Confortável, no jardim central da cidade,
É possível olhar panoramicamente
Para a tristeza generalizada daquele lugar.
O velho moribundo pedindo na rua em frente;
O cheiro nauseante do aterro descoberto ao lado;
Do outro, o centro de negócios engravatado.
O engenheiro milionário, no seu carro eléctrico,
Tira uma fotografia ao que lhe convém.
Sai do carro apressado, à espera está o cliente e
Murmura para o sr. dr: "olhe que bem!".
Dá início ao negócio; trezentos milhões naquele encontro.
Mas o velho em frente, fazendo o que pode,
Dá milho aos pombos, sorridente.
Ele era o engenheiro do negócio que nunca surgiu.
sexta-feira, 13 de maio de 2016
sábado, 23 de abril de 2016
Luísa
A Luísa é difícil de explicar...
Um tanto doce, suavemente vive.
Tem imenso para ao mundo dar
Ao saber as angústias que tive.
Luísa de porcelana frágil:
O teu físico quebradiço é magistral,
Embora tua mente rápida e ágil.
Luísa: no teu coração não encontro mal.
Mas ao ver-te dar corda ao relógio,
Aquele que na vida só pára duas vezes,
Talvez me caia uma lágrima breve -
Não de tristeza mas de esperança -
Porque tens em perfeita balança
A vida e a necessidade de viver.
Um tanto doce, suavemente vive.
Tem imenso para ao mundo dar
Ao saber as angústias que tive.
Luísa de porcelana frágil:
O teu físico quebradiço é magistral,
Embora tua mente rápida e ágil.
Luísa: no teu coração não encontro mal.
Mas ao ver-te dar corda ao relógio,
Aquele que na vida só pára duas vezes,
Talvez me caia uma lágrima breve -
Não de tristeza mas de esperança -
Porque tens em perfeita balança
A vida e a necessidade de viver.
domingo, 17 de abril de 2016
Estas manhãs de domingo de quando eu era pequenino
É um domingo de manhã.
Eu, menino, levanto-me para ir à missa.
O sol radia pelo quarto,
Tudo está claro no espaço luminoso.
Do quarto à cozinha distam dois corredores,
Quais atribuo a designação por os completar a correr.
Na cozinha já está o guisado ao lume,
Por ser domingo e pelo dia ser característico
Do almoço especial - comida mais saborosa para
O doce paladar de uma criança.
Este é o cheiro característico deste dia.
Este sol pertence aos domingos - aos meus domingos.
Esta pressa que a mãe me incute porque já está
Quase na hora da missa é coisa típica de domingo.
Estas manhãs de domingo de quando eu era pequenino.
Embarcávamos no carro e seguíamos para a missa.
A família no carro - o carro com intenções divinas.
Na capela ouvia o padre, as velhas nas leituras,
As outras pessoas a ouvirem o padre.
Observava o ambiente, buscava os meus amigos.
Deus estava lá - Deus era eu a fazer isto tudo.
Deus não era a palavra do padre, não eram as leituras.
Deus era uma criança a ir à missa, porque ia à missa a brincar.
Deus não era coisa de adultos sérios ou padres jovens intelectuais.
Era eu estar lá a pensar em ir brincar com os amigos à porta da capela, no fim da missa.
Findada a missa e a brincadeira, Deus ficava lá quietinho
E até para a semana, se Deus quiser.
Era altura de ir ao café.
Para o pai, café forte;
(Não necessariamente forte o conteúdo da chávena,
Mas aos meus olhos era o necessário)
Para a mãe, café cheio;
Para mim, o que calhasse - mas tinha que ser doce.
E a minha mente olhava para o doce e nada mais.
Em casa, o guisado devia de estar feito.
Cheirava bem, e era só.
A refeição acabava e a única grande preocupação
Era a escola que sucedia desse o ponteiro a volta ao relógio.
Era simples.
Como este poema.
Eu, menino, levanto-me para ir à missa.
O sol radia pelo quarto,
Tudo está claro no espaço luminoso.
Do quarto à cozinha distam dois corredores,
Quais atribuo a designação por os completar a correr.
Na cozinha já está o guisado ao lume,
Por ser domingo e pelo dia ser característico
Do almoço especial - comida mais saborosa para
O doce paladar de uma criança.
Este é o cheiro característico deste dia.
Este sol pertence aos domingos - aos meus domingos.
Esta pressa que a mãe me incute porque já está
Quase na hora da missa é coisa típica de domingo.
Estas manhãs de domingo de quando eu era pequenino.
Embarcávamos no carro e seguíamos para a missa.
A família no carro - o carro com intenções divinas.
Na capela ouvia o padre, as velhas nas leituras,
As outras pessoas a ouvirem o padre.
Observava o ambiente, buscava os meus amigos.
Deus estava lá - Deus era eu a fazer isto tudo.
Deus não era a palavra do padre, não eram as leituras.
Deus era uma criança a ir à missa, porque ia à missa a brincar.
Deus não era coisa de adultos sérios ou padres jovens intelectuais.
Era eu estar lá a pensar em ir brincar com os amigos à porta da capela, no fim da missa.
