sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Soneto das loiras e morenas

Vi uma moça andando
Na rua, sempre tentando
Olhar o gélido frenesim
Da avenida sem fim.

Outra que sentava pelo
Banco do jardim central
Mostrava no regaço belo
Uma compostura desigual.

A que vai, de doirados
E soltos cabelos, vê o
Mundo incerto por ela indo.

A que senta na natureza,
De escuro e profundo capilar,
Observa o mundo por ela passar.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

O dia que sucede o dia de Natal

O sol está a nascer.
Flutuo em câmera-lenta
Através do crepúsculo,
Que propondo ter
A vontade proto-sonolenta,
Faz lembrar o dia em cúmulo.

A brisa peca em se tornar vento.
Enquanto há vida, peca a semente
Por não germinar necessidade.
Não há melhor rega que a tarde.

Ainda ontem Jesus Cristo nasceu,
E eu - tão montado na aparente
Falta de cuidado consumista,
Falo da Natural causa do Tempo.

O Senhor, quando o quiseram matar,
Ainda era jovem e tinha tudo a dar.
Faltava a vida, que passando a deu.

sábado, 21 de dezembro de 2013

Menino da Lágrima

Tenho um quadro no meu quarto.
Um menino chorando: dizem ser cigano.
De vez em quando olho perplexo,
Então pensando: menino, porque estás chorando?

Ele, a tela, nada me diz; que é um quadro.
Então resolvo: se, como dizem, és cigano,
Mas estás pintado, porque te desenharam chorando?
E cada vez me interrogo mais.

Continuo em pé, fitando a obra do menino chorando.
É quando me vem ao pensamento que ao menino,
Sereno e composto, há de ter sucedido algum tormento.
É que o cigano chora desde que me lembro!

Levo a mão ao queixo, eu filósofo aprendendo:
(Então infiro que deitei tudo a perder).
O tom castanho confere o Outono artístico
E a leve pincelada nos olhos esbugalhados
Dão a certeza que o hábil pintor não sabia

Ao certo porque estava o menino chorando.
Quem tem certezas tem mão firme a pintar.
Talvez o artista, vendo seus sonhos caírem
como folhas fracas, resolvesse chorar na

Tela através do desespero do cigano,
Aparentemente calmo e contraditório.
Vim a saber afinal que o menino chorando
Rendeu bem pelos sonhos do pintor.

Acessório

São quase três horas.

Todo o consequente raciocínio
Que existe nas coisas reais,
Cansado de se chamar assim,
Inventou a fantasia e passou
A chamar-se imaginação:

Como o Chapéu de Infante,
Anos em conquistas Africanas,
Voltou a Portugal séculos depois
Na forma do Chapéu de Pessoa,
Este agora ficção da Grande Portuguesa.

Ou até a Pala Camoniana,
Esta outrora perdida na Batalha
Cansou de tapar-olhos e
Voltou séculos depois
Para destapar mentes.

Já não há realidade
Que queria ser parte da fantasia:
A definição de tudo está
No detalhe empregue em nada.
Ninguém quer o que ninguém quer.

Como já passa das três da manhã...

sábado, 14 de dezembro de 2013

Um banano para o Portas e um copo de água para os Gato

Os Gato Fedorento regressaram ontem à noite ao horário nobre da SIC depois de anos a aparecerem como reduto da publicidade da PT/MEO. Este contrato pode bem ter assegurado o futuro de umas três gerações de Quintelas, Pereiras, Góis e Dores (talvez os Pereira tenham sido os mais favorecidos pela publicidade milionária), mas o que é certo é que cada vez se notava mais um certo cansaço do público por os ver neste formato.

A verdade é que quando o programa "A Solução" começou e vi o plano a aproximar-se do conhecido quarteto, a minha alma saltou um aplauso efusivo. A última vez que os tinha visto juntos a fazerem comédia independente foi no Esmiúça os Sufrágios - e se na altura, na minha tenra idade, eu não atingia ainda o patamar ideológico dos assuntos que abordavam, mal podia esperar por este divertido comeback, cujo conteúdo - a crise e a sua solução - já faz parte do meu universo intelectual.

Talvez o momento mais divertido, que em parte se deve ao
tom empregue pelo Ricardo.

