terça-feira, 23 de setembro de 2014

Como de costume, tenho dificuldade em rematar um título

Invente uma história.
Verá que o empurrão
Inicial será escória
Ao receber seu quinhão.

Por vezes tudo parece
Uma fantasia encadeada:
O recheio belo acontece
E ideias surgem do nada.

Dê luta ao pensamento.
Se agora, neste momento,
Não lhe vem o começo,
Escreva o fim como adereço.

Se calhar a metafísica
Supera a lógica final.
Alguma superlativa dica
Me retira a vida radical.

Leia mais que isso é bom
Para inverter a inspiração.
Algo simples - um som -
O fará escrever uma canção.

Cantar os feitos Lusos
E papagueá-lo mais tarde,
Num século consciente,
Serve só aos de boa mente.

Mas eu sonho e desbasto
Este futuro que nunca é.
O que será? - perdi-lhe o rasto.
Porra, que Futuro posto de ré.

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Poema curto e simbólico

Pequenos actos de vileza
Indexados ao extremo,
E sempre cheios de certeza,
Dão sofrimento terreno.

Aos pais, e filhos de idade,
Dura é a ternura a receber.
Enlaçados, isentam quantidade.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Sozinho vou, meu amo

Sozinho vou, meu amo,
Para onde me levarem
As coisas que, quando
Não se vêem, se sentem.

Serviste-me em hora
Vaga e inexistente.
Tiveste tempo de sobra
E nem esse trouxe gente.

Sozinho nascer me viste.
Contigo de vigia fiquei.
Com a tua vida triste
Ainda não me deparei.

Ensina-me as canções
Da vida, e da morte:
Esta que nos Verões
Espera quem tem sorte.

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Dona Henriqueta que cuida dos efémeros

Dona Henriqueta: faça o favor de chegar aqui.
Ao meu colo encontra um envelope, selado
E com um conteúdo escrito especialmente para si.
Quero que regue as flores que estão aqui ao lado.

Estou a morrer e, sabe Dona Henriqueta santa,
Nesta cama final só há dúvidas e arrependimentos.
Tenho pena de ser eu assim. Tenho frio: dê-me a manta.
Vivi, amei e chorei. Na falta de mais, tenho esses momentos.

Vi tudo o que o mundo me quis à vista mostrar.
Senti a brisa fina e a doirada manhã sem lhes tocar.
Sorri sempre para si ao dar-lhe estas cartas
Que, agora no fim, não vale nada atirar as setas.

Mas você, tenra Dona Henriqueta assistente,
Tanta vida viu partir que nem enxergou a sua a acusar.
Abra o olhar que ao seu redor nada a está a enganar.
Somente você, jovem Henriqueta, vive a vida intermitente.

Cuida de nós, efémeros, e vê-nos como gente.
Em si há bondade, consigo-o ver claramente -
Mas a bondade apenas redunda em coisa nenhuma.
Cuide de si, ajude os outros: seja feliz, em suma.

sábado, 2 de agosto de 2014

Calem-se os sonhos

Calem-se os sonhos
Que gritam "É HOJE!".
Guardem a força
E voem para longe.

Aqui ninguém vos ouve.
Aqui ninguém ouve ninguém;
Aliás: aqui nunca houve
Quem quisesse ver além.

Velhos conservadores
(Cheios de cegueira reveladora)
Nomeiam com horrores
Os sonhos proibidos.

Esses últimos, nos idos
De quem jura a mentira,
Abrem a vida de quem
A vida aos outros tira.

Gritem. Soem eroticamente
Aos ouvidos desses velhos.
Perversos como são,
No final, enfim, morrerão.

domingo, 27 de julho de 2014

Amor & Morte (não necessariamente por essa ordem)

Embora a sombra esfrie
Quando a inútil alma lhe tocar,
Não serão em vão todos
Os suplícios que Deus fez chegar.

Arderão erroneamente vis acções;
Mas quem ao longe viu cometer
Nefastas e perigosas afirmações
Não se cometeu à graça de as parar.

Agora o amor é falado
Enquanto a morte paralela assiste.
Vê-los-emos chegar pela calada.
A ambos nada resiste.

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Meeting

The soul began its eternal path.
As I walk into the empty room
That is my heart, I see the center
That's full of roses in it.

A lifeless man lies there
And his bloody corpse
Fill the the entire floor in red.

I couldn't stand one minute
Alone with the dark roses
fading to the dripping blood;
So I ran outside.

Standing in the narrow way
was another man, blocking me:
not letting me get away.

As I look upon his face,
I came to recon myself.
There I was, living in the death.
Trying hopelessly to fight
that one figure who for once
stood firmly.

Then there was
blood in my face.

sábado, 12 de julho de 2014

Poema tão aleatório quanto a sorte

Eu quero é passar bem
Contigo ou com quem
Me faça lembrar
O que me levou a amar.

Não preciso de nada.
O que tenho sou eu:
E sei que na estrada
Não verei gesto teu.

No final te ficará
O sorriso de quem
Encontrou alguém
A quem decerto amará.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Densidade bucólica

A beleza sábia do teu rosto
A olhar descalça a paisagem
Que penetra verdejante a janela.
O vestido curto que deixa
Ver a pele lisa das tuas
Longas pernas, com alças
Vincadas em teus ombros firmes.
O constante descanso que
Provocas sentada nesse
Banquinho posto naturalmente
Com a graça de poderes
Ver lá fora quem passa.
O sorriso amável com o qual
Contagias o velho que vai
Passando, lento, de bicicleta.

Sorrisos, dizem, há muitos.
Mas quando me tocas,
Ou eu sinto tu tocares-me,
Vem-me ao rosto um sorriso
Que não é meu.
É teu.

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Ah, pá! Um poema d'amor!

Olha, amor: se te importares com
A tua vida faz com que a dos outros
Valha tanto a pena como a nossa.

Verás a luz das estrelas apagar
O vazio da tua paisagem mental.
(Que é mais bela que a Natureza.)

Mudarás de sítio quando a cidade
Onde habitamos se transformar
Na cidade onde sempre habitámos.

E aquelas coisas más que tanto
Nos atormentam por sermos gente,
Verás, serão a base do nosso amor.