segunda-feira, 15 de agosto de 2016

As inseguranças duma rapariga jovem

Sozinha vai, triste e amedrontada,
Pela rua escura, macabra e sem fim.
Com casaco fino - é noite de Verão -
Anseia chegar à entrada de casa.

Vem da vida que passa depressa,
Vem sem saber mais o que é paixão,
Respeito ou ódio sem despesa.
Tenta pensar no que lhe faz sorrir,
Mas no pensamento não surge nada.

Quantas mágoas passam naquele coração?
Por quantos desgostos amorosos passou ela?
Tudo isso, casos perigosos quantificáveis.
Mas não é essa a questão...

Ela vai e não volta àquela rua, a rua onde mora.
Pelo caminho lembra-se dos tempos de menina
Em que saltava nas barreiras de água
E salpicava toda contente a curta vida que tinha.

E a menina que ali passava há muitos anos
Perdeu-se no tempo, transformando-se
No seu maior medo - o monstro debaixo da cama,
A rapariga adolescente infeliz e sem caminho clareado.

domingo, 31 de julho de 2016

Diversão

Um pequeno reparo:

As pessoas são divertidas.
Umas fingem-se tristes;
Outras fingem-se mais alegres.
Mas todas são divertidas.
Divertidas - isto é - procuram diversão.
Não para sorrir ou despejarem o pensamento,
Não para se distraírem ou se entreterem...
Diversão de quererem mudar o paradigma
Das suas vidas com frequência - não assentarem na mesma página.
Diversão tão consistente que a única constante que temos é essa mesma - diversão.
As pessoas com que as pessoas se dão alteram-se.
Os empregos e as faculdades são um delta curto.
Os passeios em tardes solarengas (com a decência meteorológica
De se estar bem na rua a andar em ruas estreitas por estreitas passagens)
São coisas que à noite já não existem.
Somente a diversão - sim, a diversão...
Somente com isso contamos para que exista variação de ritmos
E paisagens e passagens - senão era tudo uma questão de sabermos
Todos os segredos particulares das rotinas - e assim a vida não seria divertida.

quarta-feira, 27 de julho de 2016

Ofélia

Sabe, bebé lindinha...
Olho para si com vontade
De a encher de beijinhos
Para matar a saudade.

Olhe, bebé fofinha...
Eu cá a espero um dia
Para ver como queria
Que o menino se portasse.

Porque eu sou o seu pequenino,
Com ou sem amor que passasse!
E tantas coisas com tino

Que lhe escrevi do coração...
Para sempre, o seu menino:
Fernando (Nininho)

sábado, 9 de julho de 2016

Olha, Margarida

Olha, Margarida.
Não me olhes assim quando estou bêbado.
Tu gostas...
Não gostas?
Gostas - vejo-te sorrindo por detrás das tuas covinhas que tentas disfarçar.
Ri-te sem pesar - eu gosto quando sorris...
Como gostas quando tenho bebedeiras...

Olha, Margarida...
A vida é senão uma bebedeira gigantesca.
Quando formos velhos não vamos estar mais sóbrios,
Apenas mais cansados.
Quando morrermos não vamos acordar no dia seguinte ressacados
Porque a morte é a cura que desejamos encontrar em vida.
Margarida... Bebe mais comigo e podemos ambos estar
Sãos de consciência e desequilibrados de equilíbrio.
A vida é senão o mote engraçado da morte,
Por isso precisamos de mais vinho e aguardente forte -
Sabes, para nos rirmos um bocadinho.

Olha, Margarida!
Todos nós temos amigos mais próximos e menos próximos.
Mais próximos e menos próximos da morte, quero eu dizer...
Tu és minha amiga, Margarida, mas próximo de nós, que eu enxergue
Com os meus olhos semiabertos, apenas está uma garrafa de vinho.
É vinho bom - prova mais!
Bebamos e brindemos com um copo cheio - e depois com outro!

Porque olha, Margarida...
O vinho não se acaba, já que tenho a sensação que a bebedeira é eterna.

domingo, 26 de junho de 2016

Tua boca macia

Tua boca macia onde se perdem trovoadas de pensamentos;
Belas e rosadas faces que dão cor aos sentimentos
Por ti achados sem qualquer razão arbitrária.

Teu corpóreo e momentâneo olhar destilado
Percorrendo as largas preocupações ignoradas,
Sem menções sobejas, nem efeitos ou bichinhos de passado.

Teu sorriso molhado, curvilíneo e distintivo -
Deduz pecado sem comprometer uma sacra natureza
Que faz do riso combustão e das palavras inteligência.

