Lembras-te, amor, como fomos felizes?
Como vimos as almas um do outro
E jurámos entre sorrisos que a eternidade
Seria fácil de alcançar se nos mantivéssemos juntos?
Percorrias o meu rosto com a ponta dos teus dedos.
Trazias-me a primavera no teu pulso perfumado
Quando acordava nas manhãs húmidas de inverno
Agachado e quentinho entre ti e os lençóis de flanela.
Após o apogeu de tudo isto, que mais faltaria alcançar?
Velho amor, que seria de nós se não tivéssemos tudo?
O que ficou por ver não era o nosso encanto.
Que futuro será o desta gente - essa que faz perguntas;
Que desenterra amores antigos e não os deixa acabar?
Por não haver resposta, guardarmos as memórias das coisas bonitas.
quarta-feira, 3 de janeiro de 2018
sábado, 30 de dezembro de 2017
Amontoado
Os acontecimentos sucedem-se
E eu continuo igual.
É uma vontade tal
De não fazer uma única coisa para a minha felicidade;
De não precaver o meu futuro:
De o ver desmoronar-se.
Para que assim, completamente parvo,
Possa jogar isto da vida
Em modo de dificuldade elevada.
E eu continuo igual.
É uma vontade tal
De não fazer uma única coisa para a minha felicidade;
De não precaver o meu futuro:
De o ver desmoronar-se.
Para que assim, completamente parvo,
Possa jogar isto da vida
Em modo de dificuldade elevada.
sexta-feira, 22 de dezembro de 2017
Até quando for tarde demais
Na escuridão rompe o desejo
De te dar as mãos uma vez mais -
De saborear o doce do teu beijo -
De ver em nós duas almas iguais.
O tempo que passe e que acenda
O que de nós ontem era passado,
Que quando sentirmos de novo
Já não me vais querer acordado.
De mim resta o que já foi de ti,
Que não era a inocência nem
As brincadeiras amorosas.
Eram as palavras saudosas
Que não diziam nada.
Soubesse eu saber ler-te calada.
De te dar as mãos uma vez mais -
De saborear o doce do teu beijo -
De ver em nós duas almas iguais.
O tempo que passe e que acenda
O que de nós ontem era passado,
Que quando sentirmos de novo
Já não me vais querer acordado.
De mim resta o que já foi de ti,
Que não era a inocência nem
As brincadeiras amorosas.
Eram as palavras saudosas
Que não diziam nada.
Soubesse eu saber ler-te calada.
quarta-feira, 20 de dezembro de 2017
Vento
Que saudades eu tenho do vento a soprar.
Da brisa da serra que fazia bem.
Das tardes no campo a ver as casas.
E à noite, a tremelicar, do frio do mar.
Era uma juventude partilhada e diferente.
Não era de coisas vividas nem de vidas
À espera de se tornarem numa conclusão.
Era de jogos na estrada e fazer parar carros.
E agora? Nada é simples.
Todos se fartam do que têm.
Não existem recomeços.
O sol brilha e a lua completa ciclos.
Basta - recomecemos.
Da brisa da serra que fazia bem.
Das tardes no campo a ver as casas.
E à noite, a tremelicar, do frio do mar.
Era uma juventude partilhada e diferente.
Não era de coisas vividas nem de vidas
À espera de se tornarem numa conclusão.
Era de jogos na estrada e fazer parar carros.
E agora? Nada é simples.
Todos se fartam do que têm.
Não existem recomeços.
O sol brilha e a lua completa ciclos.
Basta - recomecemos.
terça-feira, 12 de dezembro de 2017
Condenação
Tudo parece excessivamente arbitrário.
Nasce-se, casa-se e morre-se.
No meio temos filhos e gostamos deles.
Tomamos vinho por vezes e quando
Nos sentimos tristes pensamos no significado disto tudo.
Nascemos e somos crianças até deixarmos de ser.
Vemos os bonecos na televisão;
Rimos de piadas simples e rimos com vontade.
Alguém nos alimenta e dá amor.
Vamos à missa nos domingos de manhã
E pensamos que isso de Deus é coisa simples.
Crescemos. A família anterior começa a morrer
E somos responsáveis por fazer uma nova.
Encontramos alguém e fazemos crianças
Para que essas também se possam rir
Com bonecos coloridos e ir à missa sem pensar.
A mente ocupa-se com uma ocupação diária
E sustentamos a família e a sociedade.
Já é fim do mês. Já não vamos à missa com vontade
E o padre pede que pensemos em fazer o bem.
Ser dependente de quem depende de nós
É um dever mais do que assumido.
Mas não pensamos nisso porque há vinho na mesa
E quando esse se acabar compramos mais.
Vendo o nosso reflexo no espelho
Surge-nos uma estranheza.
Onde está o cabelo?
A mulher ficou gorda.
Os filhos estão na universidade.
