quinta-feira, 1 de maio de 2014

Soneto do que nós somos

As flores são elementos
que, pela Natureza ditadas
as cores e as olfactadas
substâncias, nas estradas
bifurcadas das Escolhas,
já hão sido separadas.
Há-as com pétalas trolhas
e aquelas definidas pelo
suporte terreno paralelo
a ficarem rasas ao Caminho.

Embora me seja o ninho
do Tempo apresentado
na condição do actual estado,
há em mim a multitude da Vida.

domingo, 27 de abril de 2014

Créditos

Realizador:
Homem

Produtor executivo:
Sonho

Produtor #1:
Sucesso

Produtor #2:
Auto-realização

Actor principal:
Antecipação

Actor secundário:
Acaso

Participação especial:
Sorte

Director de Casting:
Geração

Compositor artístico:
Natureza

Editor:
Presente

Argumentista:
Destino

Agradecimento especial:
Morte

domingo, 13 de abril de 2014

Os agudos da vida

Há que haver Motivo.
Caso contrário, dizem,
Não há motivo para
Haver vida viva,
Que a vida morta
Assemelha-se à
Morte-ela-própria.

Por isso, quer haja
Motivo para motivar
A vida a ser vivida
Ou quer haja vida
Para, na consequência,
não ser motivada a morte,
Haverá sempre vida
Enquanto não houver
Para sempre morte.

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Carta à minha melancolia

Melancolia:

Pensei bastante antes de te escrever esta carta, que perde o estatuto só por ser remetida a algo que não existe. Quer dizer: existes, mas a tua existência é apenas condicional e a tua condição não te permite ler palavras, ora o teu desejo compulsivo de devorar pensamentos.

O que te quero dizer é que estou doente contigo e que, embora não repares em muita coisa a ti adjacente, me estás a consumir tão ferozmente quanto um lobo faminto devora a sua presa outrora fugitiva. A tua negra podridão destrói-me a vida porque ao me fazeres deambular entre pensamentos depressivos e melodramáticos - estes cuja origem permanece ao longo do tempo um mistério indecifrável para mim, que tenho uma vida agradável segundo os que a especulam - generalizas os detalhes, as pequenas coisas: torna-las carrascos do quotidiano que não me deixam ver que a simplicidade também tem lugar no mundo.

Frequentemente me deparas com a virtual corrida ante a janela aberta do oitavo andar de um prédio qualquer com a finalidade de concretizar um mergulho de cabeça em direcção ao pavimento de betão. Mas eu tento, por via da vã racionalização, explicar-te que tal acção soltaria lágrimas demasiado pesadas para o mundo aguentar. Que a pintura no chão resultante não seria obra de arte nenhuma: apenas o escarlate que o acaso se encarregaria de distribuir pelo espaço bidimensional que aparou a minha queda. Que mais tarde viria um homem limpar tudo para mal da sua sorte e que a culpa disso era toda minha! Há demasiada sujidade num inocente salto: há demasiada complicação no simples instantâneo.

Mas não penses que a minha doença resulta da tua doutrina derrotista. Não penses que todos estes teus entraves servem como modi operandi do meu organismo vital: das consequências físicas daquilo que me toca no pensamento. Viver contigo na consistência do tempo, nas decisões diárias e concretas da vida, tornou-me somente aquele que olha para o seu interior com desconfiança; sabendo que ele próprio construiu um inimigo fatal. Por isso, Melancolia, me referi nesta carta a ti e ao outro que a consciência construíste - mas que não sou eu.

Mens agitat molem.

quarta-feira, 26 de março de 2014

O que tem Dublin que a gente não tem

Em Dublin ninguém sente a poesia
Porque em Dublin não há poetas.

Em Dublin há pubs em demasia
Tentando apagar as metas
Do mundo marcado em Inglês.

Nunca fui a Dublin, mas já fui lá.
Vi a cidade lendo - não mais de três -
Contos inacabados do que lá há.

A Gente de Dublin, de Joyce,
Critica não chegando a criticar.
Lendo pouco, porém, mói-se
Quem as palavras não estranhar.

terça-feira, 18 de março de 2014

sábado, 8 de março de 2014

Por seres mulher

Em ti, que tudo sustentas,
Há um sorriso em qualquer
Situação: tu que me tentas,
Assim, só por seres mulher.

Em ti existem mil homens
Em sentimentos: e tu mentes.
À mentira dás as ordens
Que por seres mulher sentes.

Em ti, Força que tudo aguenta,
Há a Vida de todos em gestação:
Mas não a de quem não entender
O tudo que as mulheres são.

sexta-feira, 7 de março de 2014

Contra o tempo

O que faço e o que falho,
Para a tristeza de alguns,
É tudo o que faço e falho.

O que hei-de fazer,
E isto custa a dizer:
Há já sido sempre feito.

A origem das coisas,
Físicas e metafísicas,
Pelo poder da explicação,
Ou nalguns casos - falta dela,
É compreendida na acção
Entre Deus e o Homem de cela.

Por menos preso que esteja
O Homem quer-se libertar:
Conhecendo o que festeja
Na Física e Filosofia a amar.

E é por isso, tanta vez,
Que falho e falharei:
Ora passar-se-à um mês
E eu nada almejarei.

sábado, 1 de março de 2014

Olhar de um velho

Quanta paixão perdida
Há no olhar de um velho.

Na escura sala escondida
Repousa o revólver vermelho;
Outrora puro e sem lágrimas.

Esta arma secreta à casa
Não devolve às suas vitimas
O que nunca ousou retirar:
A vida que precisa de amar
A morte que nunca se cansa.

Que ritmo tem esta mudança...

Na guerra onde o velho andou
Houve tiros destroçando vidas,
Sonhos e esposas perdidas:
Ódio até que a Morte se cansou.
Mas na guerra onde o jovem
Com olhar cansado permanece
Tem cores onde sonhos dormem:
O amor da vida não desaparece.

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Duas quadras

Tu que nada mudas no que te rodeia.
Tu que me matas dando-me vida.
Tu que nunca te encontras perdida:
Tu que tornas cidade esta aldeia.

Eu que te vi no chão sentada
Fixando o meu olhar por ti lento.
Eu que nada vi senão a calçada
Que te elevava naquele momento.