sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Passeando

Vinha num passeio abaixo,
Caminhando distraída,
A saudade de não querer nada.
Caminhando porque não chega;
Distraída porque já me apanhou.

Quando vens ao mundo, Vida,
Esperas a tua vizinha sombria.
Mas, por ninguém a desejar,
Nunca chega essa fatal
Consequência de existires.

Apenas garantes a calçada
Bem preparada, sem percalços
De construção, pronta a receber
O passeio último de saber o
Que na vida se quer.

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

"Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo."

'Quando' é um mar com ondas a chegar:
Como todos os mares que comem as questões.
'Onde' é a explicação catártica que ousa
Perguntar se há coisa diferente de outra.

     Sentinela e à porta, não temo quem lá vem.
     Senti nela nada mais que ela estar a mais.
     Trouxe exércitos e eu recolhido, atento
     Mas adormecido, sei que nunca hemos chegar.

O que faço aqui, nesta hora infausta?
'Já viste a sorte que tens? Estima-a.'
A Literatura nem sequer me vem.
Qual amor tão unilateralmente passivo.
Mais do que nada, é Fernando Pessoa.

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Bailado de Outubro

Tique-taque.
Um, dois, três, quatro.
Tempo.

Uma fantasia aberta
No obscuro salão
Faz-me ficar alerta.
As moças são
Ágeis e melhores
Que modelos.
Cobertas em suores;
Com curtos cabelos.
Marcam o espaço
E nunca se cansam.
Na testa um laço
E alegres dançam.

Fosse a vida
Desembainhada
Tal como é bailada.
Fosse o tempo
Tão ilimitado
Quanto o espaço.
Fosse posição
De dança
Tudo o que cansa.

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Bíblia

Leu-se a bíblia e assim ficou.
Uma peça de literatura originou
Coisas demasiadas. Os homens
Perderam-se e consomem-se
Afirmando entenderem o ideal
Abstracto daquela obra radial.

Li Caim e o Evangelho de Saramago.
(Ou fingi que li - como se lê a Bíblia
De todos nós e de Deus de nós todos.)
As dúvidas que aqui embargo
São falsas como o Gesto Amargo
De Deus Todo-Poderoso-Assim-Assim.
Não é necessário medo ou instituição.
Recuso viver angustiado - assistindo
A textos escritos que nada são.

Ora as pessoas? Fazem-me sorrir
Porque não vejo nada nelas diferente.
Nada me faz Deus, ou outro, sentir.
Mas as pessoas fazem-me contente.
Sim - as pessoas de uma Religião.
Elas são todas iguais. Não são?

Creio nelas. Creio que se há Deus,
Nada em que eu acredite lhe importará.
Mas não há deus pela oposição
De ideias entre povos e comunidades.
Há deus naquelas coisas da bondade.
Há uma entidade divina em cada esquina:
Espreitei e vi-a, de relance, até me esconder.
Há gente cheia de fé - tanta que até chateia.
Mas há outras que - Deus me venha negar -
Pouco querem saber, de tanto adorar.

A Religião é tudo isto e nada mais.
A missão é saber o que comer agora;
Cuidar de quem precisa e jamais
Praticar o mal. Quem isto demora
A enxergar por estar cego com uma
Religião - meus irmãos - haja inferno
Para eles que não chegam ao Inverno.

Leu-se a Bíblia e ficou assim.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Como de costume, tenho dificuldade em rematar um título

Invente uma história.
Verá que o empurrão
Inicial será escória
Ao receber seu quinhão.

Por vezes tudo parece
Uma fantasia encadeada:
O recheio belo acontece
E ideias surgem do nada.

Dê luta ao pensamento.
Se agora, neste momento,
Não lhe vem o começo,
Escreva o fim como adereço.

Se calhar a metafísica
Supera a lógica final.
Alguma superlativa dica
Me retira a vida radical.

Leia mais que isso é bom
Para inverter a inspiração.
Algo simples - um som -
O fará escrever uma canção.

Cantar os feitos Lusos
E papagueá-lo mais tarde,
Num século consciente,
Serve só aos de boa mente.

Mas eu sonho e desbasto
Este futuro que nunca é.
O que será? - perdi-lhe o rasto.
Porra, que Futuro posto de ré.

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Poema curto e simbólico

Pequenos actos de vileza
Indexados ao extremo,
E sempre cheios de certeza,
Dão sofrimento terreno.

Aos pais, e filhos de idade,
Dura é a ternura a receber.
Enlaçados, isentam quantidade.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Sozinho vou, meu amo

Sozinho vou, meu amo,
Para onde me levarem
As coisas que, quando
Não se vêem, se sentem.

Serviste-me em hora
Vaga e inexistente.
Tiveste tempo de sobra
E nem esse trouxe gente.

Sozinho nascer me viste.
Contigo de vigia fiquei.
Com a tua vida triste
Ainda não me deparei.

Ensina-me as canções
Da vida, e da morte:
Esta que nos Verões
Espera quem tem sorte.

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Dona Henriqueta que cuida dos efémeros

Dona Henriqueta: faça o favor de chegar aqui.
Ao meu colo encontra um envelope, selado
E com um conteúdo escrito especialmente para si.
Quero que regue as flores que estão aqui ao lado.

Estou a morrer e, sabe Dona Henriqueta santa,
Nesta cama final só há dúvidas e arrependimentos.
Tenho pena de ser eu assim. Tenho frio: dê-me a manta.
Vivi, amei e chorei. Na falta de mais, tenho esses momentos.

Vi tudo o que o mundo me quis à vista mostrar.
Senti a brisa fina e a doirada manhã sem lhes tocar.
Sorri sempre para si ao dar-lhe estas cartas
Que, agora no fim, não vale nada atirar as setas.

Mas você, tenra Dona Henriqueta assistente,
Tanta vida viu partir que nem enxergou a sua a acusar.
Abra o olhar que ao seu redor nada a está a enganar.
Somente você, jovem Henriqueta, vive a vida intermitente.

Cuida de nós, efémeros, e vê-nos como gente.
Em si há bondade, consigo-o ver claramente -
Mas a bondade apenas redunda em coisa nenhuma.
Cuide de si, ajude os outros: seja feliz, em suma.

sábado, 2 de agosto de 2014

Calem-se os sonhos

Calem-se os sonhos
Que gritam "É HOJE!".
Guardem a força
E voem para longe.

Aqui ninguém vos ouve.
Aqui ninguém ouve ninguém;
Aliás: aqui nunca houve
Quem quisesse ver além.

Velhos conservadores
(Cheios de cegueira reveladora)
Nomeiam com horrores
Os sonhos proibidos.

Esses últimos, nos idos
De quem jura a mentira,
Abrem a vida de quem
A vida aos outros tira.

Gritem. Soem eroticamente
Aos ouvidos desses velhos.
Perversos como são,
No final, enfim, morrerão.

domingo, 27 de julho de 2014

Amor & Morte (não necessariamente por essa ordem)

Embora a sombra esfrie
Quando a inútil alma lhe tocar,
Não serão em vão todos
Os suplícios que Deus fez chegar.

Arderão erroneamente vis acções;
Mas quem ao longe viu cometer
Nefastas e perigosas afirmações
Não se cometeu à graça de as parar.

Agora o amor é falado
Enquanto a morte paralela assiste.
Vê-los-emos chegar pela calada.
A ambos nada resiste.