quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

O dia que sucede o dia de Natal

O sol está a nascer.
Flutuo em câmera-lenta
Através do crepúsculo,
Que propondo ter
A vontade proto-sonolenta,
Faz lembrar o dia em cúmulo.

A brisa peca em se tornar vento.
Enquanto há vida, peca a semente
Por não germinar necessidade.
Não há melhor rega que a tarde.

Ainda ontem Jesus Cristo nasceu,
E eu - tão montado na aparente
Falta de cuidado consumista,
Falo da Natural causa do Tempo.

O Senhor, quando o quiseram matar,
Ainda era jovem e tinha tudo a dar.
Faltava a vida, que passando a deu.

sábado, 21 de dezembro de 2013

Menino da Lágrima

Tenho um quadro no meu quarto.
Um menino chorando: dizem ser cigano.
De vez em quando olho perplexo,
Então pensando: menino, porque estás chorando?

Ele, a tela, nada me diz; que é um quadro.
Então resolvo: se, como dizem, és cigano,
Mas estás pintado, porque te desenharam chorando?
E cada vez me interrogo mais.

Continuo em pé, fitando a obra do menino chorando.
É quando me vem ao pensamento que ao menino,
Sereno e composto, há de ter sucedido algum tormento.
É que o cigano chora desde que me lembro!

Levo a mão ao queixo, eu filósofo aprendendo:
(Então infiro que deitei tudo a perder).
O tom castanho confere o Outono artístico
E a leve pincelada nos olhos esbugalhados
Dão a certeza que o hábil pintor não sabia

Ao certo porque estava o menino chorando.
Quem tem certezas tem mão firme a pintar.
Talvez o artista, vendo seus sonhos caírem
como folhas fracas, resolvesse chorar na

Tela através do desespero do cigano,
Aparentemente calmo e contraditório.
Vim a saber afinal que o menino chorando
Rendeu bem pelos sonhos do pintor.

Acessório

São quase três horas.

Todo o consequente raciocínio
Que existe nas coisas reais,
Cansado de se chamar assim,
Inventou a fantasia e passou
A chamar-se imaginação:

Como o Chapéu de Infante,
Anos em conquistas Africanas,
Voltou a Portugal séculos depois
Na forma do Chapéu de Pessoa,
Este agora ficção da Grande Portuguesa.

Ou até a Pala Camoniana,
Esta outrora perdida na Batalha
Cansou de tapar-olhos e
Voltou séculos depois
Para destapar mentes.

Já não há realidade
Que queria ser parte da fantasia:
A definição de tudo está
No detalhe empregue em nada.
Ninguém quer o que ninguém quer.

Como já passa das três da manhã...

sábado, 14 de dezembro de 2013

Um banano para o Portas e um copo de água para os Gato

Os Gato Fedorento regressaram ontem à noite ao horário nobre da SIC depois de anos a aparecerem como reduto da publicidade da PT/MEO. Este contrato pode bem ter assegurado o futuro de umas três gerações de Quintelas, Pereiras, Góis e Dores (talvez os Pereira tenham sido os mais favorecidos pela publicidade milionária), mas o que é certo é que cada vez se notava mais um certo cansaço do público por os ver neste formato.

A verdade é que quando o programa "A Solução" começou e vi o plano a aproximar-se do conhecido quarteto, a minha alma saltou um aplauso efusivo. A última vez que os tinha visto juntos a fazerem comédia independente foi no Esmiúça os Sufrágios - e se na altura, na minha tenra idade, eu não atingia ainda o patamar ideológico dos assuntos que abordavam, mal podia esperar por este divertido comeback, cujo conteúdo - a crise e a sua solução - já faz parte do meu universo intelectual.

Talvez o momento mais divertido, que em parte se deve ao
tom empregue pelo Ricardo.

O ressurgimento destes cómicos sujeitos durou apenas 10 minutos, o que me soube a pouco. Não entendi muito bem o modelo que apresentaram; não sei se pretendem começar a aparecer periodicamente nos ecrãs portugueses, na medida que "A Solução" serviu de introdução ao seu novo estilo, ou se foi apenas uma única vez para matar saudades. O conteúdo, porém, foi mediano e confesso que não me surgiram muitos sorrisos no rosto ao longo da metragem: talvez por não estar muito familiarizado com o legado de Steven Seagal, ou mesmo devido à aparente falta de sub-contexto nas piadas apresentadas.

