domingo, 15 de fevereiro de 2015

Soneto silencioso

Era tarde, sabíamos, para nos amarmos.
Ainda assim escolhemos os abraços sóbrios
Para serem o refúgio do nosso romance.
Esses abraços extensíveis no tempo...

Tantas estórias sobre o excessivo e enervante
Amor que denunciámos; quantas lutas lógicas
Tentámos, na esperança perdida de querer mais,
Um contra o outro, ferozes, impecáveis, dissipar.

Longe, onde moras, as pessoas casam com quem
Lhes pertence. Fazem filhos e dão-lhes a Vida
Que lhes resta... A ti deram-te a Morte certa.

Porque cansas quem te quer e assustas o Futuro,
Afastaste-te precoce, e sem ti apenas restou
Um silêncio inimaginavelmente ensurdecedor.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

A velocidade da Fé e a distância de Deus

Parece-me que a fé é inextinguível. Bem - de acordo com a primeira lei da termodinâmica tudo o é.

Na noite estrelada da minha aldeia, sem poluições visuais que impeçam o olhar de alcançar Orion, Cassiopeia e outras constelações na cidade apagadas, vislumbro o cosmos como ele era antigamente, há milhares e, quiçá, milhões de anos. Tudo porque a luz desse cosmos é, concorrentemente à fé, limitada por uma velocidade.

Mas a fé também tem uma velocidade qualquer... Certamente, para a conhecermos, devemos primeiro perceber em que material se propaga esta brisa divina que diariamente faz acordar pessoas devotas com alegria e vontade. Não acredito que seja no ar, até porque no primeiríssimo versículo do Génesis está descrito que "Deus criou os céus e a terra". Ora, se a Bíblia principia com os dois elementos distintos do nosso mundo - terra e ar - sem que antes fale de luz, trevas e Vida, poderemos afirmar que Deus tem pinta de arquitecto e não de físico de partículas - considerando que a Fé pode ser dividida infinitesimalmente em indivisíveis corpúsculos, à semelhança da luz. Posto isto: Deus pensa no material antes de pensar no que nele se pode propagar. Por isso é que se baptizam as crianças e se crismam os jovens.

Deitada por terra a hipótese de conhecer a velocidade da Fé através do meio em que se propaga, vejamos quanto tempo demora esta a propagar-se desde a sua fonte até ao seu receptor. Aqui fica tudo mais interessante, até porque negar que a fonte da Fé é Deus seria deitar por terra milhares de anos de uma religião por gerações orquestrada. Mas ainda assim desconfio que a teoria da evolução se pode evocar divinamente. Ainda assim desconfio que Deus não é a origem da Fé. Deus não é a origem de nada. Parece-me.

Isto, dito assim, pode subentender alguma arrogância e ousadia perigosa. Portanto, para equilibrar a balança moral, ofereço uma hipótese: a Fé chega-nos antes de existir. Ao contrário do conforto, do medo e de todas as coisas que se sentem, a Fé é consequência da nossa incompreensão. Ora se não compreendemos, como podemos atribuir-lhe um dado físico como a distância ou sequer a existência?

Deus, concluo, é a incompreensão que move a Ciência e o Homem como um todo. Nunca se adorou uma pedra porque está parada num sítio e pode ver-se com clareza. Nunca se adorou uma pedra porque a pedra não nos diz nada e porque há muitas.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Diana

Deontológica Diana;
De saberes na fé enraizados,
O teu sabor de vida insana
Não faz jus à moralizada

Questão dos idos tempos.
Que questão pertinente...
Outrora: certos ventos;
Agora: quem cala, mente.

Na foz do rio, quando
Ele acaba e se torna mar,
Serás somente oxidação

Numa rota sem ar.
Impossível à visão,
Nada te fará abrandar.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Rio Mondego

A fantasia mergulha,
Vaga, nas tuas ondas morenas.
Diante tuas passagens estreitas,
Concentrada está a tua Ciência;
A tua análise e Biologia completas.

Nada te faz falta porque
Ininterruptamente te destina
O desanimado Oceano.
Nem que sequem os céus...
Cursarás desde a nascente serrana
À foz de feição ribeirinha.

Passas por aqui porque
Assim o decidiste no teu rumo inicial.
Ou em significação consequente,
Porque assim a todos convém,
Decidiram aqui se fixar.
E tu, que és rio passivo, não negaste.

As tuas águas movem-se.
Nas tempestades és o dinâmico diabo.
Mas também és um rio.
Com origem e fim.
Assim, nunca dirás nada:
Nem que eu fale para ti.

Coimbra

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

A definitiva análise canónica do epitélio malpighiano

Não encontro em ti quaisquer indícios que apontem directos para a tua fragilidade erótica. Segues uma linha de vida paralela aos teus desejos, cuja distância inalterável, por sorte, é facilmente anulada. Vive para os desejos - com compulsividade e admiração pródiga pelas loucuras que finges não cometer! Ah, doce rosto angelical, tão somente máscara.

És admirável por guardares atrás de ti o eterno milagre da vida.