Teu corpo de dança - alma espelhada de música;
Move-se no ambiente dando vida ao espaço envolvente.
Seminua de preconceitos antigos, tudo em ti é transparente.

domingo, 19 de junho de 2016

Limites

Não vamos fazer de conta que estamos felizes com o estado actual da situação.
Mas também não iremos remeter-nos ao silêncio conformista.
As coisas estão más, sim. Mas não estão péssimas.

É difícil ver por entre a escuridão que nos encobre,
Mas por vezes é do bater do coração que nasce qualquer ténue forma de luz.
Por vezes é das razões hipotéticas - que não sabemos sequer se existem -
Que origina uma força tremenda, quais tarefas infinitas rendidas à sua acção.
É difícil não vomitar quando tudo à nossa volta é podridão.
É dos "por vezes" que nunca acontecem que a nossa vida continua um dia de cada vez.

"Todos necessitamos de algo para nos agarrar."
Menos Nietzsche - mas ele tinha a filosofia.
Menos Deus-ele-próprio - mas ele tem a sua criação.
Menos o Homem como colectividade - mas ele tem o planeta, do qual fez casa.
Menos os animais e a Natureza - mas esses não precisam, por isso têm a desnecessidade.

Não vamos fazer de conta que estamos felizes com o estado actual da nossa consciência.
Querer definir relações entre as coisas do mundo físico e da realidade metafísica
É desempenhar a função dos filósofos - esses que só queriam experimentar o sabor
De serem deuses por um bocadinho, num tempo que nem eles conseguiam definir.

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Poema das rosas que te quis oferecer

Foram seis as rosas que te quis oferecer;
Foram seis rosas as que deixaste morrer.

Assim como essas, também eu fiquei
Frágil e quebradiço, fingindo que amei.

Não há pretéritos perfeitos no amor.
Se fossem perfeitos não fingia que te amava.

segunda-feira, 30 de maio de 2016

Nádia

Nada nem ninguém extingue o amor que
Pelo teu dócil homem guardas no coração.
Nádia nasceste e para o amor és serva -
Mas ele tornou-te severamente cega.

Antigamente juravas em lágrimas e oração
Que nunca te apanhariam prisioneira na vida.
Hoje em dia, Nádia, não acordas e estás sentida!
As lágrimas são de dor - não de amor, Nádia!

Amanhã serás velha. Cansada e gasta - uma lástima.
Terás rugas e não serás atraente - e o amor?
Onde estará ele, esse que chamas amor?

Nádia - não deixes a tua vida para a última...
Só que se já vives com alguém, e te sentes
Bem, valerá convenceres-me que mentes?

terça-feira, 24 de maio de 2016

Matilde

Matilde, filha de Mafalda e Infanta de Portugal,
O país viste nascer e teu pai bélico conquistar.
No século doze não se avistava de Coimbra o mar,
Mas graças à força que deste ao rei-teu-pai ancestral,

Mais cidades houve abaixo do Tejo, mais riqueza
Vimos nascer, mais mouros acabaram por morrer.
Matilde, eras princesa pequena e sem certeza
Quando se formou a terra dos poetas sem-querer.

Hoje, Matilde, vês o mundo no alto das luzes.
Respeitar a tua perspetiva ensina o mais persistente
Homem a vangloriar o teu sincero coração radiante,

Muda conjuntos de pensamentos e cria filosofias -
Porque és Matilde encarnada na estética e metafísica,
Mas com uma juventude inocente que nunca acabará.

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Antibes à noite



Dois homens, pescando no breu,
Com lamparinas fracas chamam ao isco o peixe.
Agachado no barco, um alcança a água
Com um fio curto, qual dificuldade é pescar quando nada se vê.
O outro, com uma forquilha de quatro dentes,
Tenta dissimular um peixe gordo que, curioso, veio ao cimo da água.
Peixe - essa tua fuga ao que és te condenou à fogueira.

Mosquitos e traças compõem a atmosfera envolvente,
O que seria de esperar, porque a noite tem distúrbios naquele lugar.
As traças não incomodam os homens, que para a tarefa de apanhar
Algum peixe decente, têm de se imaginar eles-próprios peixes.
E os mosquitos são temporários - a fome é perpétua.

Na margem, duas moças. Uma, de bicicleta em punho
Saboreia um sensual gelado chamativo.
Os pescadores ignoram. Gelado, corpo de mulher? Isso não é pesca.
A outra, de delgada figura, pousa acenando aos homens e sua arte.

Quem são estas mulheres?
Quem são estes pescadores?
O do arpão prestes a concluir a sua tarefa?
O da linha, abaixado, com dificuldade em ver os peixes?
Será um o presente e o outro o passado?
A mulher do gelado é a tentação? A mulher fina a resolução?

Não se sabe.
Apenas que à beira de Antibes estão dois pescadores pescando na noite
E duas mulheres pescando a noite na vila fantasmagórica.

(Mais informação e obras de Picasso no Artsy)