domingo, 12 de março de 2017

Minha alma nua & despida

Minha alma nua e despida
Num entardecer branco claro
É arrojada afim de se conhecer
Enquanto capta e admira a lua.

Um fugaz passageiro passa
Por ela enquanto finge saber
De quem é aquele luar transparente,
Aquele que passa em passo rápido.

Brilha, brilha alta e relevante.
Brilha desde o início dos tempos
Minha alma ao luar que aparece,
Vista de fora por quem passeia.

Olho a noite passando numa
Quimera suave e psicológica.
Olho interiormente e minha
Alma ilumina-se num contínuo.

Visto um casaco longo
E jamais minha alma nua
E despida na noite brilhante
Sente o frio do entardecer branco.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

As lembranças sem nome que a vida nos traz

Nós, os românticos descuidados,
Quando perante o amor flagrante
Nos encontramos,
Esse de intrigas e maldizeres,
Fingimos não o ver.
(Porque somos românticos).

Se o não fizéssemos
Seriamos meros realistas sinistros
(Porque ser real mete medo).

Se nos reconhecêssemos como somos
Caberia-nos todas as infelicidades
E não passaria nunca mais por ninguém
Um gordo sorriso nosso.
(Porque todas as histórias de amor acabam).

Após o célebre ato de nos definirmos
Como românticos, perdemos toda
A gota de amor dentro de nós.
(Porque é preciso um descuido
Para sermos chamados de românticos).

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Luz

Luz: é ano novo e os fogos não param;
Um com a fita filmando insanamente;
Outro, diz que este é novo e o velho fica para trás
(O ano, que o vinho refrigerante foi feito hora e meia antes).

'Ó Elsa!?' - para onde me fugiste, sua danada?
'Hey oh!' - responde-me no recinto ao lado
E como é ano novo ninguém reconhece o velho cantar
Que ruge nos céus, rebentando e espelhando-se no rio.

Faz-se meia-noite e meia hora - como dizem os velhos.
Tenho de ver o telemóvel - espero uma mensagem importante.
Tinha treze. Treze mensagens e senti-me o rei do mundo.
Duas delas informavam-me das ofertas renovadas do meu tarifário,
Mas a sensação de onze pessoas se preocuparem comigo
A uma hora tardia como a presente iluminou-me o coração com sorrisos.

"Igualmente, ficas sempre!" teclei a um. "Decerto receberás o que desejas",
Digitei a outro. E assim se vê a amizade complexa. É bonito - é amor do ano passado.

Tudo fazia todo o sentido.
E tudo faz e fará, graças a Deus.
Que é um ano novo, igual ao velho, semelhante ao que veio antes.
Com uma pequena diferença: é um ano novo.
E novas são as minhas ruminantes memórias, sobejos dos meus antigos pensamentos.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Quitéria

O nome da minha tia-bisavó, qual era esse?
Era um pouco estranho, soava mal aos dias correntes.
Lembro-me de pensar que ter esse nome era como ferros quentes
Aplicando dor horrível em qualquer sítio onde pele houvesse.

Mas pensando um bocadinho melhor:
A minha tia-bisavó era de um tempo diferente
No qual os dias de trabalho eram passados ao calor
E quando era para descansar era porque se estava doente.

Mas o nome - esse não me recordo.
Ela sempre foi velha desde o dia que nasci...
E quando ela era nova, com o vigor todo?

Penso mais um pouco e alguém namorou uma Quitéria.
A Ti Quitéria! Era esse o nome dela! E o meu tio-bisavô
Não achava o nome estranho quando se comprometeu à séria!

domingo, 20 de novembro de 2016

Domingo entre um cobertor quentinho


Chove bem e o casaco ensope-se.
Devia ter trazido um impermeável,
Penso enquanto corro do Campo Pequeno
À Avenida de Berna.

Os carros passam e fazem barulhos de cidade.
Encharcado, oiço os meus passos nas barreiras.
As pessoas com pressa num rodopiar de umbrelas
Abrigam-se da vaga de vento que muda o declive da chuva.
E eu, infeliz desabrigado, dependo da minha rapidez para chegar a casa.

Chego à Avenida de Roma com efeitos natalícios.
É crepúsculo e a rua iluminada de festividade antecipada
Dá uma sensação de acolhimento próspero a sorrisos.
(As melhores coisas do mundo acontecem no lusco-fusco).
A claridade do sol está diminuta e a chuva a abrandar.
As nuvens dissipam-se - deixam passar a fraca luz do sol -
E as montras alegram quem passa por elas.
Fatos e vestidos lindos, brinquedos coloridos; tudo o que é bom.

