sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

O poder de criar

Pensar e escrever,
Mesmo sem querer,
É coisa de toda a gente.

Sentimento é coisa popular.
Quem vive é quem sente.

Mas sentir no papel
E ver a tinta a gravar
É simples como andar
Em petiz num carrossel.

Seja saudando a perda
De um amor passado,
Ou a trágica partida
De alguém chegado,
A tinta é dissolvida
Por uma lágrima perdida.

Querer mais do que isto,
Criando coisas à força,
É de génio do sentimento
Ou de vigarista publicado.

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Soneto das causas passadas

Lembras-te, amor, como fomos felizes?
Como vimos as almas um do outro
E jurámos entre sorrisos que a eternidade
Seria fácil de alcançar se nos mantivéssemos juntos?

Percorrias o meu rosto com a ponta dos teus dedos.
Trazias-me a primavera no teu pulso perfumado
Quando acordava nas manhãs húmidas de inverno
Agachado e quentinho entre ti e os lençóis de flanela.

Após o apogeu de tudo isto, que mais faltaria alcançar?
Velho amor, que seria de nós se não tivéssemos tudo?
O que ficou por ver não era o nosso encanto.

Que futuro será o desta gente - essa que faz perguntas;
Que desenterra amores antigos e não os deixa acabar?
Por não haver resposta, guardarmos as memórias das coisas bonitas.

sábado, 30 de dezembro de 2017

Amontoado

Os acontecimentos sucedem-se
E eu continuo igual.
É uma vontade tal
De não fazer uma única coisa para a minha felicidade;
De não precaver o meu futuro:
De o ver desmoronar-se.

Para que assim, completamente parvo,
Possa jogar isto da vida
Em modo de dificuldade elevada.

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Até quando for tarde demais

Na escuridão rompe o desejo
De te dar as mãos uma vez mais -
De saborear o doce do teu beijo -
De ver em nós duas almas iguais.

O tempo que passe e que acenda
O que de nós ontem era passado,
Que quando sentirmos de novo
Já não me vais querer acordado.

De mim resta o que já foi de ti,
Que não era a inocência nem
As brincadeiras amorosas.

Eram as palavras saudosas
Que não diziam nada.
Soubesse eu saber ler-te calada.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Vento

Que saudades eu tenho do vento a soprar.
Da brisa da serra que fazia bem.
Das tardes no campo a ver as casas.
E à noite, a tremelicar, do frio do mar.

Era uma juventude partilhada e diferente.
Não era de coisas vividas nem de vidas
À espera de se tornarem numa conclusão.
Era de jogos na estrada e fazer parar carros.

E agora? Nada é simples.
Todos se fartam do que têm.
Não existem recomeços.
O sol brilha e a lua completa ciclos.

Basta - recomecemos.

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Condenação

Tudo parece excessivamente arbitrário.

Nasce-se, casa-se e morre-se.
No meio temos filhos e gostamos deles.
Tomamos vinho por vezes e quando
Nos sentimos tristes pensamos no significado disto tudo.

Nascemos e somos crianças até deixarmos de ser.
Vemos os bonecos na televisão;
Rimos de piadas simples e rimos com vontade.
Alguém nos alimenta e dá amor.
Vamos à missa nos domingos de manhã
E pensamos que isso de Deus é coisa simples.

Crescemos. A família anterior começa a morrer
E somos responsáveis por fazer uma nova.
Encontramos alguém e fazemos crianças
Para que essas também se possam rir
Com bonecos coloridos e ir à missa sem pensar.
A mente ocupa-se com uma ocupação diária
E sustentamos a família e a sociedade.

Já é fim do mês. Já não vamos à missa com vontade
E o padre pede que pensemos em fazer o bem.
Ser dependente de quem depende de nós
É um dever mais do que assumido.
Mas não pensamos nisso porque há vinho na mesa
E quando esse se acabar compramos mais.
Vendo o nosso reflexo no espelho
Surge-nos uma estranheza.
Onde está o cabelo?
A mulher ficou gorda.
Os filhos estão na universidade.
A vida foi, toda ela, uma mentira.
E que drama é uma vida onde não há drama.

terça-feira, 28 de novembro de 2017

No canto de um círculo te encontro

No canto de um círculo te encontro
E vejo-te embrulhada em meu redor
Aproveitando o abraço e o calor,
Descrevendo o sorriso que te mostro.

Passas com leveza a ponta dos dedos
Nos meus lábios esperando os teus
E confias-me desconfiada os teus medos
Sem que te passe em pensamento os meus.

Não te pertencem a ti amores excessivos,
Ainda que te pareçam necessários olhares
Molhados que repelem sentimentos nocivos.

Não é daqui, amor, essa vantagem.
Vem. Fica comigo junta e perto.
Aqui já vimos tudo - sigamos viagem.

domingo, 12 de novembro de 2017

Se não tens que beber

Se não tens que beber,
Bebe a razão;
Já que para sofrer
Chega o coração.

Da tua fala sofrida
Só sai a verdade;
Tão curta é a vida
Nesta cidade...

E tão bela é a noite
Que nos mostra o luar
E se reflete pequena
No teu olhar.

Quando amanhecer
E surgir um bocejo
Lembra-te do beijo
Que ficou por te dar.

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Ano após ano continuamos andando

Ano após ano continuamos andando.
Eu que por cá reservo memórias
De fingir ter a vida por comando,
De fugir de todas as recordações,
Desejo voltar a quando éramos um.

Esse pensamento é plural como nós.
Está parado no passado e hoje é
Intermitente com as estações do ano.
Sinto-me triste: é outono, acabou o verão.
A melancolia solta-se e as folhas caem.

É um pensamento quase real:
Quase tão real que é sentimento.
E por mais dias que passem, que de dias
Se farão meses, vai e volta como um banco
De jardim num dia solarengo de agosto.

Por fim irás caminhando em contínuo.
Não há ciclos que não se fechem
Nem invernos que durem o ano todo.

domingo, 15 de outubro de 2017

Foram os nossos pais que nos fizeram quem somos hoje ou foi Deus?

Verdade é ver o tempo a passar sem que doa;
Observar a próxima geração fluir na família
E cantar mais um aniversário ao pequeno.

Verdade é não querer trocar de mobília
Quando os pais morrem e um dia nós também -
Enquanto lá vai o rapaz estudar para fora.

Verdade é não ver o futuro olhando além
Daquilo que foi uma juventude distante
Narrada por quem veio a quem vem.

Verdade é ser velho e sem amante -
Que o medo de ficar sozinho
Foi substituído pela constante de não ter ninguém.

Verdade é saber o caminho
E mesmo assim escolher o errado.
Ninguém merece ficar nesse estado.