A vida foi, toda ela, uma mentira.
E que drama é uma vida onde não há drama.
Nasce-se, casa-se e morre-se.
No meio temos filhos e gostamos deles.
Tomamos vinho por vezes e quando
Nos sentimos tristes pensamos no significado disto tudo.
Nascemos e somos crianças até deixarmos de ser.
Vemos os bonecos na televisão;
Rimos de piadas simples e rimos com vontade.
Alguém nos alimenta e dá amor.
Vamos à missa nos domingos de manhã
E pensamos que isso de Deus é coisa simples.
Crescemos. A família anterior começa a morrer
E somos responsáveis por fazer uma nova.
Encontramos alguém e fazemos crianças
Para que essas também se possam rir
Com bonecos coloridos e ir à missa sem pensar.
A mente ocupa-se com uma ocupação diária
E sustentamos a família e a sociedade.
Já é fim do mês. Já não vamos à missa com vontade
E o padre pede que pensemos em fazer o bem.
Ser dependente de quem depende de nós
É um dever mais do que assumido.
Mas não pensamos nisso porque há vinho na mesa
E quando esse se acabar compramos mais.
Vendo o nosso reflexo no espelho
Surge-nos uma estranheza.
Onde está o cabelo?
A mulher ficou gorda.
Os filhos estão na universidade.
A vida foi, toda ela, uma mentira.
E que drama é uma vida onde não há drama.
terça-feira, 28 de novembro de 2017
No canto de um círculo te encontro
No canto de um círculo te encontro
E vejo-te embrulhada em meu redor
Aproveitando o abraço e o calor,
Descrevendo o sorriso que te mostro.
Passas com leveza a ponta dos dedos
Nos meus lábios esperando os teus
E confias-me desconfiada os teus medos
Sem que te passe em pensamento os meus.
Não te pertencem a ti amores excessivos,
Ainda que te pareçam necessários olhares
Molhados que repelem sentimentos nocivos.
Não é daqui, amor, essa vantagem.
Vem. Fica comigo junta e perto.
Aqui já vimos tudo - sigamos viagem.
E vejo-te embrulhada em meu redor
Aproveitando o abraço e o calor,
Descrevendo o sorriso que te mostro.
Passas com leveza a ponta dos dedos
Nos meus lábios esperando os teus
E confias-me desconfiada os teus medos
Sem que te passe em pensamento os meus.
Não te pertencem a ti amores excessivos,
Ainda que te pareçam necessários olhares
Molhados que repelem sentimentos nocivos.
Não é daqui, amor, essa vantagem.
Vem. Fica comigo junta e perto.
Aqui já vimos tudo - sigamos viagem.
domingo, 12 de novembro de 2017
Se não tens que beber
Se não tens que beber,
Bebe a razão;
Já que para sofrer
Chega o coração.
Da tua fala sofrida
Só sai a verdade;
Tão curta é a vida
Nesta cidade...
E tão bela é a noite
Que nos mostra o luar
E se reflete pequena
No teu olhar.
Quando amanhecer
E surgir um bocejo
Lembra-te do beijo
Que ficou por te dar.
Bebe a razão;
Já que para sofrer
Chega o coração.
Da tua fala sofrida
Só sai a verdade;
Tão curta é a vida
Nesta cidade...
E tão bela é a noite
Que nos mostra o luar
E se reflete pequena
No teu olhar.
Quando amanhecer
E surgir um bocejo
Lembra-te do beijo
Que ficou por te dar.
quinta-feira, 2 de novembro de 2017
Ano após ano continuamos andando
Ano após ano continuamos andando.
Eu que por cá reservo memórias
De fingir ter a vida por comando,
De fugir de todas as recordações,
Desejo voltar a quando éramos um.
Esse pensamento é plural como nós.
Está parado no passado e hoje é
Intermitente com as estações do ano.
Sinto-me triste: é outono, acabou o verão.
A melancolia solta-se e as folhas caem.
É um pensamento quase real:
Quase tão real que é sentimento.
E por mais dias que passem, que de dias
Se farão meses, vai e volta como um banco
De jardim num dia solarengo de agosto.
Por fim irás caminhando em contínuo.
Não há ciclos que não se fechem
Nem invernos que durem o ano todo.
Eu que por cá reservo memórias
De fingir ter a vida por comando,
De fugir de todas as recordações,
Desejo voltar a quando éramos um.
Esse pensamento é plural como nós.
Está parado no passado e hoje é
Intermitente com as estações do ano.
Sinto-me triste: é outono, acabou o verão.
A melancolia solta-se e as folhas caem.
É um pensamento quase real:
Quase tão real que é sentimento.
E por mais dias que passem, que de dias
Se farão meses, vai e volta como um banco
De jardim num dia solarengo de agosto.
Por fim irás caminhando em contínuo.