E firmando os teus olhos, beijando os teus lábios, escrevendo o futuro num acto louco de amor, te vês espelhada nas estrelas, que não brilham hoje mas logo brilharão.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Poema do "Se"

Se te vês inserido numa fé,
Mas da nobre razão usurpado;
Se rezas para o bem universal,
Mas pecas a vida sentado;

Se na discórdia vês terror
E na falta argumentativa
Ainda te achas Senhor;
Se as opiniões para ti

São estacas profundamente
No teu solo de areia enterradas;
Se encontras somente amor

Na raiz de todo o final bem;
Então estuda: faz de conta
Que o mundo é todo teu.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

É a hora! Valete, Frates!

Imoral.

Ele foi o primeiro a desenhar.

Os "Canards" (patos; referência aos jornais franceses) voam mais alto que as armas.



Porquê?... (Espingarda? Kalashnikov? Granada?)

Que pequena arma é esta que nos fere tanto?



Eu sou Charlie.

Como se precisássemos de mais editores sisudos nas nossas costas, ameaçando cortes!



Oh, não... Estes não...






Estes cartoons foram desenhados por artistas um pouco por todo o mundo como forma de resposta ao atentado terrorista à redacção do Charlie Hebdo.

Que se una a arte ao protesto e o incómodo à liberdade de expressão.

Todos os desenhos estão assinados pelos devidos autores.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

O dia que sucede o dia de Natal II

O Natal passou ontem
E hoje é dia de trabalho.
Com as prendas contem
Mais tristeza no baralho.

Minto: não há prendas.
A vida é o nosso terror.
Há somente as lendas
Muito cheias de amor.

Ao terceiro dia acaba
Tudo o que começou.
As promessas são nada,
Mas isso nem eu sou.

Fiquem felizes no Natal:
Não há mesas sem comer
Pois todos têm a tal
Ganância por receber.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Este belo Natal

Numa gélida e natalícia rua, sozinho, um menino procura uma específica loja por lá aberta. Entra numa com guloseimas de montra convidativas e brinquedos coloridos ao fundo sem sequer reparar que passou da rua fria à loja de confortável temperatura. Esse desejo extra-físico e corporal que cegamente o fez ver os artigos que o Natal fizera chegar àquele estabelecimento, que denota já sobre as suas paredes e demais estruturas idade pesada, explicava-se pela idade tenra e juvenil das suas pernas, que o apressaram até à prateleira mais afastada. Automático, o rapazito alcança uma caixa de madeira antiga com alguma inconveniente poeira - pelo sopro forte extinta - e com dois bonecos nela desenhados: um pai-natal acompanhado por um pequeno e prestável gnomo. Sem dúvida que o invólucro que segurava fazia parte do século precedente ao do nascimento do nosso protagonista, mas, com mais certeza ainda, ele reconhecia o grafismo: de onde? não sabia. Mas conhecia-o e jurava-o mentalmente. O que teria provocado aquele instinto que o fez alcançar a inexplicável e desejada caixa de madeira? Não sabia, mas tinha a certeza que algo de mágico, que só a alegria e a unicidade do Natal conseguiria explicar, se encontrava no seu interior.

Num improvável dia sem clientes, o dono da loja, sentado em parte sobre uma cadeira e em parte sobre a idade, sossegadamente lia um livro muito antigo. Naquela época era costume a loja ter clientela de sobra, sobretudo de pessoas já antigas como o livro e o dono, que procuravam as coisas que as faziam sonhar nos Natais longínquos das suas infâncias. Com estranheza, quem entra é um menino, que sem ver nada do exposto - excepto, com um olhar vago, os chocolates à entrada - se penetra rapidamente na parte mais afastada da loja, agarrando a dita caixa de madeira de indecifrável conteúdo. Surpreso com este acontecimento inesperado, diz o velho dono:

- Raios te partam, Joãozinho, o que vieste aqui fazer com este frio? A tua mãe não pode ir às compras sossegada que a desobedeces logo e sais de casa!
- Desculpa lá avô, vim só buscar os comandos da consola. Podes vender a caixa, eu é que já não sabia do raio dos comandos. Só agora é que me lembrei que era aqui que os guardava.
- Muito bem, vê lá se tens juízo a voltar para casa. Como está a ser o Natal, já agora?
- Bom, farto-me de jogar Grand Theft Auto 5™ e Watch Dogs™ na Playstation 4™ da Sony®.
- Está bem, vá. Juizinho.
- Adeusinho, avô. Feliz Natal.
- Dá um beijinho à tua mãe.

E a caixa, que simboliza tão claramente o espírito de Natal que aproxima distantes gerações, foi vendida a um transeunte daquela rua que a conseguiu por dois euros e meio somente depois de regatear um pouco.

Feliz Natal a todos os dois leitores do Vou Escrever Um Blogue, e que 2015 seja melhor do que a maioria dos anos do século dezassete.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Poesia

Meu amor: como o tempo de saudade
Escorre lacrimosamente por meu rosto.

Nem a prata da casa ou o ouro da igreja,
Nem o amo sorridente ou a serviçal
Mulher-a-dias que aqui emprego,
Nem eles, nem nada, nem ninguém,
Te repõem em minha vida que era nossa.

Como a bravura do campo ou a ternura
Das mães que lá habitam com suas famílias,
Também tu, para a natureza vinda, da fama
Retornada, me dás a chama de mil valentes
Gregos e de um milhão de dons Quixotescos.

Acaba-me a poesia quando no pensamento
Me acabas e não voltas senão amanhã.
Mas não te extingues e isso é bom.
Nunca te extingues que és fogo
E o que me faz escrever.
Mas não sorrio.