O ressurgimento destes cómicos sujeitos durou apenas 10 minutos, o que me soube a pouco. Não entendi muito bem o modelo que apresentaram; não sei se pretendem começar a aparecer periodicamente nos ecrãs portugueses, na medida que "A Solução" serviu de introdução ao seu novo estilo, ou se foi apenas uma única vez para matar saudades. O conteúdo, porém, foi mediano e confesso que não me surgiram muitos sorrisos no rosto ao longo da metragem: talvez por não estar muito familiarizado com o legado de Steven Seagal, ou mesmo devido à aparente falta de sub-contexto nas piadas apresentadas.

Pareceu-me um humor longe dos bons tempos inteligentes e subentendidos da RTP e da SIC Radical, em que o formato de sketches proporcionava um tom hilariante a temas reais e fictícios. Agora, utilizaram um actor acabado cujo sucesso longínquo se prendia ao velho paradigma do herói solitário que enche de porrada os seus vis opositores - metáfora utilizada pelos Gato como forma de solucionar a crise, sendo o nosso demoníaco Governo o vilão desta rábula modestamente divertida.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Sinfonia

Na rádio das duas da manhã,
Tocando música e eu pensando,
Deitado na dormência que tarda,
Começa breve a imponente sinfonia.
Ao meu penado pensamento,
Tão calmo, tão sereno, tão lento,
Muda o ritmo de tempo a tempo.
Cada compasso que vem
Prolonga o que o antecedeu,
E cada nota pausada continua
Do tom perpétuo separada.
Cada lírica por mim criada
É devastada pela nona sinfonia
Deste alemão outrora prussiano.
Não me engane, Ludwig van.

domingo, 1 de dezembro de 2013

Serei

Sei bem o que sou, o que quero,
O que tenho e o que espero.
Nada mais que a vontade tua
De tirar a roupa toda, sendo nua

Na malha do inverno português.
A tua sensualidade, nessa nudez
Presente, e eu carente de esperar,
Faz de mim bom rapaz a chegar

À prisão do velho, à qual pertence
Qualquer desejo e outra essencial
Medida do que só há em Portugal.

Serei a raiz do bem portucalense,
Da nudez audaz da rapariga serena,
De qualquer confusão torta e amena.

domingo, 17 de novembro de 2013

Decadência

Tenho medo.
Sou fraco.
Inútil.

Sou
Intemporalmente
Desamparado.
Continuamente
Desajustado.

Não tenho fé em mim
E qualquer dia morro.
Parece que morrer faz falta
Para que acabem os contínuos,
Os perpétuos e os intemporais.
Mas morrer é um bem que não calha a todos...

Fui de mim o que não queria ser,
Fingindo não querer ser alguém.
Mas nada é isto, nada é o tempo.

Seremos somente o significado
De haver tantos medos inúteis.

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Nunca precisei de ninguém para ser quem sou.
Tudo o que fiz em nada prejudicou os outros.
Ainda assim olho para mim como a causa natural
Dos desastres sociais ou das discordâncias globais.

Eu, que tão pequenino sou e que nada significo,
Posso mudar o mundo ou o mundo dentro das pessoas.
Com a minha insignificância suprema,
Entretanto aumentada, só erro de consciência limpa.

Mas que importância tem o Universo e tudo?
As crenças das pessoas são mentiras verdadeiras.
Tudo o que há e não se vê é inventado pela Verdade.
Essa, que é falsa, não existe mas é real.

Tudo o que é idealizado é real.
Toda a mentira existe.
Só a verdade é ficção.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Poema colectivo

Se eu pudesse, ai se eu pudesse!
Ver em ti qualquer lógica, em tudo igual!
Em analisar o caos receber amor eterno,
em provocar a desordem receber respostas analíticas.

Percebo qualquer coisa de ti em nós,
mas que é isto que não tem dor nem voz?
O cão vadio da rua da minha namorada
tem mais amor à vida do que ela a mim.
O que me importa de verdade é possuir
maldade em ver com olhar mentiroso o sentimento perdido,
as caixas de amor negro engolidas,
as espirais contínuas de querer parar entre as pausas.

Mas ai, ai de mim, ai por Deus e tudo o que nada é!
Se encontro alguém parecido com a minha namorada,
alguém que segure a Terra na órbita dela e ela que diga
em vão ser tarde para amar quem nunca amou!

Mundo, Universo, Lua Cheia de rímel e abcissas,
existem na possibilidade de quererem ser.
Perdem a vontade ao entenderem que nada disso
é real, a projecção do homem, a minha namorada,
e quem nunca acabou por acabar o caos e a Verdade.