existência dessas contas levaram a cometer.

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Ser sozinho

É comum querer ter alguém -
Já que sentir falta é um prazer,
Mas se isso não acontecer
Vou sozinho que vou bem.

Mesmo que haja um azar
Ninguém se vai chatear;
E as matérias de sentimento
Não são mais que pensamento.

Se a vida correr bem
Eu durmo descansado,
Se for o contrário
Mais ninguém fica acordado.

E aquelas manhãs chatas
Que precedem o café
Seriam minhas e só minhas -
E no almoço tinha a fé.

Que morte seria essa
Vida que se levava?
Nem a vida estava acesa
Nem a chama se apagava.

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Quadras de outro mundo

No céu escuro da noite
Esconde-se um planeta
Que guarda os segredos
Que não se podem dizer.

Guarda toda a esperança
Dos corações sozinhos
De quem não se cansa
Quando não há solução.

Esse planeta sem mar
Fica longe das estrelas
E não se pode navegar
Com medo de se perder.

Orbita as memórias
De um sistema estelar
Que é feito de sonhos
Mas tem de se calar.

Tem uma lua brilhante
Mas sem lobos que uivam
E desertos extensos
Que são feitos de razão.

Eu visitei o planeta
Quando lá era verão.
Fiquei de mansinho
Até mudar de estação.

Foi uma visita guiada
E com muito para ver -
Era um planeta bonito
Mas fácil de ofender.

Agora vejo à distância
Com lentes de lembrança
Aquele mito planetário
Que um dia terá vida.

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

A passagem das horas

Pensando no passado
Fico, pesado, querendo
Voltar atrás no tempo.
(Era um tempo bom).

O que lá se passou?
É uma pergunta sem
Significado algum.
Passou-se a história
Do avanço do tempo.

Sem pressa se acumulam
Os desgostos do passado
E do tempo e da história
Que ficou por avançar.
Porque o que avançou
Foi de repente o tempo.

E as histórias que foram
Contadas noutra hora
São forjadas pela memória
Que passa por nós agora.
E sem nos querermos
Magoar, achamos melhor
Sentir a história de agora.

Quem poderia querer
Alguma coisa sem querer?

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

The place with two lagoons

People ask me if I have ever found love;
I say to them that's not important.
They ask me if it wouldn't make me happy;
I say that I'm not that constant.

But when I go to the place with two lagoons
And I see those calm waters
My memory stops by those past moments
That showed me how love matters.

When I'm at the place with two lagoons
My heart turns so brightly blue.
Sitting by the mirrored sky shows me
That it was love and it was true.

But today people ask me if it was worth it
And with a shut mouth I respond.
They're not so silly after all
Because they know there was no bond.

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Teresa

Nos anos 60 estava Teresa
Junta ao balcão fumando
E seu marido esperando
Extinguindo a beata acesa.

É avó nos dias que correm
E viúva do cancro que apareceu.
Os homens que morrem
Reclamam sempre o que é seu.

E Teresa não foi exceção...
Teresa escreveu com o coração
Na lápide do antigo marido:

"Está neste local jazido
Quem nunca me faltou
Mas rápido o tempo passou."