Quem conhecia os relógios antes de haver tempo
Que me diga o que tinham eles para dizer.
A que apontavam os ponteiros de cerâmica rica
Encontrados num eixo central equidistante às horas do sonho?
Que diziam as pontas baratas em numeração romana
Se nem era em círculo que o tempo que se consumava?
Ou o não-sei-quê que tinha um relógio de ouro
Que disse à não-sei-quem que o tinha de acertar?
O tempo... que tempo? Para onde vamos - essa coisa de amanhã?
Tudo se prepara para reaproveitar o que se passou ontem.
Para remoer no passado como trituradora industrial gigante
E remexer pensativamente com a colher de pau da análise consequente.
Deixem estar lá o que de lá não volta.
Qualquer dia estará hoje em causa o que faltou dizer
E o que não foi dito desta feita amanhã.
Que alegria vos traz isso; que conquista pensam recuperar?
A hora do sonho nunca vai chegar.
Partimos todos de um abismo com um metro de algura
No qual só cai quem não se consegue levantar.
E não conseguimos ver nada de onde não há nada.
Chegamos ao fim cansados e sem filhos.
Vivemos no tempo em que não havia tempo -
Não porque não o havia ou não tinha sido inventado.
Vivemos na recusa de deixar o tempo passar.
quarta-feira, 12 de abril de 2017
domingo, 9 de abril de 2017
Como esquecer alguém
Não está em minha mente, amor,
Meu amor que bem me mente -
Um cardápio de sentimentos suados
Com lentos e elegantes acabados.
Está em meu pensamento, meu bem,
Uma quadrilha de intentos enquistados;
Sofrem por não terem curto rumo
E se alongarem em pensamentos pesados.
Quais as conquistas do amor acabado
Quando à análise se deve a beleza do mundo?
Dizes que o amor é passado;
Dizes que o amor é sortudo; -
Mas quantas lógicas deixaram passar
Esses sonetos de quem recua a amar?
Meu amor que bem me mente -
Um cardápio de sentimentos suados
Com lentos e elegantes acabados.
Está em meu pensamento, meu bem,
Uma quadrilha de intentos enquistados;
Sofrem por não terem curto rumo
E se alongarem em pensamentos pesados.
Quais as conquistas do amor acabado
Quando à análise se deve a beleza do mundo?
Dizes que o amor é passado;
Dizes que o amor é sortudo; -
Mas quantas lógicas deixaram passar
Esses sonetos de quem recua a amar?
quarta-feira, 22 de março de 2017
Poema disciplinado
As regras dum poema
Não são as dum quartel.
Agarra-se numa pena
E escreve-se no papel.
Parece bastante simples -
Então qual será a razão
De na poesia faltar gentes? -
Ou será somente ilusão?
Há aqueles que acham
Que sem algum conteúdo
Não se planta senão
Um ponto escrito sisudo.
Ou que no bico do lápis
Tem de se encontrar
Sempre um final feliz
Prestes a se revelar.
Ou que é complicado
Meter tanto artefacto
Num poema enfeitado
Por ter de ser abstracto.
Ou usar uma palavra rica
E difícil de entender,
Já que a rima e a métrica
Não se podem ofender.
Há tantos poetas caídos
Nessas longas escarpas
Dos amores escondidos
Entre versos e cartas.
São esses que amam
Pensando na vida;
Não na que levam -
Mas numa sentida
Porque só a alcançam
Quando pegam na pena,
Entre quadras dançam
E escrevem o poema.
Não são as dum quartel.
Agarra-se numa pena
E escreve-se no papel.
Parece bastante simples -
Então qual será a razão
De na poesia faltar gentes? -
Ou será somente ilusão?
Há aqueles que acham
Que sem algum conteúdo
Não se planta senão
Um ponto escrito sisudo.
Ou que no bico do lápis
Tem de se encontrar
Sempre um final feliz
Prestes a se revelar.
Ou que é complicado
Meter tanto artefacto
Num poema enfeitado
Por ter de ser abstracto.
Ou usar uma palavra rica
E difícil de entender,
Já que a rima e a métrica
Não se podem ofender.
Há tantos poetas caídos
Nessas longas escarpas
Dos amores escondidos
Entre versos e cartas.
São esses que amam
Pensando na vida;
Não na que levam -
Mas numa sentida
Porque só a alcançam
Quando pegam na pena,
Entre quadras dançam
E escrevem o poema.
sábado, 18 de março de 2017
Nadando em dinheiro
Coitados daqueles três farrapados seminus mortos na rua.
Cobriram-nos com um cobertor pois cheiravam mal - cheiravam a podre.
Há três dias a polícia de intervenção varreu as ruas da capital
E o que resta hoje é uma triste calma.
A oposição não existe mais...
Dizia no jornal diário com impressionante tiragem
Que o país corre como três rodas dentadas interligadas.
O jovem líder eleito há três meses é o óleo que as lubrifica de modo
A tudo funcionar suave e ininterruptamente.
São políticas velhas vindas de ideias novas
Que começam nas promessas de coisas vagas
E colidem na liberdade de deixarmos que pensem por nós.