Findada a missa e a brincadeira, Deus ficava lá quietinho
E até para a semana, se Deus quiser.
Era altura de ir ao café.
Para o pai, café forte;
(Não necessariamente forte o conteúdo da chávena,
Mas aos meus olhos era o necessário)
Para a mãe, café cheio;
Para mim, o que calhasse - mas tinha que ser doce.
E a minha mente olhava para o doce e nada mais.
Em casa, o guisado devia de estar feito.
Cheirava bem, e era só.
A refeição acabava e a única grande preocupação
Era a escola que sucedia desse o ponteiro a volta ao relógio.
Era simples.
Como este poema.
sexta-feira, 8 de abril de 2016
Deus está morto?

Deus é uma teologia à parte.
Nietzsche é uma parte da teologia.
Em cinquenta anos nada se acrescentou
À pergunta inaugurada pelo filósofo alemão.
Em séculos passados - mais de vinte -
Ninguém perguntou a questão.
Quem perguntava era silenciado.
Portanto ninguém, em registo oficial, quis saber.
Excepto a humanidade inteira.
Excepto o Homem que vem antes de Deus.
Excepto os juízes da Inquisição que ardem no Inferno
E os Papas que para lá seguiram.
Enfim - a doutrina mudou.
(E os dogmas, como são esses?)
Os Papas sentam-se no trono e morrem.
Todos os filósofos são Deuses
E Deus é um mero filósofo.
Ou será que o Homem não escreveu sobre isso?
Sinceramente, todo este tema é aborrecido,
Só que há perguntas que têm de ser feitas.
segunda-feira, 4 de abril de 2016
Tiros de pólvora seca
A origem da desilusão humana reside num único culpado.
É o Homem.
Dizem que somos um ser social, que precisamos dos outros para viver.
Precisamos de uma família que nos acolhe na infância;
De professores para nos prepararem para a vida adulta.
De amigos para mantermos a calma e a sanidade
E de alguém especial para procriarmos e sentirmos "amor".
"Amor". Não - julgo que não necessitamos disso.
Necessitamos de saúde para nos mantermos vivos e confortáveis no mundo.
Precisamos de livros e Internet para sabermos mais coisas sobre o mundo.
Água, comida, estado social, políticos honestos...
Mas "Amor"? Essa coisa?
Não.
A origem da desilusão humana reside num único culpado.
É o "Amor".
quinta-feira, 24 de março de 2016
Contrastes do amor
O amor é ter cócegas na barriga -
O amor é ter uma robustez anormal.
O amor é obsessão e intriga -
O amor é respeito e não querer mal.
O amor é uma doença peganhosa -
O amor é uma saúde infinita.
O amor é uma lágrima saudosa -
O amor é largar a paixão bendita
O amor é agarrar firmemente -
O amor é deixar ir finalmente.
E enquanto não se estudar o amor
Ele existirá no mundo ao natural.
Será por ilustres pensadores abrandado;
Pobres camponeses, esses, catalisadores.
Quem quer saber mais do que sente
Nunca sentirá senão o que finge saber.
O amor é ter uma robustez anormal.
O amor é obsessão e intriga -
O amor é respeito e não querer mal.
O amor é uma doença peganhosa -
O amor é uma saúde infinita.
O amor é uma lágrima saudosa -
O amor é largar a paixão bendita
O amor é agarrar firmemente -
O amor é deixar ir finalmente.
E enquanto não se estudar o amor
Ele existirá no mundo ao natural.
Será por ilustres pensadores abrandado;
Pobres camponeses, esses, catalisadores.
Quem quer saber mais do que sente
Nunca sentirá senão o que finge saber.
quarta-feira, 9 de março de 2016
O amor é o que o amor não é
Ela estava agachada em si própria na sua cama de veludo sóbrio, abafando com o pobre travesseiro o seu choro desesperado, este causado pela difícil separação que sofrera no dia anterior. As relações juvenis têm sempre uma intensidade forte para quem as vê de dentro e uma espécie de exagero emotivo - afectos desnecessários e acções demasiado chamativas - para quem as vê de fora. Talvez por isso chorasse tanto - pela absurdez da causa e pela incompreensão introspectiva dos seus próprios sentimentos. Que animal tão fraco é o Ser Humano para deixar as emoções e as fracas e fixas ideologias tomarem conta da razão racional que pôs o Homem na Terra. Afinal, foi com a racionalidade, o pensamento científico, humanístico e técnico, que o Homem atravessou Oceanos: foi com essas capacidades que se viu o que esconde o Universo Infinito, aquilo para onde olhamos mas que não se vê a olho nu.
Afinal, o amor cria dependência como outra droga qualquer. E ela sentia-o - ela não parava era de chorar! Afinal, chorar limpa o coração - mas o coração é um órgão e ela tinha sangue e oxigénio suficiente para o fazer continuar na sua função vital.
