domingo, 26 de junho de 2016

Tua boca macia

Tua boca macia onde se perdem trovoadas de pensamentos;
Belas e rosadas faces que dão cor aos sentimentos
Por ti achados sem qualquer razão arbitrária.

Teu corpóreo e momentâneo olhar destilado
Percorrendo as largas preocupações ignoradas,
Sem menções sobejas, nem efeitos ou bichinhos de passado.

Teu sorriso molhado, curvilíneo e distintivo -
Deduz pecado sem comprometer uma sacra natureza
Que faz do riso combustão e das palavras inteligência.

Teu corpo de dança - alma espelhada de música;
Move-se no ambiente dando vida ao espaço envolvente.
Seminua de preconceitos antigos, tudo em ti é transparente.

domingo, 19 de junho de 2016

Limites

Não vamos fazer de conta que estamos felizes com o estado actual da situação.
Mas também não iremos remeter-nos ao silêncio conformista.
As coisas estão más, sim. Mas não estão péssimas.

É difícil ver por entre a escuridão que nos encobre,
Mas por vezes é do bater do coração que nasce qualquer ténue forma de luz.
Por vezes é das razões hipotéticas - que não sabemos sequer se existem -
Que origina uma força tremenda, quais tarefas infinitas rendidas à sua acção.
É difícil não vomitar quando tudo à nossa volta é podridão.
É dos "por vezes" que nunca acontecem que a nossa vida continua um dia de cada vez.

"Todos necessitamos de algo para nos agarrar."
Menos Nietzsche - mas ele tinha a filosofia.
Menos Deus-ele-próprio - mas ele tem a sua criação.
Menos o Homem como colectividade - mas ele tem o planeta, do qual fez casa.
Menos os animais e a Natureza - mas esses não precisam, por isso têm a desnecessidade.

Não vamos fazer de conta que estamos felizes com o estado actual da nossa consciência.
Querer definir relações entre as coisas do mundo físico e da realidade metafísica
É desempenhar a função dos filósofos - esses que só queriam experimentar o sabor
De serem deuses por um bocadinho, num tempo que nem eles conseguiam definir.

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Poema das rosas que te quis oferecer

Foram seis as rosas que te quis oferecer;
Foram seis rosas as que deixaste morrer.

Assim como essas, também eu fiquei
Frágil e quebradiço, fingindo que amei.

Não há pretéritos perfeitos no amor.
Se fossem perfeitos não fingia que te amava.

segunda-feira, 30 de maio de 2016

Nádia

Nada nem ninguém extingue o amor que
Pelo teu dócil homem guardas no coração.
Nádia nasceste e para o amor és serva -
Mas ele tornou-te severamente cega.

Antigamente juravas em lágrimas e oração
Que nunca te apanhariam prisioneira na vida.
Hoje em dia, Nádia, não acordas e estás sentida!
As lágrimas são de dor - não de amor, Nádia!

Amanhã serás velha. Cansada e gasta - uma lástima.
Terás rugas e não serás atraente - e o amor?
Onde estará ele, esse que chamas amor?

Nádia - não deixes a tua vida para a última...
Só que se já vives com alguém, e te sentes
Bem, valerá convenceres-me que mentes?

terça-feira, 24 de maio de 2016

Matilde

Matilde, filha de Mafalda e Infanta de Portugal,
O país viste nascer e teu pai bélico conquistar.
No século doze não se avistava de Coimbra o mar,
Mas graças à força que deste ao rei-teu-pai ancestral,

Mais cidades houve abaixo do Tejo, mais riqueza
Vimos nascer, mais mouros acabaram por morrer.
Matilde, eras princesa pequena e sem certeza
Quando se formou a terra dos poetas sem-querer.

Hoje, Matilde, vês o mundo no alto das luzes.
Respeitar a tua perspetiva ensina o mais persistente
Homem a vangloriar o teu sincero coração radiante,

Muda conjuntos de pensamentos e cria filosofias -
Porque és Matilde encarnada na estética e metafísica,
Mas com uma juventude inocente que nunca acabará.

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Antibes à noite



Dois homens, pescando no breu,
Com lamparinas fracas chamam ao isco o peixe.
Agachado no barco, um alcança a água
Com um fio curto, qual dificuldade é pescar quando nada se vê.
O outro, com uma forquilha de quatro dentes,
Tenta dissimular um peixe gordo que, curioso, veio ao cimo da água.
Peixe - essa tua fuga ao que és te condenou à fogueira.

Mosquitos e traças compõem a atmosfera envolvente,
O que seria de esperar, porque a noite tem distúrbios naquele lugar.
As traças não incomodam os homens, que para a tarefa de apanhar
Algum peixe decente, têm de se imaginar eles-próprios peixes.
E os mosquitos são temporários - a fome é perpétua.