Afinal, é confortável assim: pensar é um risco enorme.
Se não for necessário recorrer ao pensamento
Haverá emprego para todos porque as organizações
Terão toda a sua frente humana pronta a obedecer.
Clicar, consumir e obedecer - clicar, consumir e obedecer.
Enquanto, nadando em dinheiro, o rechonchudo capital
Devora a carne picada que varre as ruas e as torres corporativas.
Oxalá o comunismo seja melhor - que faça rir enquanto choramos.
Cobriram-nos com um cobertor pois cheiravam mal - cheiravam a podre.
Há três dias a polícia de intervenção varreu as ruas da capital
E o que resta hoje é uma triste calma.
A oposição não existe mais...
Dizia no jornal diário com impressionante tiragem
Que o país corre como três rodas dentadas interligadas.
O jovem líder eleito há três meses é o óleo que as lubrifica de modo
A tudo funcionar suave e ininterruptamente.
São políticas velhas vindas de ideias novas
Que começam nas promessas de coisas vagas
E colidem na liberdade de deixarmos que pensem por nós.
Afinal, é confortável assim: pensar é um risco enorme.
Se não for necessário recorrer ao pensamento
Haverá emprego para todos porque as organizações
Terão toda a sua frente humana pronta a obedecer.
Clicar, consumir e obedecer - clicar, consumir e obedecer.
Enquanto, nadando em dinheiro, o rechonchudo capital
Devora a carne picada que varre as ruas e as torres corporativas.
Oxalá o comunismo seja melhor - que faça rir enquanto choramos.
domingo, 12 de março de 2017
Minha alma nua & despida
Minha alma nua e despida
Num entardecer branco claro
É arrojada afim de se conhecer
Enquanto capta e admira a lua.
Um fugaz passageiro passa
Por ela enquanto finge saber
De quem é aquele luar transparente,
Aquele que passa em passo rápido.
Brilha, brilha alta e relevante.
Brilha desde o início dos tempos
Minha alma ao luar que aparece,
Vista de fora por quem passeia.
Olho a noite passando numa
Quimera suave e psicológica.
Olho interiormente e minha
Alma ilumina-se num contínuo.
Visto um casaco longo
E jamais minha alma nua
E despida na noite brilhante
Sente o frio do entardecer branco.
Num entardecer branco claro
É arrojada afim de se conhecer
Enquanto capta e admira a lua.
Um fugaz passageiro passa
Por ela enquanto finge saber
De quem é aquele luar transparente,
Aquele que passa em passo rápido.
Brilha, brilha alta e relevante.
Brilha desde o início dos tempos
Minha alma ao luar que aparece,
Vista de fora por quem passeia.
Olho a noite passando numa
Quimera suave e psicológica.
Olho interiormente e minha
Alma ilumina-se num contínuo.
Visto um casaco longo
E jamais minha alma nua
E despida na noite brilhante
Sente o frio do entardecer branco.
terça-feira, 14 de fevereiro de 2017
As lembranças sem nome que a vida nos traz
Nós, os românticos descuidados,
Quando perante o amor flagrante
Nos encontramos,
Esse de intrigas e maldizeres,
Fingimos não o ver.
(Porque somos românticos).
Se o não fizéssemos
Seriamos meros realistas sinistros
(Porque ser real mete medo).
Se nos reconhecêssemos como somos
Caberia-nos todas as infelicidades
E não passaria nunca mais por ninguém
Um gordo sorriso nosso.
(Porque todas as histórias de amor acabam).
Após o célebre ato de nos definirmos
Como românticos, perdemos toda
A gota de amor dentro de nós.
(Porque é preciso um descuido
Para sermos chamados de românticos).
Quando perante o amor flagrante
Nos encontramos,
Esse de intrigas e maldizeres,
Fingimos não o ver.
(Porque somos românticos).
Se o não fizéssemos
Seriamos meros realistas sinistros
(Porque ser real mete medo).
Se nos reconhecêssemos como somos
Caberia-nos todas as infelicidades
E não passaria nunca mais por ninguém
Um gordo sorriso nosso.
(Porque todas as histórias de amor acabam).
Após o célebre ato de nos definirmos
Como românticos, perdemos toda
A gota de amor dentro de nós.
(Porque é preciso um descuido
Para sermos chamados de românticos).
segunda-feira, 2 de janeiro de 2017
Luz
Luz: é ano novo e os fogos não param;
Um com a fita filmando insanamente;
Outro, diz que este é novo e o velho fica para trás
(O ano, que o vinho refrigerante foi feito hora e meia antes).
'Ó Elsa!?' - para onde me fugiste, sua danada?
'Hey oh!' - responde-me no recinto ao lado
E como é ano novo ninguém reconhece o velho cantar
Que ruge nos céus, rebentando e espelhando-se no rio.
Faz-se meia-noite e meia hora - como dizem os velhos.
Tenho de ver o telemóvel - espero uma mensagem importante.
Tinha treze. Treze mensagens e senti-me o rei do mundo.
