sexta-feira, 8 de abril de 2016

Deus está morto?




Deus é uma teologia à parte.
Nietzsche é uma parte da teologia.

Em cinquenta anos nada se acrescentou
À pergunta inaugurada pelo filósofo alemão.
Em séculos passados - mais de vinte -
Ninguém perguntou a questão.
Quem perguntava era silenciado.
Portanto ninguém, em registo oficial, quis saber.

Excepto a humanidade inteira.
Excepto o Homem que vem antes de Deus.
Excepto os juízes da Inquisição que ardem no Inferno
E os Papas que para lá seguiram.

Enfim - a doutrina mudou.
(E os dogmas, como são esses?)
Os Papas sentam-se no trono e morrem.
Todos os filósofos são Deuses
E Deus é um mero filósofo.
Ou será que o Homem não escreveu sobre isso?

Sinceramente, todo este tema é aborrecido,
Só que há perguntas que têm de ser feitas.

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Tiros de pólvora seca

A origem da desilusão humana reside num único culpado.
É o Homem.

Dizem que somos um ser social, que precisamos dos outros para viver.
Precisamos de uma família que nos acolhe na infância;
De professores para nos prepararem para a vida adulta.
De amigos para mantermos a calma e a sanidade
E de alguém especial para procriarmos e sentirmos "amor".

"Amor". Não - julgo que não necessitamos disso.
Necessitamos de saúde para nos mantermos vivos e confortáveis no mundo.
Precisamos de livros e Internet para sabermos mais coisas sobre o mundo.
Água, comida, estado social, políticos honestos...
Mas "Amor"? Essa coisa?
Não.

A origem da desilusão humana reside num único culpado.
É o "Amor".

quinta-feira, 24 de março de 2016

Contrastes do amor

O amor é ter cócegas na barriga -
O amor é ter uma robustez anormal.
O amor é obsessão e intriga -
O amor é respeito e não querer mal.
O amor é uma doença peganhosa -
O amor é uma saúde infinita.
O amor é uma lágrima saudosa -
O amor é largar a paixão bendita
O amor é agarrar firmemente -
O amor é deixar ir finalmente.

E enquanto não se estudar o amor
Ele existirá no mundo ao natural.
Será por ilustres pensadores abrandado;
Pobres camponeses, esses, catalisadores.
Quem quer saber mais do que sente
Nunca sentirá senão o que finge saber.

quarta-feira, 9 de março de 2016

O amor é o que o amor não é

Ela estava agachada em si própria na sua cama de veludo sóbrio, abafando com o pobre travesseiro o seu choro desesperado, este causado pela difícil separação que sofrera no dia anterior. As relações juvenis têm sempre uma intensidade forte para quem as vê de dentro e uma espécie de exagero emotivo - afectos desnecessários e acções demasiado chamativas - para quem as vê de fora. Talvez por isso chorasse tanto - pela absurdez da causa e pela incompreensão introspectiva dos seus próprios sentimentos. Que animal tão fraco é o Ser Humano para deixar as emoções e as fracas e fixas ideologias tomarem conta da razão racional que pôs o Homem na Terra. Afinal, foi com a racionalidade, o pensamento científico, humanístico e técnico, que o Homem atravessou Oceanos: foi com essas capacidades que se viu o que esconde o Universo Infinito, aquilo para onde olhamos mas que não se vê a olho nu.

Afinal, o amor cria dependência como outra droga qualquer. E ela sentia-o - ela não parava era de chorar! Afinal, chorar limpa o coração - mas o coração é um órgão e ela tinha sangue e oxigénio suficiente para o fazer continuar na sua função vital.

Ah! Talvez os sentimentos sejam necessários. Algumas revoluções foram encomendadas pelos sentimentos dos mais carenciados e marginalizados. Os negros norte-americanos na longa batalha pela igualdade de direitos; as mulheres pela liberdade de voto, quais séculos não abafaram sentimentos fervorosos! Dois exemplos de bons produtos finais de uma análise mais sentimental do mundo. Dois exemplos que à primeira vista não têm nada a ver com o amor mas que, enfim, apenas foram concretizados devido ao mais abrangente sentimento que a razão humana excretou - ou poliu - o amor. O amor que faz chorar é o mesmo amor que faz lutar. Não por uma pessoa, não por uma ideologia ou melhores condições de vida e de direitos. O amor ele-próprio tem todas as causas do mundo e apenas um fim - apaziguar e acalmar a maquinal e infernal mente humana.
Ela chorou e reflectiu - e o amor consumou-se.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Joana

Olá, Joana. Olá.
Já te vi na televisão,
No jornal e na festa de S. Julião.
Não me pareces nada má.

