Coitados daqueles três farrapados seminus mortos na rua.
Cobriram-nos com um cobertor pois cheiravam mal - cheiravam a podre.
Há três dias a polícia de intervenção varreu as ruas da capital
E o que resta hoje é uma triste calma.
A oposição não existe mais...
Dizia no jornal diário com impressionante tiragem
Que o país corre como três rodas dentadas interligadas.
O jovem líder eleito há três meses é o óleo que as lubrifica de modo
A tudo funcionar suave e ininterruptamente.
São políticas velhas vindas de ideias novas
Que começam nas promessas de coisas vagas
E colidem na liberdade de deixarmos que pensem por nós.
Afinal, é confortável assim: pensar é um risco enorme.
Se não for necessário recorrer ao pensamento
Haverá emprego para todos porque as organizações
Terão toda a sua frente humana pronta a obedecer.
Clicar, consumir e obedecer - clicar, consumir e obedecer.
Enquanto, nadando em dinheiro, o rechonchudo capital
Devora a carne picada que varre as ruas e as torres corporativas.
Oxalá o comunismo seja melhor - que faça rir enquanto choramos.
sábado, 18 de março de 2017
domingo, 12 de março de 2017
Minha alma nua & despida
Minha alma nua e despida
Num entardecer branco claro
É arrojada afim de se conhecer
Enquanto capta e admira a lua.
Um fugaz passageiro passa
Por ela enquanto finge saber
De quem é aquele luar transparente,
Aquele que passa em passo rápido.
Brilha, brilha alta e relevante.
Brilha desde o início dos tempos
Minha alma ao luar que aparece,
Vista de fora por quem passeia.
Olho a noite passando numa
Quimera suave e psicológica.
Olho interiormente e minha
Alma ilumina-se num contínuo.
Visto um casaco longo
E jamais minha alma nua
E despida na noite brilhante
Sente o frio do entardecer branco.
Num entardecer branco claro
É arrojada afim de se conhecer
Enquanto capta e admira a lua.
Um fugaz passageiro passa
Por ela enquanto finge saber
De quem é aquele luar transparente,
Aquele que passa em passo rápido.
Brilha, brilha alta e relevante.
Brilha desde o início dos tempos
Minha alma ao luar que aparece,
Vista de fora por quem passeia.
Olho a noite passando numa
Quimera suave e psicológica.
Olho interiormente e minha
Alma ilumina-se num contínuo.
Visto um casaco longo
E jamais minha alma nua
E despida na noite brilhante
Sente o frio do entardecer branco.
terça-feira, 14 de fevereiro de 2017
As lembranças sem nome que a vida nos traz
Nós, os românticos descuidados,
Quando perante o amor flagrante
Nos encontramos,
Esse de intrigas e maldizeres,
Fingimos não o ver.
(Porque somos românticos).
Se o não fizéssemos
Seriamos meros realistas sinistros
(Porque ser real mete medo).
Se nos reconhecêssemos como somos
Caberia-nos todas as infelicidades
E não passaria nunca mais por ninguém
Um gordo sorriso nosso.
(Porque todas as histórias de amor acabam).
Após o célebre ato de nos definirmos
Como românticos, perdemos toda
A gota de amor dentro de nós.
(Porque é preciso um descuido
Para sermos chamados de românticos).
Quando perante o amor flagrante
Nos encontramos,
Esse de intrigas e maldizeres,
Fingimos não o ver.
(Porque somos românticos).
Se o não fizéssemos
Seriamos meros realistas sinistros
(Porque ser real mete medo).
Se nos reconhecêssemos como somos
Caberia-nos todas as infelicidades
E não passaria nunca mais por ninguém
Um gordo sorriso nosso.
(Porque todas as histórias de amor acabam).
Após o célebre ato de nos definirmos
Como românticos, perdemos toda
A gota de amor dentro de nós.
(Porque é preciso um descuido
Para sermos chamados de românticos).
segunda-feira, 2 de janeiro de 2017
Luz
Luz: é ano novo e os fogos não param;
Um com a fita filmando insanamente;
Outro, diz que este é novo e o velho fica para trás
(O ano, que o vinho refrigerante foi feito hora e meia antes).
'Ó Elsa!?' - para onde me fugiste, sua danada?
'Hey oh!' - responde-me no recinto ao lado
E como é ano novo ninguém reconhece o velho cantar
Que ruge nos céus, rebentando e espelhando-se no rio.
Faz-se meia-noite e meia hora - como dizem os velhos.
Tenho de ver o telemóvel - espero uma mensagem importante.
Tinha treze. Treze mensagens e senti-me o rei do mundo.
Duas delas informavam-me das ofertas renovadas do meu tarifário,
Mas a sensação de onze pessoas se preocuparem comigo
A uma hora tardia como a presente iluminou-me o coração com sorrisos.
"Igualmente, ficas sempre!" teclei a um. "Decerto receberás o que desejas",
Digitei a outro. E assim se vê a amizade complexa. É bonito - é amor do ano passado.
Tudo fazia todo o sentido.
E tudo faz e fará, graças a Deus.
Que é um ano novo, igual ao velho, semelhante ao que veio antes.