Duas delas informavam-me das ofertas renovadas do meu tarifário,
Mas a sensação de onze pessoas se preocuparem comigo
A uma hora tardia como a presente iluminou-me o coração com sorrisos.
"Igualmente, ficas sempre!" teclei a um. "Decerto receberás o que desejas",
Digitei a outro. E assim se vê a amizade complexa. É bonito - é amor do ano passado.
Tudo fazia todo o sentido.
E tudo faz e fará, graças a Deus.
Que é um ano novo, igual ao velho, semelhante ao que veio antes.
Com uma pequena diferença: é um ano novo.
E novas são as minhas ruminantes memórias, sobejos dos meus antigos pensamentos.
Um com a fita filmando insanamente;
Outro, diz que este é novo e o velho fica para trás
(O ano, que o vinho refrigerante foi feito hora e meia antes).
'Ó Elsa!?' - para onde me fugiste, sua danada?
'Hey oh!' - responde-me no recinto ao lado
E como é ano novo ninguém reconhece o velho cantar
Que ruge nos céus, rebentando e espelhando-se no rio.
Faz-se meia-noite e meia hora - como dizem os velhos.
Tenho de ver o telemóvel - espero uma mensagem importante.
Tinha treze. Treze mensagens e senti-me o rei do mundo.
Duas delas informavam-me das ofertas renovadas do meu tarifário,
Mas a sensação de onze pessoas se preocuparem comigo
A uma hora tardia como a presente iluminou-me o coração com sorrisos.
"Igualmente, ficas sempre!" teclei a um. "Decerto receberás o que desejas",
Digitei a outro. E assim se vê a amizade complexa. É bonito - é amor do ano passado.
Tudo fazia todo o sentido.
E tudo faz e fará, graças a Deus.
Que é um ano novo, igual ao velho, semelhante ao que veio antes.
Com uma pequena diferença: é um ano novo.
E novas são as minhas ruminantes memórias, sobejos dos meus antigos pensamentos.
domingo, 1 de janeiro de 2017
sexta-feira, 23 de dezembro de 2016
Quitéria
O nome da minha tia-bisavó, qual era esse?
Era um pouco estranho, soava mal aos dias correntes.
Lembro-me de pensar que ter esse nome era como ferros quentes
Aplicando dor horrível em qualquer sítio onde pele houvesse.
Mas pensando um bocadinho melhor:
A minha tia-bisavó era de um tempo diferente
No qual os dias de trabalho eram passados ao calor
E quando era para descansar era porque se estava doente.
Mas o nome - esse não me recordo.
Ela sempre foi velha desde o dia que nasci...
E quando ela era nova, com o vigor todo?
Penso mais um pouco e alguém namorou uma Quitéria.
A Ti Quitéria! Era esse o nome dela! E o meu tio-bisavô
Não achava o nome estranho quando se comprometeu à séria!
Era um pouco estranho, soava mal aos dias correntes.
Lembro-me de pensar que ter esse nome era como ferros quentes
Aplicando dor horrível em qualquer sítio onde pele houvesse.
Mas pensando um bocadinho melhor:
A minha tia-bisavó era de um tempo diferente
No qual os dias de trabalho eram passados ao calor
E quando era para descansar era porque se estava doente.
Mas o nome - esse não me recordo.
Ela sempre foi velha desde o dia que nasci...
E quando ela era nova, com o vigor todo?
Penso mais um pouco e alguém namorou uma Quitéria.
A Ti Quitéria! Era esse o nome dela! E o meu tio-bisavô
Não achava o nome estranho quando se comprometeu à séria!
domingo, 20 de novembro de 2016
Domingo entre um cobertor quentinho
Chove bem e o casaco ensope-se.
Devia ter trazido um impermeável,
Penso enquanto corro do Campo Pequeno
À Avenida de Berna.
Os carros passam e fazem barulhos de cidade.
Encharcado, oiço os meus passos nas barreiras.
As pessoas com pressa num rodopiar de umbrelas
Abrigam-se da vaga de vento que muda o declive da chuva.
E eu, infeliz desabrigado, dependo da minha rapidez para chegar a casa.
Chego à Avenida de Roma com efeitos natalícios.
É crepúsculo e a rua iluminada de festividade antecipada
Dá uma sensação de acolhimento próspero a sorrisos.
(As melhores coisas do mundo acontecem no lusco-fusco).
A claridade do sol está diminuta e a chuva a abrandar.
As nuvens dissipam-se - deixam passar a fraca luz do sol -
E as montras alegram quem passa por elas.
Fatos e vestidos lindos, brinquedos coloridos; tudo o que é bom.
Uns metros mais tarde encosto-me às paredes húmidas da minha casa:
Na rua molhada, com o casaco encharcado e a o cabelo a escorrer.
As árvores seminuas gritam o Outono em que estamos,
Apesar do ar fresco que me arrepia a cara.
Estão folhas castanhas caídas no chão;
Tal qual eu a entrar na alpendrada -
Despedindo-me da rua que me fez desconfortável ao frio
E assente numa ideia fixa de que o belo é não usar guarda-chuva.
Agasalho-me num cobertor quentinho enquanto a roupa está a secar.
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