sábado, 29 de novembro de 2014

Na mão esquerda uma flor

Na mão esquerda uma flor
Que secou há algum tempo;
Na direita, o árduo rancor
Da secura que leva o vento.

No cimo da antiga cidade,
Anciã ao ensino académico,
Passa o tempo e fica tarde.
O amor torna-se epidémico

E quando a noite torna fria
A oferta de nós os dois,
Veremos o saudoso rio

Com a vida que vem depois.
Meu amor, encantada pessoa,
Não largues a flor que ela voa.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Beatriz

A ténue silhueta delgada,
Fugaz a quem a alcança,
Foge de quem em nada
Lhe dá mais esperança.

Serás para sempre criança,
Mas enquanto esperas
Amarga tua final dança,
Temo-te como mil feras.

Enfim o sol se descobre
E a lua despida se esconde.
Para que o amor sobre,
Beatriz, algo será nobre.

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Adolescentes vagas cujos seios são facilmente acedidos

De botão em botão,
Com a sua lentidão,
Nua fica, perdida
E friamente despida.

Sua alma é oca,
Seu espírito presente.
E quanto à voz rouca,
Essa já não a sente.

(Mais sujo é um poema
Que liberta o que nada
Tem de errado. Só tarda
Para que nada tema.)

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Ana

'Ana', disse em resposta à análoga questão.
De simples mas astuta contemplação,
Esse nome que a define e desvende
Ao mínimo reduto da vulgaridade,
Por conseguinte Maria a entende.

'Ana', lembro eu com fugaz saudade.
A virtude versifica a pressa enquanto
Suas coxas definidas e magníficas,
Um tanto sensuais, um quanto refúgios,
Se visualizaram alheias à mundanidade.

E enquanto houver paz no mundo,
Haverá Anas por aí, para louvar.
Serão Marias, mas sem acabar.

(Deixei por Ana o sufixo perfeito,
O qual de resto toma por defeito
Essa tal Mariana, Diana e Joana.)

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Hipócrates

No teu reino de animalescas feituras,
Aguardando negra e apática esperança,
Vai-se revelando, embora triste, a dança
Redonda de corporais e emocionais leituras.

Por julgares feliz, com obras de intemporal
Significação, solenemente serás o general
Incansável da medicinal e hipotética geração.
Teu julgo veio. Cristo morreu: não houve sanção.

As funções médicas ao teu dispor, combinadas
Com glórias e poder biológico independente,
Na Vida e na Morte, ambas a Hades confiadas,

São utensílio útil para um mundo decadente.
Por ser assim, e não o oposto, és deste Humano
Terreno pai, grego Hipócrates pré-Romano.

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Somos vagos

Somos vagos:
Vazios e crassos;
Amplos lagos
De vileza e fracassos.

Outrora magníficos,
Definhamos as conclusões.
Aguardamos pacíficos
O nada das situações.

Falta ânimo,
Vida e certezas.
Lá no cimo
Ofuscam realezas.

Somos máquinas
De cabeça invertida.
Esta vida apenas
Não nos dá Vida.

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Passeando

Vinha num passeio abaixo,
Caminhando distraída,
A saudade de não querer nada.
Caminhando porque não chega;
Distraída porque já me apanhou.

Quando vens ao mundo, Vida,
Esperas a tua vizinha sombria.
Mas, por ninguém a desejar,
Nunca chega essa fatal
Consequência de existires.

Apenas garantes a calçada
Bem preparada, sem percalços
De construção, pronta a receber
O passeio último de saber o
Que na vida se quer.

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

"Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo."

'Quando' é um mar com ondas a chegar:
Como todos os mares que comem as questões.
'Onde' é a explicação catártica que ousa
Perguntar se há coisa diferente de outra.

     Sentinela e à porta, não temo quem lá vem.
     Senti nela nada mais que ela estar a mais.
     Trouxe exércitos e eu recolhido, atento
     Mas adormecido, sei que nunca hemos chegar.

O que faço aqui, nesta hora infausta?
'Já viste a sorte que tens? Estima-a.'
A Literatura nem sequer me vem.
Qual amor tão unilateralmente passivo.
Mais do que nada, é Fernando Pessoa.

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Bailado de Outubro

Tique-taque.
Um, dois, três, quatro.
Tempo.

Uma fantasia aberta
No obscuro salão
Faz-me ficar alerta.
As moças são
Ágeis e melhores
Que modelos.
Cobertas em suores;
Com curtos cabelos.
Marcam o espaço
E nunca se cansam.
Na testa um laço
E alegres dançam.

Fosse a vida
Desembainhada
Tal como é bailada.
Fosse o tempo
Tão ilimitado
Quanto o espaço.
Fosse posição
De dança
Tudo o que cansa.

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Bíblia

Leu-se a bíblia e assim ficou.
Uma peça de literatura originou
Coisas demasiadas. Os homens
Perderam-se e consomem-se
Afirmando entenderem o ideal
Abstracto daquela obra radial.

Li Caim e o Evangelho de Saramago.
(Ou fingi que li - como se lê a Bíblia
De todos nós e de Deus de nós todos.)
As dúvidas que aqui embargo
São falsas como o Gesto Amargo
De Deus Todo-Poderoso-Assim-Assim.
Não é necessário medo ou instituição.
Recuso viver angustiado - assistindo
A textos escritos que nada são.

Ora as pessoas? Fazem-me sorrir
Porque não vejo nada nelas diferente.
Nada me faz Deus, ou outro, sentir.
Mas as pessoas fazem-me contente.
Sim - as pessoas de uma Religião.
Elas são todas iguais. Não são?

Creio nelas. Creio que se há Deus,
Nada em que eu acredite lhe importará.
Mas não há deus pela oposição
De ideias entre povos e comunidades.
Há deus naquelas coisas da bondade.
Há uma entidade divina em cada esquina:
Espreitei e vi-a, de relance, até me esconder.
Há gente cheia de fé - tanta que até chateia.
Mas há outras que - Deus me venha negar -
Pouco querem saber, de tanto adorar.

A Religião é tudo isto e nada mais.
A missão é saber o que comer agora;
Cuidar de quem precisa e jamais
Praticar o mal. Quem isto demora
A enxergar por estar cego com uma
Religião - meus irmãos - haja inferno
Para eles que não chegam ao Inverno.

Leu-se a Bíblia e ficou assim.