Tens graça - graçinha.
Sorriso côncavo, olhos convexos.
Todo o físico em ti é diminutivo
E tudo o que dizes te eleva.

Joana, qual análise desnecessária.
Simples, bela, eficazmente existes.
E basta isso. Não dependes da razão diária.

Joana parece tão ela-própria,
Tão normal e comum - e comum e normal,
Que nem damos pelo sufixo fatal.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Inês

És um milagre - divina, linda.
Embebida num abraço fraterno entre lágrimas,
Vislumbras com pureza adquirida
A tua brilhante vida, essa de emoções antigas.

Enches-me a barriga de borboletas.
Sim - não se explica de outra maneira.
Quando explicações cessam, nem que queiras,
Não se pode definir o que se sente com letras.

És Inês. Inês-personificação-de-beleza.
És a inteligência sagaz e a sensualidade em balança.
E eu, com uma perseverança que não cansa,

Lembro-te com uma magistral destreza;
E hei-de recordar com saudade
Os nossos dias de tenra idade.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Helena

Ó antiga cena helénica metódica:
Conquistaste além-balcãs
Mil milhões de poetas melódicos,
Embebedaste poderosos imãs

E reis ocidentais tomaram por clássico
A tua força de ambiente catártico.
És quinhentista e milenar pré-divina,
Com deuses e conquistas sem carabina.

Ó nação entristecida, desorganizada
E pela Europa inteira pisada.
Seguraste os quispos ideológicos

Desta nova União poderosa
E esses antigos impérios lógicos
Te fizeram Helena lacrimosa.

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta

Entre fumos psicóticos e líquidos de evaporação rápida,
Ele senta-se para escrever qualquer coisa sob a ampla janela.
Desvia o olhar para cima durante dois segundos e contempla.
É a rua de sempre, preenchida pelas pessoas de sempre.
É sobre isso que vai escrever e o seu coração
Cruza-se como as linhas da calçada.

A mansarda está fechada; é domingo de manhã.
Se existisse naquele estúdio alguma vista para o céu,
Que mística universal poderia o poema conter?
Mas é a imaginação que reina e que faz os homens tremer.

As pessoas lá fora são previsíveis: ninguém se desamarra
Da rotineira pressa ou do inevitável consumo dos vícios
Urbanos que tão bem empregam o dono da Tabacaria habitual.
À porta, os clientes param dez ou vinte segundos para acender
O cigarro: o primeiro daquela nova viagem de pacote a estrear.
Uma ou duas tentavas de combustão de fósforo, uma degustação
Primária do fumo que não se inala e uma contemplação
Do cigarro com a ponta incandescente por inteiro.

Acena o poeta a este! Ora lá vai mais um de parecenças!
É a vida moderna - assente naqueles lugares que bem conhece.

Mas a vida movimentada e previsível só dá acaso à análise
Se esta última for percebida do lado de dentro,
Enquanto sentado à beira da janela e rabiscando algumas estrofes.
As imagens que escreve de acordo com as helénicas ou românicas
Divindades, ora nefastas porque lhe é quebrado o ritmo, ora nobres
Porque assentam num crescendo literário, são apenas imagens
De um livro sem ilustrações para o qual só nasceu o Poeta
Observador da Tabacaria defronte na rua.

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

O fim do início

Onde estou a esta hora?
Que questão incoerente.
O que causa esta demora
E não me deixa contente?...

Se tudo acabar?... tudo um dia acaba.
Mas isso é inoportuno, digamos.
Nem o mais ardente vinho trava
Os dias passados; certos e insanos.

Mas tudo é oportuno...
Escrever é uma brincadeira de criança:
Acaba sempre por crescer para algo maior.

E por vermos e notarmos
Essa metamorfose,
Sou triste e não mato nenhum génio.

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Ser grande e grandioso é virtude de ser pequeno numa área também ela pequena

Perdi a vontade de não escrever.
Soltou-me. Estou livre agora!
Como uma máquina, maquineio
Deveras directamente o teclado.

Teclado que outrora era mecânico.
E agora há-os mecânicos novamente.
Mas não pensem que fazem escrever
Melhor ou dirigir os pensamentos
De modo mais abstracto na folha web.
São só modos de construção diferentes.
São só resultados de pensamentos diferentes;
Para pessoas existencialmente diferentes;
Que querem coisas diferentes e que, enfim,
Diferem em todas as semelhanças.

Não há mal em querer coisas diferentes.
Na História, todos os progressos começam
Quando outro diferente acaba.
Assim se evolui. Diferencialmente.

O paradigma mata a concepção.
O dogma mata a ideia renovada.
O filho de outrora será o pai do amanhã.
O Amanhã é filho do futuro recente.

E ninguém, só Deus - nem Deus,
Sabe o que existiu ontem.
Jamais o que existirá amanhã.