Uns metros mais tarde encosto-me às paredes húmidas da minha casa:
Na rua molhada, com o casaco encharcado e a o cabelo a escorrer.
As árvores seminuas gritam o Outono em que estamos,
Apesar do ar fresco que me arrepia a cara.

Estão folhas castanhas caídas no chão;
Tal qual eu a entrar na alpendrada -
Despedindo-me da rua que me fez desconfortável ao frio
E assente numa ideia fixa de que o belo é não usar guarda-chuva.

Agasalho-me num cobertor quentinho enquanto a roupa está a secar.

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Quando se deixa de lutar por uma relação

Dia 1:
Ao tomar esta decisão não pensei em mim - mas em nós.
(Mentira...)
Concluímos ambos que "era melhor assim": seguirmos sós.
(Unilateralmente - sem razões e com ira!)

Dia 2:
Já dormimos sobre isso e tudo está a ficar melhor.
(Conseguiste dormir?)
Não há traços a carvão na tela do destino por concluir.
(Somente quando o artista tem à arte pavor.)

Dia 5:
Olá de novo, como está tudo?
(Normal.)
A interação dos astros fizeram-me mudo.
(Tal e qual.)

Dia 25:
Era a distância, era a rotina - o que querias que acontecesse?
(Que lutasses como eu lutei.)
Meu Deus - onde foi que eu errei?
(Em te cansares - em deixares que morresse.)

Dia 50:
Vi-te ontem na biblioteca. Vi que seguiste sem rei nem lei.
(O que querias que acontecesse?)
Que lutasses como eu lutei.
(Mil companhias e nenhuma com quem merece)

Dia 125:
Tenho saudades tuas, vamos voltar ao que éramos.
(Esse passado está esquecido.)
A memória traz um sentimento adormecido...
(É por causa de ti que no presente não namoramos.)

Dia 1875 + π/2
Já és doutora, que orgulho tenho em ti.
(Os meus pais também.)
Um engenheiro e uma médica - pensa bem...
(Pareces aquele parvo dum livro que uma vez li.)

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Patrícia

Ó fogo, ó ardor no entardecer do outono
Que consomem em brasa um sorridente pôr-do-sol
Alaranjado e luminoso no horizonte das planícies.
Cinzentas as nuvens, amena a temperatura - pálido o rosto.
Que rosto! Que rosto... Com olhar do outono plácido.
Serena sensação de definições soltas, de axiomas
Panorâmicos na nossa vista. Seja a natureza assim como está
E que fique aí de onde és - Patrícia.

domingo, 9 de outubro de 2016

Introdução à dinâmica de paixões e cinemática da carência

Uma da manhã - quente entre cobertores felpudos
E um gato brincalhão, sentada em fausto cadeirão,
Abertos os livros e posta de parte a imaginação,
A miúda entretém-se focadamente nos estudos.

É mecânica e ondas que a preocupa... - mas no fundo?
É a dinâmica dos acontecimentos do coração,
Aquelas ocasiões bastardas em que lhe lançam olhares
Com intuitos secundários. Bela como é, respeita a distância.


Só (como só ela sabe ser) inverte as equações em planos futuros.
Não, não se definem esses com sistemas.
Com sorrisos talvez.
E caracóis ondulados onde se perde o mar.
E todas as metáforas de física e química.

Suspira, vendo que ainda lhe falta aprender Galileu.
Vai sair na prova?
Esse sim, mas o rapaz dos planos não.
(Falhasse ela essa prova)

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Segredo

Meu amor bom, vou contar-te um segredo:
Nunca me apaixonei por ti realmente.
Quando pensei que sim, fiquei todo contente -
Mas rapidamente vi que tudo vinha cedo:

As vãs cartas de amor e as juras de paixão;
O segredar ao ouvido ao som da cascata;
O momento em que te coloquei o anel de prata.
Se perante isto dizes ter havido amor é porque não.

Contentemo-nos com a suave passagem da vida,
Com uma amizade que nunca vai entardecer.
Sabes, quem tem fé diz que há quem decida

Por nós tudo o que vai um dia acontecer.
Mas, amor bom, e se esse que planeia
Tiver mais com que se entreter?