Com uma pequena diferença: é um ano novo.
E novas são as minhas ruminantes memórias, sobejos dos meus antigos pensamentos.
Um com a fita filmando insanamente;
Outro, diz que este é novo e o velho fica para trás
(O ano, que o vinho refrigerante foi feito hora e meia antes).
'Ó Elsa!?' - para onde me fugiste, sua danada?
'Hey oh!' - responde-me no recinto ao lado
E como é ano novo ninguém reconhece o velho cantar
Que ruge nos céus, rebentando e espelhando-se no rio.
Faz-se meia-noite e meia hora - como dizem os velhos.
Tenho de ver o telemóvel - espero uma mensagem importante.
Tinha treze. Treze mensagens e senti-me o rei do mundo.
Duas delas informavam-me das ofertas renovadas do meu tarifário,
Mas a sensação de onze pessoas se preocuparem comigo
A uma hora tardia como a presente iluminou-me o coração com sorrisos.
"Igualmente, ficas sempre!" teclei a um. "Decerto receberás o que desejas",
Digitei a outro. E assim se vê a amizade complexa. É bonito - é amor do ano passado.
Tudo fazia todo o sentido.
E tudo faz e fará, graças a Deus.
Que é um ano novo, igual ao velho, semelhante ao que veio antes.
Com uma pequena diferença: é um ano novo.
E novas são as minhas ruminantes memórias, sobejos dos meus antigos pensamentos.
domingo, 1 de janeiro de 2017
sexta-feira, 23 de dezembro de 2016
Quitéria
O nome da minha tia-bisavó, qual era esse?
Era um pouco estranho, soava mal aos dias correntes.
Lembro-me de pensar que ter esse nome era como ferros quentes
Aplicando dor horrível em qualquer sítio onde pele houvesse.
Mas pensando um bocadinho melhor:
A minha tia-bisavó era de um tempo diferente
No qual os dias de trabalho eram passados ao calor
E quando era para descansar era porque se estava doente.
Mas o nome - esse não me recordo.
Ela sempre foi velha desde o dia que nasci...
E quando ela era nova, com o vigor todo?
Penso mais um pouco e alguém namorou uma Quitéria.
A Ti Quitéria! Era esse o nome dela! E o meu tio-bisavô
Não achava o nome estranho quando se comprometeu à séria!
Era um pouco estranho, soava mal aos dias correntes.
Lembro-me de pensar que ter esse nome era como ferros quentes
Aplicando dor horrível em qualquer sítio onde pele houvesse.
Mas pensando um bocadinho melhor:
A minha tia-bisavó era de um tempo diferente
No qual os dias de trabalho eram passados ao calor
E quando era para descansar era porque se estava doente.
Mas o nome - esse não me recordo.
Ela sempre foi velha desde o dia que nasci...
E quando ela era nova, com o vigor todo?
Penso mais um pouco e alguém namorou uma Quitéria.
A Ti Quitéria! Era esse o nome dela! E o meu tio-bisavô
Não achava o nome estranho quando se comprometeu à séria!
domingo, 20 de novembro de 2016
Domingo entre um cobertor quentinho
Chove bem e o casaco ensope-se.
Devia ter trazido um impermeável,
Penso enquanto corro do Campo Pequeno
À Avenida de Berna.
Os carros passam e fazem barulhos de cidade.
Encharcado, oiço os meus passos nas barreiras.
As pessoas com pressa num rodopiar de umbrelas
Abrigam-se da vaga de vento que muda o declive da chuva.
E eu, infeliz desabrigado, dependo da minha rapidez para chegar a casa.
Chego à Avenida de Roma com efeitos natalícios.
É crepúsculo e a rua iluminada de festividade antecipada
Dá uma sensação de acolhimento próspero a sorrisos.
(As melhores coisas do mundo acontecem no lusco-fusco).
A claridade do sol está diminuta e a chuva a abrandar.
As nuvens dissipam-se - deixam passar a fraca luz do sol -
E as montras alegram quem passa por elas.
Fatos e vestidos lindos, brinquedos coloridos; tudo o que é bom.
Uns metros mais tarde encosto-me às paredes húmidas da minha casa:
Na rua molhada, com o casaco encharcado e a o cabelo a escorrer.
As árvores seminuas gritam o Outono em que estamos,
Apesar do ar fresco que me arrepia a cara.
Estão folhas castanhas caídas no chão;
Tal qual eu a entrar na alpendrada -
Despedindo-me da rua que me fez desconfortável ao frio
E assente numa ideia fixa de que o belo é não usar guarda-chuva.
Agasalho-me num cobertor quentinho enquanto a roupa está a secar.
segunda-feira, 14 de novembro de 2016
Quando se deixa de lutar por uma relação
Dia 1:
Ao tomar esta decisão não pensei em mim - mas em nós.
(Mentira...)
Concluímos ambos que "era melhor assim": seguirmos sós.
(Unilateralmente - sem razões e com ira!)
Dia 2:
Já dormimos sobre isso e tudo está a ficar melhor.
(Conseguiste dormir?)
Não há traços a carvão na tela do destino por concluir.
