quarta-feira, 2 de julho de 2014

Densidade bucólica

A beleza sábia do teu rosto
A olhar descalça a paisagem
Que penetra verdejante a janela.
O vestido curto que deixa
Ver a pele lisa das tuas
Longas pernas, com alças
Vincadas em teus ombros firmes.
O constante descanso que
Provocas sentada nesse
Banquinho posto naturalmente
Com a graça de poderes
Ver lá fora quem passa.
O sorriso amável com o qual
Contagias o velho que vai
Passando, lento, de bicicleta.

Sorrisos, dizem, há muitos.
Mas quando me tocas,
Ou eu sinto tu tocares-me,
Vem-me ao rosto um sorriso
Que não é meu.
É teu.

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Ah, pá! Um poema d'amor!

Olha, amor: se te importares com
A tua vida faz com que a dos outros
Valha tanto a pena como a nossa.

Verás a luz das estrelas apagar
O vazio da tua paisagem mental.
(Que é mais bela que a Natureza.)

Mudarás de sítio quando a cidade
Onde habitamos se transformar
Na cidade onde sempre habitámos.

E aquelas coisas más que tanto
Nos atormentam por sermos gente,
Verás, serão a base do nosso amor.


quarta-feira, 25 de junho de 2014

Científico-humanístico

Suspiro intermitentemente
Com a ciência que existe
Nesta lamentável mente.
Que alma decadente e triste.

No interior do que sou
Defino-me como me vejo.
Ontem alguém me olhou
E viu tudo o que invejo.

Já não me sinto em mim.
Sou o que tiver de ser.
Nunca me acharei ruím

Enquanto estiver a viver.
Enfim: a maior humanidade
É estudar Ciência de verdade.

domingo, 8 de junho de 2014

Desumanidade

Não procures a humanidade das pessoas.
Estas voltas que se dão todos os dias
Para voltar a iniciar tudo outra vez?
Os ódios provocados pela falta de
Amor que por ser humano não se entende?

Chega de quereres ser humano.
Chega de te contentares com a vida.
Que pretendes de uma coisa que todos têm?
(Mas será que têm mesmo?...)

Desumaniza-te. Encobre os sentimentos
Com letras e palavras e frases.
Escreve para te sentires confuso.

É humano virem coisas ao pensamento,
Mas arremeda isso materializando-o.

(Se calhar a vida é chorar tinta...)

terça-feira, 3 de junho de 2014

Mata-te

Quando estás morto ninguém quer saber se estás morto.
Enquanto vives sentirás a vida a passar; os dias a ficar atrás
Da solidão perpetuada pelos que outrora estiveram contigo.
Vives e não tens vida; achas a morte e pedes para recomeçar.
Mas pensas que é por acabares que outrora começaste?
Nada é perpétuo na finita contagem do extenso Cosmos.
Não és nada: nem poeira nem matéria nem entulhada negação.

Afim de morreres há quem se enlute e sofra infinitamente.
Não fazes bem nenhum a ninguém. Vive e morrererás.

sábado, 31 de maio de 2014

31 de Maio

Admiro quem diz que a 31 de Maio se principia o 1 de Junho. Quem ousa dizer que a finalização de algo é o começo da sua consequência tem mais coragem que todos os navegadores quinhentistas portugueses - quais pensadores inverbalizados da mesma ideologia. Pela manhã será Junho. Junho por inteiro. Todos os bocadinhos que fazem o mês aparecerão finalmente pela manhã. Maio, pela nulidade de se haver transformado no conseguinte mês, cessará a sua actividade temporal esta noite. Qualquer ser óbvio, por existir, considerará isto na sua simples e inerte privilegiada posição de assistência passageira do tempo.
Mas nunca ninguém pensa que por começar Junho também começa Agosto. Ninguém repara que pela manhã será Maio novamente, indefinidamente.

Depressa e devagar também são advérbios de modo.

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Negação compulsiva da existência divina

Não há nada que nos faça existir excepto a nossa realidade corpórea e material que fisicamente ocupamos. Aquela energia - diferenças de potenciais em células do cérebro - a que chamamos pensamento, essa mesmo, nada mais é que organização grotesca e temporal de electrões que, para fortuna de uns e miséria de outros, não pode ser controlada. Apenas aparece vinda de causas genéticas, biológicas e naturais - quais combinações aleatórias. Todo esse esforço metafísico, estético e deontológico que causa movimento na nossa vida é em vão. Todos os trabalhos musculares e consequências de acções físicas serão um dia trabalhos musculares e suas causas. As partículas não têm um arranjo especial. Tudo vem das estrelas através de reacções nucleares. Antes disso a nossa compreensão cede.

Não há Deus nem Universo. Ninguém nos destina a nada e estamos todos destinados perante as condições iniciais que levaram a cabo a nossa vida. Nego portanto entidades divinas e todas as ideologias que existem no mundo. São todas morte e passatempos. O conforto da fé é uma ilusão temporária. A compreensão da ciência não leva a lado nenhum. A inovação tecnológica nunca inovará. A política é religião e sexo. A poesia não é arte e a arte é coisíssima nenhuma.

Van Gogh disse um dia que todas as pessoas do mundo são reduções de pinturas a que chamamos memórias. Mas Van Gogh nunca disse nada disso porque está morto e antes de morrer era maluco como todas as pessoas do mundo. Não existe História. Tudo o que se disser hoje será destruído amanhã e ontem ninguém cá estava para ver. Não há morte no mundo porque o mundo é morte perpétua. Se ninguém morresse ninguém vivia. Se aquele indiferente sofredor na esquina vasculhando o nauseante caixote do lixo não fosse aquele indiferente sofredor naquele momento, todas as pessoas do mundo seriam tão felizes quanto ele.

sábado, 17 de maio de 2014

Combinações

Não acredito em poetas.
Não são leais a um ideal.
Sim, sabem falar destas
Coisas assentes na actual
Solidão que escrevem.
Mas só sabem narrar...
Se sozinhos se envolvem
Com a arte de criar,
Então lhes tirem a pessoa,
Que nada lhes vem à toa.

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Estudo artístico da concepção humana

Em puras lágrimas, o imundo novo humano escorrega pela origem do descontrolo carnal, qual berço da eterna renovação. Chora descontroladamente a inebriada matéria embrionária, que aprende pelo conforto dos braços que o recebem em sorrisos dolorosos o que é ser, agora, humano. Ela está morta. Ele condenado está. Mas ambos vivem enquanto dura a ficção temporal da vida.
Se lhe querem dar significação, que sentido de função será mais real do que este?

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Soneto do que nós somos

As flores são elementos
que, pela Natureza ditadas
as cores e as olfactadas
substâncias, nas estradas
bifurcadas das Escolhas,
já hão sido separadas.
Há-as com pétalas trolhas
e aquelas definidas pelo
suporte terreno paralelo
a ficarem rasas ao Caminho.

Embora me seja o ninho
do Tempo apresentado
na condição do actual estado,
há em mim a multitude da Vida.