sábado, 31 de maio de 2014

31 de Maio

Admiro quem diz que a 31 de Maio se principia o 1 de Junho. Quem ousa dizer que a finalização de algo é o começo da sua consequência tem mais coragem que todos os navegadores quinhentistas portugueses - quais pensadores inverbalizados da mesma ideologia. Pela manhã será Junho. Junho por inteiro. Todos os bocadinhos que fazem o mês aparecerão finalmente pela manhã. Maio, pela nulidade de se haver transformado no conseguinte mês, cessará a sua actividade temporal esta noite. Qualquer ser óbvio, por existir, considerará isto na sua simples e inerte privilegiada posição de assistência passageira do tempo.
Mas nunca ninguém pensa que por começar Junho também começa Agosto. Ninguém repara que pela manhã será Maio novamente, indefinidamente.

Depressa e devagar também são advérbios de modo.

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Negação compulsiva da existência divina

Não há nada que nos faça existir excepto a nossa realidade corpórea e material que fisicamente ocupamos. Aquela energia - diferenças de potenciais em células do cérebro - a que chamamos pensamento, essa mesmo, nada mais é que organização grotesca e temporal de electrões que, para fortuna de uns e miséria de outros, não pode ser controlada. Apenas aparece vinda de causas genéticas, biológicas e naturais - quais combinações aleatórias. Todo esse esforço metafísico, estético e deontológico que causa movimento na nossa vida é em vão. Todos os trabalhos musculares e consequências de acções físicas serão um dia trabalhos musculares e suas causas. As partículas não têm um arranjo especial. Tudo vem das estrelas através de reacções nucleares. Antes disso a nossa compreensão cede.

Não há Deus nem Universo. Ninguém nos destina a nada e estamos todos destinados perante as condições iniciais que levaram a cabo a nossa vida. Nego portanto entidades divinas e todas as ideologias que existem no mundo. São todas morte e passatempos. O conforto da fé é uma ilusão temporária. A compreensão da ciência não leva a lado nenhum. A inovação tecnológica nunca inovará. A política é religião e sexo. A poesia não é arte e a arte é coisíssima nenhuma.

Van Gogh disse um dia que todas as pessoas do mundo são reduções de pinturas a que chamamos memórias. Mas Van Gogh nunca disse nada disso porque está morto e antes de morrer era maluco como todas as pessoas do mundo. Não existe História. Tudo o que se disser hoje será destruído amanhã e ontem ninguém cá estava para ver. Não há morte no mundo porque o mundo é morte perpétua. Se ninguém morresse ninguém vivia. Se aquele indiferente sofredor na esquina vasculhando o nauseante caixote do lixo não fosse aquele indiferente sofredor naquele momento, todas as pessoas do mundo seriam tão felizes quanto ele.

sábado, 17 de maio de 2014

Combinações

Não acredito em poetas.
Não são leais a um ideal.
Sim, sabem falar destas
Coisas assentes na actual
Solidão que escrevem.
Mas só sabem narrar...
Se sozinhos se envolvem
Com a arte de criar,
Então lhes tirem a pessoa,
Que nada lhes vem à toa.

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Estudo artístico da concepção humana

Em puras lágrimas, o imundo novo humano escorrega pela origem do descontrolo carnal, qual berço da eterna renovação. Chora descontroladamente a inebriada matéria embrionária, que aprende pelo conforto dos braços que o recebem em sorrisos dolorosos o que é ser, agora, humano. Ela está morta. Ele condenado está. Mas ambos vivem enquanto dura a ficção temporal da vida.
Se lhe querem dar significação, que sentido de função será mais real do que este?

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Soneto do que nós somos

As flores são elementos
que, pela Natureza ditadas
as cores e as olfactadas
substâncias, nas estradas
bifurcadas das Escolhas,
já hão sido separadas.
Há-as com pétalas trolhas
e aquelas definidas pelo
suporte terreno paralelo
a ficarem rasas ao Caminho.

Embora me seja o ninho
do Tempo apresentado
na condição do actual estado,
há em mim a multitude da Vida.

domingo, 27 de abril de 2014

Créditos

Realizador:
Homem

Produtor executivo:
Sonho

Produtor #1:
Sucesso

Produtor #2:
Auto-realização

Actor principal:
Antecipação

Actor secundário:
Acaso

Participação especial:
Sorte

Director de Casting:
Geração

Compositor artístico:
Natureza

Editor:
Presente

Argumentista:
Destino

Agradecimento especial:
Morte

domingo, 13 de abril de 2014

Os agudos da vida

Há que haver Motivo.
Caso contrário, dizem,
Não há motivo para
Haver vida viva,
Que a vida morta
Assemelha-se à
Morte-ela-própria.

Por isso, quer haja
Motivo para motivar
A vida a ser vivida
Ou quer haja vida
Para, na consequência,
não ser motivada a morte,
Haverá sempre vida
Enquanto não houver
Para sempre morte.

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Carta à minha melancolia

Melancolia:

Pensei bastante antes de te escrever esta carta, que perde o estatuto só por ser remetida a algo que não existe. Quer dizer: existes, mas a tua existência é apenas condicional e a tua condição não te permite ler palavras, ora o teu desejo compulsivo de devorar pensamentos.

O que te quero dizer é que estou doente contigo e que, embora não repares em muita coisa a ti adjacente, me estás a consumir tão ferozmente quanto um lobo faminto devora a sua presa outrora fugitiva. A tua negra podridão destrói-me a vida porque ao me fazeres deambular entre pensamentos depressivos e melodramáticos - estes cuja origem permanece ao longo do tempo um mistério indecifrável para mim, que tenho uma vida agradável segundo os que a especulam - generalizas os detalhes, as pequenas coisas: torna-las carrascos do quotidiano que não me deixam ver que a simplicidade também tem lugar no mundo.

Frequentemente me deparas com a virtual corrida ante a janela aberta do oitavo andar de um prédio qualquer com a finalidade de concretizar um mergulho de cabeça em direcção ao pavimento de betão. Mas eu tento, por via da vã racionalização, explicar-te que tal acção soltaria lágrimas demasiado pesadas para o mundo aguentar. Que a pintura no chão resultante não seria obra de arte nenhuma: apenas o escarlate que o acaso se encarregaria de distribuir pelo espaço bidimensional que aparou a minha queda. Que mais tarde viria um homem limpar tudo para mal da sua sorte e que a culpa disso era toda minha! Há demasiada sujidade num inocente salto: há demasiada complicação no simples instantâneo.

Mas não penses que a minha doença resulta da tua doutrina derrotista. Não penses que todos estes teus entraves servem como modi operandi do meu organismo vital: das consequências físicas daquilo que me toca no pensamento. Viver contigo na consistência do tempo, nas decisões diárias e concretas da vida, tornou-me somente aquele que olha para o seu interior com desconfiança; sabendo que ele próprio construiu um inimigo fatal. Por isso, Melancolia, me referi nesta carta a ti e ao outro que a consciência construíste - mas que não sou eu.

Mens agitat molem.

quarta-feira, 26 de março de 2014

O que tem Dublin que a gente não tem

Em Dublin ninguém sente a poesia
Porque em Dublin não há poetas.

Em Dublin há pubs em demasia
Tentando apagar as metas
Do mundo marcado em Inglês.

Nunca fui a Dublin, mas já fui lá.
Vi a cidade lendo - não mais de três -
Contos inacabados do que lá há.

A Gente de Dublin, de Joyce,
Critica não chegando a criticar.
Lendo pouco, porém, mói-se
Quem as palavras não estranhar.

terça-feira, 18 de março de 2014