segunda-feira, 8 de junho de 2015

Quem foge do amor

Quem foge do amor
Não foge do amor.
Foge da noite a chorar
e de não dormir bem.

Foge do risco e da fúria;
Do ciúme e da traição.
Foge daquela lamúria
Que vem sem explicação.

Enfim nasce o doce sol
E a brisa quente sopra
Com um conforto mole.

E quem foge do sol
Foge de tudo em redor,
Mas nunca do calor.

quinta-feira, 28 de maio de 2015

Poema fatalista

Exacto. Estou morto.
Nunca vivi sequer.

Ao passarem por mim,
As pessoas desviam-se por compulsão.

Sou desagradável à vista.
Faço sofrer os sentidos todos:
A minha pele engelhada,
A minha voz azeda e crassa.

A minha vida toda é a ambição de
Amanhã poder acabar com ela.

Seguir o rumo das estrelas
Como um marinheiro do século quinze.

Vislumbro a morte pessoal
No dia que se segue à morte funcional.
Se as coisas forem assim,
A vida é a coisa mais bela que encontrei.

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Para sempre pequeno

Quando eu era grande, só queria ser pequeno.
Não via futuro nas coisas vãs do mundo
E os grotescos homens que me acompanhavam
Não transbordavam bondade para ninguém.

Um dia fui para a cidade e parei de crescer.
Somente isso. Uma dolorosa ruptura instanciada
Pelo estudo das coisas todas que aprendia,
Quais me faziam compreender tudo o que não
Compreendia e me retiravam daquela confortável
Ignorância platónica onde tão bem sabia estar.

Aprender é ficar adulto para sempre. A-E-I-O-U.
(Mas ninguém fica permanentemente garoto e as
Garotices são sem dúvida coisas de gente crescida.)

Classes, objectos, linguagens de computadores?
Sistemas digitais e bases de dados relacionais?

Nada me admira eu andar a aprender a falar
Com máquinas absurdas. Afinal, as máquinas
Ficam para sempre crianças na sua absurdez.

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Trovador apaixonado

Encerra a guitarra, trovador,
Pois o Mondego está a descer.
A multidão segue o andor
E a ti ainda te custa a crer.
Saudade, ecoas com emoção.
Verdade, pedem-te em união.

O que te faz continuar, trovador?
Se for a cidade, porque te
Encostas naquela Quinta do amor?
Lá há turistas e nenhum estudante.
E da tua feliz garganta afinada
Sai muita coisa mas não sai nada.

Quem queres ver passar, trovador?
Decerto não mudas de poiso
Pois adquiriste a rotina do teu amor.
Ah, o amor! Esse danado coiso!

segunda-feira, 11 de maio de 2015

A tragédia do amor

Num pequeno gesto
Dá-me
Esse resto
De amor.

Cala-te para sempre
Enquanto,
Quente,
Me dizes tudo.

Segue por fim só e forte:
Na estrada
Do fim;
Da morte.

Viver são sinapses e,
De tempo
A Tempo,
Hematoses.

Aí entendi.

terça-feira, 21 de abril de 2015

Um homem muito pobre

Ele era um homem muito pobre
E ninguém sabia que existia.
Dois pães secos era o que comia
Enquanto sentado fitava um nobre

Passeando bem elevado na praça.
O pescoço pardo e fino levemente
Se levantara afim de olhar a quente;
Pesava-lhe nos olhos real injustiça.

"Para onde vai com tanta pressa?"
O homem pobre nunca a teve.
"Para que é que lhe interessa?"

A arrogância do nobre breve
Extinguiu-se quando percebeu
Que quem o olhava era um filho seu.

domingo, 12 de abril de 2015

Embebido no teu perfume

Adormecendo embebido no teu perfume,
Penso na direcção que tomámos firmemente.
Gostava de te dizer por palavras que há
Maneiras de fazer acontecer o melhor em nós

E que me despertas em calmaria de beijos.
Mas é difícil acontecerem diálogos fecundos,
Ora os pensamentos que não se materializam.
Mais um pouco e o levantar das pálpebras

Torna-se imbecilmente moroso e pesado.
Mas pensar em ti com todos os sentidos também.
Recolho-me pela última vez no cobertor

Que cheira a ti e não quer passar despercebido:
Com uma última nuance febril e louca,
Penso como foi beijar-te pela última vez.

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Anti-amor

Não foi uma memória extinta
Ou um raio de sonho luminoso.
Definhe-se no tempo misterioso
Essa vida que relembro em tinta.

Mas aquela vontade de te dizer
Acima da dor o que me fez doer,
Nem essa, que é certa como tu,
Me fará parar de sentir roto e nu.

Chega de promessas distantes
Ou orvalhos de manhãs brilhantes
Esperando o que nunca chega.

Foi um perpétuo silêncio perene
De uma velha novidade cega.
No amor só toca quem não aprende.

quinta-feira, 26 de março de 2015

Filipa

Saí à rua apressado e alguém me sorriu.
Era a Filipa, aquela vizinha suave!
Vive entre a casa arrendada e a universidade
E dizem que tira muito boas notas.

Que estuda ela? Ah, é medicina!
Não deve ter tempo para nada...
"Ontem li os teus sonetos; li-os todos...",
Disse-me enquanto eu fechava o portão.

"Estão muito belos; tão belos que tudo são!"
A Filipa tem metafísica e consciência carnal.
Perguntei-lhe o que fazia: arrumava o quintal.

Eu, que estava atrasado, aproximei-me
Da sua casa paralela. Vendo-a varrer,
Deixei-lhe o meu caderno privado de sonetos.

quinta-feira, 19 de março de 2015

Fecham-se os olhos

Certo é que se fecharmos os olhos,
Escuridão é tudo o que vemos.
Resta-nos o sonho de apenas
Ver com a nossa imaginação
Estes pensamentos do dia-a-dia.
Juntemos então a isso o desejo de
Abrir para sempre os olhos.