Na margem, duas moças. Uma, de bicicleta em punho
Saboreia um sensual gelado chamativo.
Os pescadores ignoram. Gelado, corpo de mulher? Isso não é pesca.
A outra, de delgada figura, pousa acenando aos homens e sua arte.

Quem são estas mulheres?
Quem são estes pescadores?
O do arpão prestes a concluir a sua tarefa?
O da linha, abaixado, com dificuldade em ver os peixes?
Será um o presente e o outro o passado?
A mulher do gelado é a tentação? A mulher fina a resolução?

Não se sabe.
Apenas que à beira de Antibes estão dois pescadores pescando na noite
E duas mulheres pescando a noite na vila fantasmagórica.

(Mais informação e obras de Picasso no Artsy)

sexta-feira, 13 de maio de 2016

Metade da cidade

Confortável, no jardim central da cidade,
É possível olhar panoramicamente
Para a tristeza generalizada daquele lugar.

O velho moribundo pedindo na rua em frente;
O cheiro nauseante do aterro descoberto ao lado;
Do outro, o centro de negócios engravatado.

O engenheiro milionário, no seu carro eléctrico,
Tira uma fotografia ao que lhe convém.
Sai do carro apressado, à espera está o cliente e
Murmura para o sr. dr: "olhe que bem!".

Dá início ao negócio; trezentos milhões naquele encontro.
Mas o velho em frente, fazendo o que pode,
Dá milho aos pombos, sorridente.
Ele era o engenheiro do negócio que nunca surgiu.

sábado, 23 de abril de 2016

Luísa

A Luísa é difícil de explicar...
Um tanto doce, suavemente vive.
Tem imenso para ao mundo dar
Ao saber as angústias que tive.

Luísa de porcelana frágil:
O teu físico quebradiço é magistral,
Embora tua mente rápida e ágil.
Luísa: no teu coração não encontro mal.

Mas ao ver-te dar corda ao relógio,
Aquele que na vida só pára duas vezes,
Talvez me caia uma lágrima breve -

Não de tristeza mas de esperança -
Porque tens em perfeita balança
A vida e a necessidade de viver.

domingo, 17 de abril de 2016

Estas manhãs de domingo de quando eu era pequenino

É um domingo de manhã.
Eu, menino, levanto-me para ir à missa.
O sol radia pelo quarto,
Tudo está claro no espaço luminoso.

Do quarto à cozinha distam dois corredores,
Quais atribuo a designação por os completar a correr.
Na cozinha já está o guisado ao lume,
Por ser domingo e pelo dia ser característico
Do almoço especial - comida mais saborosa para
O doce paladar de uma criança.

Este é o cheiro característico deste dia.
Este sol pertence aos domingos - aos meus domingos.
Esta pressa que a mãe me incute porque já está
Quase na hora da missa é coisa típica de domingo.

Estas manhãs de domingo de quando eu era pequenino.

Embarcávamos no carro e seguíamos para a missa.
A família no carro - o carro com intenções divinas.

Na capela ouvia o padre, as velhas nas leituras,
As outras pessoas a ouvirem o padre.
Observava o ambiente, buscava os meus amigos.
Deus estava lá - Deus era eu a fazer isto tudo.
Deus não era a palavra do padre, não eram as leituras.
Deus era uma criança a ir à missa, porque ia à missa a brincar.
Deus não era coisa de adultos sérios ou padres jovens intelectuais.
Era eu estar lá a pensar em ir brincar com os amigos à porta da capela, no fim da missa.

Findada a missa e a brincadeira, Deus ficava lá quietinho
E até para a semana, se Deus quiser.

Era altura de ir ao café.
Para o pai, café forte;
(Não necessariamente forte o conteúdo da chávena,
Mas aos meus olhos era o necessário)
Para a mãe, café cheio;
Para mim, o que calhasse - mas tinha que ser doce.
E a minha mente olhava para o doce e nada mais.

Em casa, o guisado devia de estar feito.
Cheirava bem, e era só.
A refeição acabava e a única grande preocupação
Era a escola que sucedia desse o ponteiro a volta ao relógio.
Era simples.

Como este poema.

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Deus está morto?




Deus é uma teologia à parte.
Nietzsche é uma parte da teologia.

Em cinquenta anos nada se acrescentou
À pergunta inaugurada pelo filósofo alemão.
Em séculos passados - mais de vinte -
Ninguém perguntou a questão.
Quem perguntava era silenciado.
Portanto ninguém, em registo oficial, quis saber.

Excepto a humanidade inteira.
Excepto o Homem que vem antes de Deus.
Excepto os juízes da Inquisição que ardem no Inferno
E os Papas que para lá seguiram.

Enfim - a doutrina mudou.
(E os dogmas, como são esses?)
Os Papas sentam-se no trono e morrem.
Todos os filósofos são Deuses
E Deus é um mero filósofo.
Ou será que o Homem não escreveu sobre isso?

Sinceramente, todo este tema é aborrecido,
Só que há perguntas que têm de ser feitas.