(Somente quando o artista tem à arte pavor.)
Dia 5:
Olá de novo, como está tudo?
(Normal.)
A interação dos astros fizeram-me mudo.
(Tal e qual.)
Dia 25:
Era a distância, era a rotina - o que querias que acontecesse?
(Que lutasses como eu lutei.)
Meu Deus - onde foi que eu errei?
(Em te cansares - em deixares que morresse.)
Dia 50:
Vi-te ontem na biblioteca. Vi que seguiste sem rei nem lei.
(O que querias que acontecesse?)
Que lutasses como eu lutei.
(Mil companhias e nenhuma com quem merece)
Dia 125:
Tenho saudades tuas, vamos voltar ao que éramos.
(Esse passado está esquecido.)
A memória traz um sentimento adormecido...
(É por causa de ti que no presente não namoramos.)
Dia 1875 + π/2
Já és doutora, que orgulho tenho em ti.
(Os meus pais também.)
Um engenheiro e uma médica - pensa bem...
(Pareces aquele parvo dum livro que uma vez li.)
Ao tomar esta decisão não pensei em mim - mas em nós.
(Mentira...)
Concluímos ambos que "era melhor assim": seguirmos sós.
(Unilateralmente - sem razões e com ira!)
Dia 2:
Já dormimos sobre isso e tudo está a ficar melhor.
(Conseguiste dormir?)
Não há traços a carvão na tela do destino por concluir.
(Somente quando o artista tem à arte pavor.)
Dia 5:
Olá de novo, como está tudo?
(Normal.)
A interação dos astros fizeram-me mudo.
(Tal e qual.)
Dia 25:
Era a distância, era a rotina - o que querias que acontecesse?
(Que lutasses como eu lutei.)
Meu Deus - onde foi que eu errei?
(Em te cansares - em deixares que morresse.)
Dia 50:
Vi-te ontem na biblioteca. Vi que seguiste sem rei nem lei.
(O que querias que acontecesse?)
Que lutasses como eu lutei.
(Mil companhias e nenhuma com quem merece)
Dia 125:
Tenho saudades tuas, vamos voltar ao que éramos.
(Esse passado está esquecido.)
A memória traz um sentimento adormecido...
(É por causa de ti que no presente não namoramos.)
Dia 1875 + π/2
Já és doutora, que orgulho tenho em ti.
(Os meus pais também.)
Um engenheiro e uma médica - pensa bem...
(Pareces aquele parvo dum livro que uma vez li.)
segunda-feira, 31 de outubro de 2016
Patrícia
Ó fogo, ó ardor no entardecer do outono
Que consomem em brasa um sorridente pôr-do-sol
Alaranjado e luminoso no horizonte das planícies.
Cinzentas as nuvens, amena a temperatura - pálido o rosto.
Que rosto! Que rosto... Com olhar do outono plácido.
Serena sensação de definições soltas, de axiomas
Panorâmicos na nossa vista. Seja a natureza assim como está
E que fique aí de onde és - Patrícia.
Que consomem em brasa um sorridente pôr-do-sol
Alaranjado e luminoso no horizonte das planícies.
Cinzentas as nuvens, amena a temperatura - pálido o rosto.
Que rosto! Que rosto... Com olhar do outono plácido.
Serena sensação de definições soltas, de axiomas
Panorâmicos na nossa vista. Seja a natureza assim como está
E que fique aí de onde és - Patrícia.
domingo, 9 de outubro de 2016
Introdução à dinâmica de paixões e cinemática da carência
Uma da manhã - quente entre cobertores felpudos
E um gato brincalhão, sentada em fausto cadeirão,
Abertos os livros e posta de parte a imaginação,
A miúda entretém-se focadamente nos estudos.
É mecânica e ondas que a preocupa... - mas no fundo?
É a dinâmica dos acontecimentos do coração,
Aquelas ocasiões bastardas em que lhe lançam olhares
Com intuitos secundários. Bela como é, respeita a distância.
Só (como só ela sabe ser) inverte as equações em planos futuros.
Não, não se definem esses com sistemas.
Com sorrisos talvez.
E caracóis ondulados onde se perde o mar.
E todas as metáforas de física e química.
Suspira, vendo que ainda lhe falta aprender Galileu.
Vai sair na prova?
Esse sim, mas o rapaz dos planos não.
(Falhasse ela essa prova)
E um gato brincalhão, sentada em fausto cadeirão,
Abertos os livros e posta de parte a imaginação,
A miúda entretém-se focadamente nos estudos.
É mecânica e ondas que a preocupa... - mas no fundo?
É a dinâmica dos acontecimentos do coração,
Aquelas ocasiões bastardas em que lhe lançam olhares
Com intuitos secundários. Bela como é, respeita a distância.
Só (como só ela sabe ser) inverte as equações em planos futuros.
Não, não se definem esses com sistemas.
Com sorrisos talvez.
E caracóis ondulados onde se perde o mar.
E todas as metáforas de física e química.
Suspira, vendo que ainda lhe falta aprender Galileu.
Vai sair na prova?
Esse sim, mas o rapaz dos planos não.
(Falhasse ela essa prova)
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