segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Como morrer sozinho e sem amigos

Basta seres tu.
Invencível criatura:
Maior do que a lua
E respeitada na rua.
Basta quereres o mundo todo
Que é teu porque assim acreditas.
Baratear com palavras malditas
Os teus oponentes enterrados em lodo.
Basta quereres com toda a força
E seguires os teus ideais divinos.
Seguires-te a ti própria, ó criatura
Sublime anunciada à distância madura
Por inextinguíveis e ecoantes sinos.

Dizeres com voz alta e firme
Que Deus só assim se chama porque queres.
Comprares o jornal com o teu nome em destaque;
Provar que matas todos em combate
Sem teres que lutar sequer.

Secares os oceanos e negares a maré
Que só guarda benefício para quem em ti tem fé.
Laureares com pertinência a tua entidade
Todos os dias.
Resistires com potência à idade
E achares que o tempo era algo que sentias.

Ó grande ser magnífico;
Criatura indistinguível à luz;
Razão superior e auto-verdadeira:

Antes de partires lembra-te que já cá estiveste.

terça-feira, 25 de agosto de 2015

O sorriso de um velho

Estavas sozinha, pacata alma;
Solitária a quem passa:
Reconhecível a quem vê.
Estavas quieta, força tal
Que só a velhice ampara
E o desejo dissolve.

Perguntei-te das acções
Que fizeste - "que contas
Ao teu passado?"

Que não é da minha conta?

Respondeste-me com o
Desejo que outrora tiveste.
"Não é da tua conta."

E eu senti-me novo novamente.

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Entre ser e estar cansado

"Entre ser e estar cansado"
Podia ser o título de um ensaio
Filosófico ou o motivo dado
A uma religião quotidiana.

A primeira: uma forma de viver.
A segunda, quiçá, virá ditar
A decência dum Ser para sempre.
Mas ambas fazem sentir doente...

Ambas são uma pitada de morte
Ambas, pois, as duas, são por certo
A razão de viver e haver alfabeto.

E mais que entre ser e estar,
Fica este soneto a fingir ser
Quem quer e não pode ficar.

quinta-feira, 23 de julho de 2015

Bom dia, Bebé: gosta de mim exactamente?

Eu não sei escrever poemas de amor...
São matérias proibidas de pensar,
Sabe, como quando estou consigo
E a quero vulgarmente beijar...

Mas o seu sorrisozinho transparente...

E as reticências múltiplas, que são
Três pontinhos pequeninos como a bebé;

E os diminutivos tão alegres e com fé
De que se chegue à frente e me sorria.

Mas para escrever poemas de amor
E nem sequer pôr os versos a rimar,
(Porque quer claridade lógica
Quando a sua lhe favorece os olhos?)
Mais vale falar-lhe com bons modos
E arranjar um tempinho e telefonar
À bebé e sermos muito felizes os dois.

(Sim, sermos felizes, felizes, felizes.
Mas por ser feliz corrompo o meu fim.
Morro doente e velho e sou feliz.
Que venha a Peste e mate todos os que
me fazem feliz, que eu sou feliz.
O que é bom é ser feliz, feliz, feliz.
E a menina também será, igualmente,
Feliz: três vezes feliz até ser feliz.)

Arre: e quero eu perceber isto de pôr
Graus diminutivos nos adjectivos,
De perder os verbos e todas as partículas
Sintácticas por causa de ser um justo poema.

Mas a menina é tão bonita.
E a menina mete-me louco.

E como sempre louco que sou,
Vi-a hoje a tempo de lhe perguntar:
"Como se chama a menina?"


segunda-feira, 13 de julho de 2015

Gabriela

Tu tens cabelos aos caracóis,
Castanhos, longos e engraçados.
Olhos semelhantes, e lábios
Sempre serenos e molhados.

Corpo belo, de fina silhueta;
Pernas delgadas e morenas.
Ao veres-me, olhas apenas;
Desejas o que não comprometa.

E no fim, por fora é perdição.
Quem vê, olha e tudo te tira:
Tens tudo menos corpo são.

Gabriela, vives na Mentira
Por te sacrificares para ela.
A beleza pesa, Gabriela.

terça-feira, 7 de julho de 2015

Quando uma mulher chora

Cale-se o mundo inteiro;
Rode incessante o ponteiro
Que nos indica a dura hora
Quando uma mulher chora.

Faz-se com louco silêncio
O luto inevitável dos teus
Olhos molhados, que Deus
Pôs a chorar por ser macio.

Tu, mulher sem medos,
Ficas louca com a vida.
Na ponta dos teus dedos,
Chorando por sentires,
Fazes-me achar-te perdida

(E afinal foste tu
Que me encontraste.)

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Sorri-me assim

Sorri-me assim:
Sentada com compostura
Numa conversa agitada;

Enquanto olhas para mim
E chega aquela altura
De te aproximares animada.

Sorri - sorri para mim!
E quando tu falas entre
Sinais mais ou menos teus,
Espelha os teus olhos nos meus.

Sorri para eu te ver.
És a razão de eu viver,
Mesmo que a minha vida
Passe e não seja sentida.

Para que quero sentimento
Se olhar-te a sorrir
Quebra tudo o que é momento?

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Quem foge do amor

Quem foge do amor
Não foge do amor.
Foge da noite a chorar
e de não dormir bem.

Foge do risco e da fúria;
Do ciúme e da traição.
Foge daquela lamúria
Que vem sem explicação.

Enfim nasce o doce sol
E a brisa quente sopra
Com um conforto mole.

E quem foge do sol
Foge de tudo em redor,
Mas nunca do calor.

quinta-feira, 28 de maio de 2015

Poema fatalista

Exacto. Estou morto.
Nunca vivi sequer.

Ao passarem por mim,
As pessoas desviam-se por compulsão.

Sou desagradável à vista.
Faço sofrer os sentidos todos:
A minha pele engelhada,
A minha voz azeda e crassa.

A minha vida toda é a ambição de
Amanhã poder acabar com ela.

Seguir o rumo das estrelas
Como um marinheiro do século quinze.

Vislumbro a morte pessoal
No dia que se segue à morte funcional.
Se as coisas forem assim,
A vida é a coisa mais bela que encontrei.

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Para sempre pequeno

Quando eu era grande, só queria ser pequeno.
Não via futuro nas coisas vãs do mundo
E os grotescos homens que me acompanhavam
Não transbordavam bondade para ninguém.

Um dia fui para a cidade e parei de crescer.
Somente isso. Uma dolorosa ruptura instanciada
Pelo estudo das coisas todas que aprendia,
Quais me faziam compreender tudo o que não
Compreendia e me retiravam daquela confortável
Ignorância platónica onde tão bem sabia estar.

Aprender é ficar adulto para sempre. A-E-I-O-U.
(Mas ninguém fica permanentemente garoto e as
Garotices são sem dúvida coisas de gente crescida.)

Classes, objectos, linguagens de computadores?
Sistemas digitais e bases de dados relacionais?

Nada me admira eu andar a aprender a falar
Com máquinas absurdas. Afinal, as máquinas
Ficam para sempre crianças na sua absurdez.