quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Talvez se pudéssemos permanecer neste estado inerte enquanto o tempo não passa

O que se há-de fazer quando ninguém aparece no espaço de arte que abriu na noite anterior? Porventura o desconhecimento do artista configure o deserto local, ou a ambiguidade da arte que o preenche, ou qualquer outra coisa que se pudesse confiar às descrições inerentes ao acontecimento.

Não se fará nada porque tudo vai passar enquanto ninguém passa; e a essa conclusão há já o artista chegado numa instância ante-visionária. Quando ele foi para a frente com o projecto já tinha o conhecimento que aqueles metros quadrados seriam um caixote do lixo de dinheiro e que quem a infelicidade de os visitar tivesse seria considerado um cabeça-oca da cultura. Ele não tinha quem o aconselhasse do que seria melhor e sozinho percorreu o caminho que tinha a percorrer, não fosse incomodar alguém desnecessariamente.

Mas a consequência - pelo artista designada "reacção" à sua arte - será a de não acabarem naquela cidade os movimentos artistas independentes, sem -ismos ou enfeites. Ele é arte e sabe-o.
Um dia morrerá e todos abrirão os olhos. Talvez se pudéssemos permanecer neste estado inerte enquanto o tempo não passa, ninguém sairia ferido, tal efeito devastador da necessidade de haver movimento de qualquer espécie.

sábado, 29 de novembro de 2014

Na mão esquerda uma flor

Na mão esquerda uma flor
Que secou há algum tempo;
Na direita, o árduo rancor
Da secura que leva o vento.

No cimo da antiga cidade,
Anciã ao ensino académico,
Passa o tempo e fica tarde.
O amor torna-se epidémico

E quando a noite torna fria
A oferta de nós os dois,
Veremos o saudoso rio

Com a vida que vem depois.
Meu amor, encantada pessoa,
Não largues a flor que ela voa.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Beatriz

A ténue silhueta delgada,
Fugaz a quem a alcança,
Foge de quem em nada
Lhe dá mais esperança.

Serás para sempre criança,
Mas enquanto esperas
Amarga tua final dança,
Temo-te como mil feras.

Enfim o sol se descobre
E a lua despida se esconde.
Para que o amor sobre,
Beatriz, algo será nobre.

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Adolescentes vagas cujos seios são facilmente acedidos

De botão em botão,
Com a sua lentidão,
Nua fica, perdida
E friamente despida.

Sua alma é oca,
Seu espírito presente.
E quanto à voz rouca,
Essa já não a sente.

(Mais sujo é um poema
Que liberta o que nada
Tem de errado. Só tarda
Para que nada tema.)

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Ana

'Ana', disse em resposta à análoga questão.
De simples mas astuta contemplação,
Esse nome que a define e desvende
Ao mínimo reduto da vulgaridade,
Por conseguinte Maria a entende.

'Ana', lembro eu com fugaz saudade.
A virtude versifica a pressa enquanto
Suas coxas definidas e magníficas,
Um tanto sensuais, um quanto refúgios,
Se visualizaram alheias à mundanidade.

E enquanto houver paz no mundo,
Haverá Anas por aí, para louvar.
Serão Marias, mas sem acabar.

(Deixei por Ana o sufixo perfeito,
O qual de resto toma por defeito
Essa tal Mariana, Diana e Joana.)

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Hipócrates

No teu reino de animalescas feituras,
Aguardando negra e apática esperança,
Vai-se revelando, embora triste, a dança
Redonda de corporais e emocionais leituras.

Por julgares feliz, com obras de intemporal
Significação, solenemente serás o general
Incansável da medicinal e hipotética geração.
Teu julgo veio. Cristo morreu: não houve sanção.

As funções médicas ao teu dispor, combinadas
Com glórias e poder biológico independente,
Na Vida e na Morte, ambas a Hades confiadas,

São utensílio útil para um mundo decadente.
Por ser assim, e não o oposto, és deste Humano
Terreno pai, grego Hipócrates pré-Romano.

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Somos vagos

Somos vagos:
Vazios e crassos;
Amplos lagos
De vileza e fracassos.

Outrora magníficos,
Definhamos as conclusões.
Aguardamos pacíficos
O nada das situações.

Falta ânimo,
Vida e certezas.
Lá no cimo
Ofuscam realezas.

Somos máquinas
De cabeça invertida.
Esta vida apenas
Não nos dá Vida.

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Passeando

Vinha num passeio abaixo,
Caminhando distraída,
A saudade de não querer nada.
Caminhando porque não chega;
Distraída porque já me apanhou.

Quando vens ao mundo, Vida,
Esperas a tua vizinha sombria.
Mas, por ninguém a desejar,
Nunca chega essa fatal
Consequência de existires.

Apenas garantes a calçada
Bem preparada, sem percalços
De construção, pronta a receber
O passeio último de saber o
Que na vida se quer.

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

"Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo."

'Quando' é um mar com ondas a chegar:
Como todos os mares que comem as questões.
'Onde' é a explicação catártica que ousa
Perguntar se há coisa diferente de outra.

     Sentinela e à porta, não temo quem lá vem.
     Senti nela nada mais que ela estar a mais.
     Trouxe exércitos e eu recolhido, atento
     Mas adormecido, sei que nunca hemos chegar.

O que faço aqui, nesta hora infausta?
'Já viste a sorte que tens? Estima-a.'
A Literatura nem sequer me vem.
Qual amor tão unilateralmente passivo.
Mais do que nada, é Fernando Pessoa.

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Bailado de Outubro

Tique-taque.
Um, dois, três, quatro.
Tempo.

Uma fantasia aberta
No obscuro salão
Faz-me ficar alerta.
As moças são
Ágeis e melhores
Que modelos.
Cobertas em suores;
Com curtos cabelos.
Marcam o espaço
E nunca se cansam.
Na testa um laço
E alegres dançam.

Fosse a vida
Desembainhada
Tal como é bailada.
Fosse o tempo
Tão ilimitado
Quanto o espaço.
Fosse posição
De dança
Tudo o que cansa.