Ah! Talvez os sentimentos sejam necessários. Algumas revoluções foram encomendadas pelos sentimentos dos mais carenciados e marginalizados. Os negros norte-americanos na longa batalha pela igualdade de direitos; as mulheres pela liberdade de voto, quais séculos não abafaram sentimentos fervorosos! Dois exemplos de bons produtos finais de uma análise mais sentimental do mundo. Dois exemplos que à primeira vista não têm nada a ver com o amor mas que, enfim, apenas foram concretizados devido ao mais abrangente sentimento que a razão humana excretou - ou poliu - o amor. O amor que faz chorar é o mesmo amor que faz lutar. Não por uma pessoa, não por uma ideologia ou melhores condições de vida e de direitos. O amor ele-próprio tem todas as causas do mundo e apenas um fim - apaziguar e acalmar a maquinal e infernal mente humana.
Ela chorou e reflectiu - e o amor consumou-se.
Afinal, o amor cria dependência como outra droga qualquer. E ela sentia-o - ela não parava era de chorar! Afinal, chorar limpa o coração - mas o coração é um órgão e ela tinha sangue e oxigénio suficiente para o fazer continuar na sua função vital.
Ah! Talvez os sentimentos sejam necessários. Algumas revoluções foram encomendadas pelos sentimentos dos mais carenciados e marginalizados. Os negros norte-americanos na longa batalha pela igualdade de direitos; as mulheres pela liberdade de voto, quais séculos não abafaram sentimentos fervorosos! Dois exemplos de bons produtos finais de uma análise mais sentimental do mundo. Dois exemplos que à primeira vista não têm nada a ver com o amor mas que, enfim, apenas foram concretizados devido ao mais abrangente sentimento que a razão humana excretou - ou poliu - o amor. O amor que faz chorar é o mesmo amor que faz lutar. Não por uma pessoa, não por uma ideologia ou melhores condições de vida e de direitos. O amor ele-próprio tem todas as causas do mundo e apenas um fim - apaziguar e acalmar a maquinal e infernal mente humana.
Ela chorou e reflectiu - e o amor consumou-se.
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016
Joana
Olá, Joana. Olá.
Já te vi na televisão,
No jornal e na festa de S. Julião.
Não me pareces nada má.
Tens graça - graçinha.
Sorriso côncavo, olhos convexos.
Todo o físico em ti é diminutivo
E tudo o que dizes te eleva.
Joana, qual análise desnecessária.
Simples, bela, eficazmente existes.
E basta isso. Não dependes da razão diária.
Joana parece tão ela-própria,
Tão normal e comum - e comum e normal,
Que nem damos pelo sufixo fatal.
Já te vi na televisão,
No jornal e na festa de S. Julião.
Não me pareces nada má.
Tens graça - graçinha.
Sorriso côncavo, olhos convexos.
Todo o físico em ti é diminutivo
E tudo o que dizes te eleva.
Joana, qual análise desnecessária.
Simples, bela, eficazmente existes.
E basta isso. Não dependes da razão diária.
Joana parece tão ela-própria,
Tão normal e comum - e comum e normal,
Que nem damos pelo sufixo fatal.
quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016
Inês
És um milagre - divina, linda.
Embebida num abraço fraterno entre lágrimas,
Vislumbras com pureza adquirida
A tua brilhante vida, essa de emoções antigas.
Enches-me a barriga de borboletas.
Sim - não se explica de outra maneira.
Quando explicações cessam, nem que queiras,
Não se pode definir o que se sente com letras.
És Inês. Inês-personificação-de-beleza.
És a inteligência sagaz e a sensualidade em balança.
E eu, com uma perseverança que não cansa,
Lembro-te com uma magistral destreza;
E hei-de recordar com saudade
Os nossos dias de tenra idade.
Embebida num abraço fraterno entre lágrimas,
Vislumbras com pureza adquirida
A tua brilhante vida, essa de emoções antigas.
Enches-me a barriga de borboletas.
Sim - não se explica de outra maneira.
Quando explicações cessam, nem que queiras,
Não se pode definir o que se sente com letras.
És Inês. Inês-personificação-de-beleza.
És a inteligência sagaz e a sensualidade em balança.
E eu, com uma perseverança que não cansa,
Lembro-te com uma magistral destreza;
E hei-de recordar com saudade
Os nossos dias de tenra idade.
segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016
Helena
Ó antiga cena helénica metódica:
Conquistaste além-balcãs
Mil milhões de poetas melódicos,
Embebedaste poderosos imãs
E reis ocidentais tomaram por clássico
A tua força de ambiente catártico.
És quinhentista e milenar pré-divina,
Com deuses e conquistas sem carabina.
Ó nação entristecida, desorganizada
E pela Europa inteira pisada.
Seguraste os quispos ideológicos
Desta nova União poderosa
E esses antigos impérios lógicos
Te fizeram Helena lacrimosa.
Conquistaste além-balcãs
Mil milhões de poetas melódicos,
Embebedaste poderosos imãs
E reis ocidentais tomaram por clássico
A tua força de ambiente catártico.
És quinhentista e milenar pré-divina,
Com deuses e conquistas sem carabina.
Ó nação entristecida, desorganizada
E pela Europa inteira pisada.
Seguraste os quispos ideológicos
Desta nova União poderosa
E esses antigos impérios lógicos
Te fizeram Helena lacrimosa.
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