Pareceu-me um humor longe dos bons tempos inteligentes e subentendidos da RTP e da SIC Radical, em que o formato de sketches proporcionava um tom hilariante a temas reais e fictícios. Agora, utilizaram um actor acabado cujo sucesso longínquo se prendia ao velho paradigma do herói solitário que enche de porrada os seus vis opositores - metáfora utilizada pelos Gato como forma de solucionar a crise, sendo o nosso demoníaco Governo o vilão desta rábula modestamente divertida.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Sinfonia

Na rádio das duas da manhã,
Tocando música e eu pensando,
Deitado na dormência que tarda,
Começa breve a imponente sinfonia.
Ao meu penado pensamento,
Tão calmo, tão sereno, tão lento,
Muda o ritmo de tempo a tempo.
Cada compasso que vem
Prolonga o que o antecedeu,
E cada nota pausada continua
Do tom perpétuo separada.
Cada lírica por mim criada
É devastada pela nona sinfonia
Deste alemão outrora prussiano.
Não me engane, Ludwig van.

domingo, 1 de dezembro de 2013

Serei

Sei bem o que sou, o que quero,
O que tenho e o que espero.
Nada mais que a vontade tua
De tirar a roupa toda, sendo nua

Na malha do inverno português.
A tua sensualidade, nessa nudez
Presente, e eu carente de esperar,
Faz de mim bom rapaz a chegar

À prisão do velho, à qual pertence
Qualquer desejo e outra essencial
Medida do que só há em Portugal.

Serei a raiz do bem portucalense,
Da nudez audaz da rapariga serena,
De qualquer confusão torta e amena.

domingo, 17 de novembro de 2013

Decadência

Tenho medo.
Sou fraco.
Inútil.

Sou
Intemporalmente
Desamparado.
Continuamente
Desajustado.

Não tenho fé em mim
E qualquer dia morro.
Parece que morrer faz falta
Para que acabem os contínuos,
Os perpétuos e os intemporais.
Mas morrer é um bem que não calha a todos...

Fui de mim o que não queria ser,
Fingindo não querer ser alguém.
Mas nada é isto, nada é o tempo.

Seremos somente o significado
De haver tantos medos inúteis.

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Nunca precisei de ninguém para ser quem sou.
Tudo o que fiz em nada prejudicou os outros.
Ainda assim olho para mim como a causa natural
Dos desastres sociais ou das discordâncias globais.

Eu, que tão pequenino sou e que nada significo,
Posso mudar o mundo ou o mundo dentro das pessoas.
Com a minha insignificância suprema,
Entretanto aumentada, só erro de consciência limpa.

Mas que importância tem o Universo e tudo?
As crenças das pessoas são mentiras verdadeiras.
Tudo o que há e não se vê é inventado pela Verdade.
Essa, que é falsa, não existe mas é real.

Tudo o que é idealizado é real.
Toda a mentira existe.
Só a verdade é ficção.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Poema colectivo

Se eu pudesse, ai se eu pudesse!
Ver em ti qualquer lógica, em tudo igual!
Em analisar o caos receber amor eterno,
em provocar a desordem receber respostas analíticas.

Percebo qualquer coisa de ti em nós,
mas que é isto que não tem dor nem voz?
O cão vadio da rua da minha namorada
tem mais amor à vida do que ela a mim.
O que me importa de verdade é possuir
maldade em ver com olhar mentiroso o sentimento perdido,
as caixas de amor negro engolidas,
as espirais contínuas de querer parar entre as pausas.

Mas ai, ai de mim, ai por Deus e tudo o que nada é!
Se encontro alguém parecido com a minha namorada,
alguém que segure a Terra na órbita dela e ela que diga
em vão ser tarde para amar quem nunca amou!

Mundo, Universo, Lua Cheia de rímel e abcissas,
existem na possibilidade de quererem ser.
Perdem a vontade ao entenderem que nada disso
é real, a projecção do homem, a minha namorada,
e quem nunca acabou por acabar o caos e a Verdade.

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Feels

Be good my little son.
Our hope. Our fortune.
Leave, but don't.
Listen carefully and learn
how life twists and turns.

But close your eyes.
Be brave and fearless
and make yourself a fool.
Like this, son, you'll never lose.

Hung on the rope tight.
To love is to die, you'll see.
Leave, listen and learn.
You'll be a man.

Be sound, little child.