segunda-feira, 11 de maio de 2015

A tragédia do amor

Num pequeno gesto
Dá-me
Esse resto
De amor.

Cala-te para sempre
Enquanto,
Quente,
Me dizes tudo.

Segue por fim só e forte:
Na estrada
Do fim;
Da morte.

Viver são sinapses e,
De tempo
A Tempo,
Hematoses.

Aí entendi.

terça-feira, 21 de abril de 2015

Um homem muito pobre

Ele era um homem muito pobre
E ninguém sabia que existia.
Dois pães secos era o que comia
Enquanto sentado fitava um nobre

Passeando bem elevado na praça.
O pescoço pardo e fino levemente
Se levantara afim de olhar a quente;
Pesava-lhe nos olhos real injustiça.

"Para onde vai com tanta pressa?"
O homem pobre nunca a teve.
"Para que é que lhe interessa?"

A arrogância do nobre breve
Extinguiu-se quando percebeu
Que quem o olhava era um filho seu.

domingo, 12 de abril de 2015

Embebido no teu perfume

Adormecendo embebido no teu perfume,
Penso na direcção que tomámos firmemente.
Gostava de te dizer por palavras que há
Maneiras de fazer acontecer o melhor em nós

E que me despertas em calmaria de beijos.
Mas é difícil acontecerem diálogos fecundos,
Ora os pensamentos que não se materializam.
Mais um pouco e o levantar das pálpebras

Torna-se imbecilmente moroso e pesado.
Mas pensar em ti com todos os sentidos também.
Recolho-me pela última vez no cobertor

Que cheira a ti e não quer passar despercebido:
Com uma última nuance febril e louca,
Penso como foi beijar-te pela última vez.

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Anti-amor

Não foi uma memória extinta
Ou um raio de sonho luminoso.
Definhe-se no tempo misterioso
Essa vida que relembro em tinta.

Mas aquela vontade de te dizer
Acima da dor o que me fez doer,
Nem essa, que é certa como tu,
Me fará parar de sentir roto e nu.

Chega de promessas distantes
Ou orvalhos de manhãs brilhantes
Esperando o que nunca chega.

Foi um perpétuo silêncio perene
De uma velha novidade cega.
No amor só toca quem não aprende.

quinta-feira, 26 de março de 2015

Filipa

Saí à rua apressado e alguém me sorriu.
Era a Filipa, aquela vizinha suave!
Vive entre a casa arrendada e a universidade
E dizem que tira muito boas notas.

Que estuda ela? Ah, é medicina!
Não deve ter tempo para nada...
"Ontem li os teus sonetos; li-os todos...",
Disse-me enquanto eu fechava o portão.

"Estão muito belos; tão belos que tudo são!"
A Filipa tem metafísica e consciência carnal.
Perguntei-lhe o que fazia: arrumava o quintal.

Eu, que estava atrasado, aproximei-me
Da sua casa paralela. Vendo-a varrer,
Deixei-lhe o meu caderno privado de sonetos.

quinta-feira, 19 de março de 2015

Fecham-se os olhos

Certo é que se fecharmos os olhos,
Escuridão é tudo o que vemos.
Resta-nos o sonho de apenas
Ver com a nossa imaginação
Estes pensamentos do dia-a-dia.
Juntemos então a isso o desejo de
Abrir para sempre os olhos.

terça-feira, 3 de março de 2015

Errar é fixe, conas de merda!

Errare humanum est. Penso eu.

Não me cometo com exclusividade aos enganos graves que prejudicam as pessoas ao nosso redor quando vulgarizo a idiota falta de eficácia humana, comummente conhecida por 'erro'. Se mais tempo fosse aproveitado para discutir os problemas graves do mundo e as grandes questões - de voluptuosa natureza - seriamos todos mais felizes. Por certo, quem discorda disto nunca vislumbrou mamas de uma maneira extremamente esotérica.

O quanto são ridículos os adolescentes que incessantemente despojam largas horas afogados em pensamentos absurdos direccionados ao sexo oposto, cismando que talvez aquela particular interacção anteontem com aquela específica rapariga, ou rapaz, fosse mal efectuada e, doravante, interacções semelhantes passarão a ser consideradas erros. Ah - os grandes erros da adolescência infinita! Ah - como o mundo parece por vezes tão mal moldado por ti, vulgar adolescente insignificante.

Enfim, se esses erros forem os teus e não os de mais ninguém, erra com uma força enorme! Mas erra enquanto podes, porque por enquanto és adolescente e não és absolutamente mais nada - nem para ti nem para mais ninguém. Como consequência lógica disso, os teus erros também não são nada no panorama global dos erros diários cometidos por aqueles que fazem diferença no mundo.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Elisa

Para Elisa o mundo brilha
E o suave piano dual começa.
O tempo sinfónico atravessa
Os atalhos que a vida trilha

Enquanto, pura, Elisa escuta
Com os seus grandes olhos.
Nestes dias de pequenos sonhos
E de estáticas e complexas lutas,

Ver compor por quem não ouve
A bela e alemã obra de piano,
Ainda que nem suspeitas houve

Do ancião e audaz amor leviano,
Faz calar as luzes e concretiza
Brilhante e eterna vida para Elisa.

domingo, 22 de fevereiro de 2015

O pálido ponto azul suspenso num raio de sol


Quando o Universo decidiu
À Terra dar a divina vida,
Ainda que agora perdida,
Não soube o que sentiu.

Na altura de hora crassa
Fez as terras e os rios;
Os homens, esculpiu-os
Pondo-lhes uma certa graça.

Olhou-nos por fim o Universo
Ao longe envolto, de leve,
Numa sólida lágrima breve,

Vendo o seu maior sucesso:
A Terra de norte a sul;
Este pálido ponto azul.

domingo, 15 de fevereiro de 2015

Soneto silencioso

Era tarde, sabíamos, para nos amarmos.
Ainda assim escolhemos os abraços sóbrios
Para serem o refúgio do nosso romance.
Esses abraços extensíveis no tempo...

Tantas estórias sobre o excessivo e enervante
Amor que denunciámos; quantas lutas lógicas
Tentámos, na esperança perdida de querer mais,
Um contra o outro, ferozes, impecáveis, dissipar.

Longe, onde moras, as pessoas casam com quem
Lhes pertence. Fazem filhos e dão-lhes a Vida
Que lhes resta... A ti deram-te a Morte certa.

Porque cansas quem te quer e assustas o Futuro,
Afastaste-te precoce, e sem ti apenas restou
Um silêncio inimaginavelmente ensurdecedor.