Não há ciclos que não se fechem
Nem invernos que durem o ano todo.
domingo, 15 de outubro de 2017
Foram os nossos pais que nos fizeram quem somos hoje ou foi Deus?
Verdade é ver o tempo a passar sem que doa;
Observar a próxima geração fluir na família
E cantar mais um aniversário ao pequeno.
Verdade é não querer trocar de mobília
Quando os pais morrem e um dia nós também -
Enquanto lá vai o rapaz estudar para fora.
Verdade é não ver o futuro olhando além
Daquilo que foi uma juventude distante
Narrada por quem veio a quem vem.
Verdade é ser velho e sem amante -
Que o medo de ficar sozinho
Foi substituído pela constante de não ter ninguém.
Verdade é saber o caminho
E mesmo assim escolher o errado.
Ninguém merece ficar nesse estado.
Observar a próxima geração fluir na família
E cantar mais um aniversário ao pequeno.
Verdade é não querer trocar de mobília
Quando os pais morrem e um dia nós também -
Enquanto lá vai o rapaz estudar para fora.
Verdade é não ver o futuro olhando além
Daquilo que foi uma juventude distante
Narrada por quem veio a quem vem.
Verdade é ser velho e sem amante -
Que o medo de ficar sozinho
Foi substituído pela constante de não ter ninguém.
Verdade é saber o caminho
E mesmo assim escolher o errado.
Ninguém merece ficar nesse estado.
sexta-feira, 22 de setembro de 2017
Ex-namorados e contas do Netflix: um problema dos nossos tempos
O fim de uma relação envolve sempre um certo sofrimento explícito: uma sensação de impotência para enfrentar os mais simples problemas do dia a dia, sentimo-nos fracos e não queremos sair da cama de manhã para cumprir as nossas obrigações, as nossas comidas favoritas perdem o sabor, olhar para as silhuetas enquanto passeamos nas ruas da cidade faz-nos sempre lembrar da nossa antiga cara metade e aquele filme romântico com o ator famoso já não é o que era.
Precisamente para nos distrair da nossa vida miserável, pensamos que talvez um filme ligeiro ou uma série entretida nos anime o espírito. Afinal de contas subscrevemos ao Netflix e é inegável a qualidade tanto da imagem como do conteúdo desse agregador multimédia. Porém, ao abrirmos a página web do Netflix deparamo-nos com mais um sinal da nossa antiga relação, outrora perfeita, mas que falhou e nos consome por dentro tal inferno sem dar tréguas: a conta de quem era o nosso mais que tudo, a razão de vivermos, a mais significativa parte de nós ainda está presente no refúgio audiovisual que procurávamos para descansar um pouco a alma.
De um momento para o outro esquecemos Stranger Things ou House of Cards ou Narcos e o nosso pensamento deriva uma vez mais para o precipício do romance que pereceu. Ali está a nossa conta que agrega a qualidade de entretenimento que nos faz sonhar e querer viver intensamente junto à conta que agrega o nosso sofrimento flagelado por quem já não nos quer. Fica complicado conciliar tantos sinais que ficaram de um passado mais confortável e em que tudo era jardins de flores coloridas com a sólida dor solitária do presente pântano que fede.
Cegamente enraivecidos, decidimos criar uma outra conta falsa com o intuito de fazer parecer que já seguimos em frente e temos uma nova pessoa na nossa vida. Desse modo, quem anteriormente partilhou aventuras e vivências connosco, irá sentir-se muito mal ao fazer login no Netflix, vendo que a nova conta que lá se encontra é claramente - sem margem para dúvidas - uma nova etapa no nosso mundo romântico e que eles são coisa do passado. Já que estamos bastante enraivecidos escolhemos, no caso dos homens, o nome sugestivo "Sara Sampaio", ou, no caso das mulheres, "José Cid" (porque é ele o apogeu do simbolismo romantico-sexual para as mulheres). Totalmente seria possível. As antigas cara-metade vão cair certamente.
Pouco tempo depois verificamos o quanto ridículo fomos. Notamos que chegámos ao ponto de criar artimanhas no Netflix para iludir quem nos deu tudo. Facetas desprovidas de lógica, tal é o estado decadente do nosso espírito. Pensamos que nos falta alguém - aquela pessoa antiga. Lentamente descemos ao abismo. Ficamos deprimidos.
Onde assenta a reflexão é que fazemos coisas ridículas a toda a hora enquanto estamos apaixonados. Vemos Netflix juntos e trocamos carícias verbais com entoação duvidosa, juramos que tudo o que está bem se vai prolongar e pensamos que é bom ser ridículo porque se gosta da outra pessoa e, em bom sinal, estamos a ser ridículos juntos. Quando isso acaba julgamos que passamos a ser ridículos sozinho - o que é mentira. Não é uma praga de contas caídas em desuso num website de filmes e séries que definem o ridículo nem os atos que a tão simples existência dessas contas levaram a cometer.
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