domingo, 22 de setembro de 2013

Saber

Ao olhar pela janela do quarto
enquanto todo aquele luar
me observa no infinito
céu luzidamente ponteado,
conservo o sentimento
de que nada do que vejo
é, foi, ou será, real.

Que a lógica do meu olhar
se revê na profissão do
meu incapaz raciocínio.
Olho impotentemente.
Sei que tudo o que vejo
se estende no infinito,
esse que tão quantificado é.

O que é, na verdade, isto tudo?
A Lua é aqui ao pé.
As estrelas não são sonhos.
A noite está viva porque o dia
veremos surgir por entre ela.
Humilhante é não saber nada.
Basta viver e ficamos logo a saber.

Eu, que sei saber algo,
mas que na escala 
do conhecimento o que sei
não passa de menos que tudo,
fico interessado em querer
aprender o que ninguém
me poderá um dia ensinar.

Mas o céu parece tanta coisa.
Todo o Universo estendido
parece mais infinito que o infinito.
E ainda assim acaba eventualmente,
ainda assim ninguém o sabe.
As luzes não são de hoje,
a poeira morta estelar está fria.

Cá na Terra imitamos as estrelas,
e a luz dos candeeiros de rua que
a janela do meu quarto deixa entrar,
por estar entreaberta na frescura
da brisa luminosa, pode já ter sido
luz de uma estrela que se apagou,
pode ser a luz que já me iluminou.

Tudo se apaga. Até o que não tem luz.
Fico a saber pelas notícias
da morte de um ilustre filósofo
que era professor e doutor.
Ele sabia que se ia apagar,
como as estrelas e o céu diurno.
Sabia tudo isso e sabia não saber.

A realidade de saber
tudo o que é real é tão
impossível como projectar
algo curvo na imaginação.
O infinito não existe.
Os números não acabam
porque nem chegam a começar.

Para tudo o que se olha
ficamos a aprender algo.
E enquanto não aprendermos
que o olhar acaba no desejo
de conseguir ver alguma coisa,
nada mais saberemos senão
as filosofias de não saber nada.

sábado, 21 de setembro de 2013

Nunca nos nossos sonhos

Nunca nos nossos sonhos
se vê a vida em pleno vivida.
Aquela que se espera
é a maior e mais bonita;

Aquela que temos
é o sonho que não queremos.
Na dormência e na essência,
a vida serve para ser vivida.

Caso o cadáver seja frio
e a água esquente logo
na noite nua e infinita,

acaba-se a vida erudita
do nosso sonho,
da nossa deliciosa razão.

domingo, 15 de setembro de 2013

Resumo essencial das nossas vidas

Haja poesia! Haja dor e sofrimento,
sinestesia da cor e do pensamento,
translucidez da folha manuscrita
e aquele leitor atento à agonia bonita!

Qualquer homem é homem de ser,
qualquer coração é bandido do corpo,
sente e não quer sentir, amarra o querer
do intelecto e forja o saber lorpo.

Decadência moral, quarto sujo pintado,
enumerado sem sequência e habitado
entre quatro mulheres que escutam.
Decência imoral, trapézio triangular.

Mas o fundo não se vê e a claridade
vem sempre do céu acima de nós.
Desistir é cavar a sepultura dos desejos.
Persistir é abrir as nuvens que no céu brilham.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

El Soneto

Com voz ténue
e olhar fincado,
ouve-se a passar
El Juan amado.

A chica te quer,
bonito e robusto!
Tens quase tudo,
Juan apaixonado!

Ao passar, que
passe sem falar.
Sem sequer olhar...

Ah, Juan! Tanta
é a vida que
já foi tua voz!

domingo, 1 de setembro de 2013

Bom dia

Difícil é sair de casa de manhã
e todos sorrirem para mim.
Em casa sozinho escrevo
e sou uma pessoa totalmente minha.
Fora sou estranho e fazem
sorrisos como se 'bom-dia'
fosse algo perpétuo e constante.

Os 'bons-dias' são para se acabarem.
Qualquer coisa má irá fazer
qualquer dia bom, mau ficar.

Os sorrisinhos por conveniência,
por si só, já são a causa do meu mau-dia.
Tudo é sombrio, nada claro,
nada vejo sem olhar,
pessoas a passar que não conheço,
pessoas que não conheço a imaginar.
Fora tudo o que se passa no meu dia.

Volto para casa ao fim da tarde.
Agora é de noite mas ainda vejo
qualquer coisa no jardim verde da cidade.

Crepúsculo incessante da minha tarde,
porque teimas em acabar o dia que foi mau?
Como se me sorrisses, terminando o pior,
dando esperança para que o mau dia sucessor
seja, afinal de contas, um bom dia,
sem sorrisos, sem pessoas desconhecidas passando.
Tudo o que é mau acaba. Tudo o que é bom é esperança.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Tempo

A fúria incessante do relógio,
máquina histérica e indefinida,
agride fisicamente minha alma,
motivo de existência corpórea.

Aqueles ponteiros de seta
sanguinária, arremessos de
um guerreiro invencível,
esmagam o coração perdido

dos que perdem a corrida
fatalmente definida
pela condição de sofrer.

Pára, tempo, é hora.
Deixa a angústia desaparecer.
Vai-te por fim embora.

domingo, 18 de agosto de 2013

Soneto já antigo - Álvaro de Campos


Olha, Daisy: quando eu morrer tu hás-de
Dizer aos meus amigos aí de Londres,
Embora não o sintas, que tu escondes
A grande dor da minha morte. Irás de

Londres p’ra York, onde nasceste (dizes…
Que eu nada que tu digas acredito),
Contar àquele pobre rapazito
Que me deu tantas horas tão felizes,

Embora não o saibas, que morri…
Mesmo ele, a quem eu tanto julguei amar,
Nada se importará… Depois vai dar

A notícia a essa estranha Cecily
Que acreditava que eu seria grande…
Raios partam a vida e quem lá ande!


Ouvir declamação de Luís Gaspar

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Quem és tu que em mim apoias o olhar?
Juntas no colo sentado flores que lembram rosas,
mas não são rosas as flores que juntas no colo sentado.
Distas de mim quatro passos largos,
dados no soalho limpo de madeira importada.
A cadeira baloiça fugazmente, ficando parada
onde mais certa é a luz que lhe incide.
Tal luz, focada na figura que em mim apoia o olhar,
faz sombra a restante sala e apaga tudo o que não vejo.
Tal vermelhão em teu regaço lembra-me que olho a rosas,
tão únicas que se fossem outras flores não seriam rosas.
Tal momento faz a vida ficar eminente ao olhar perdido
em que me olhas, em que te olho, onde estás, afastada
de mim, baloiçando, na luz que te faz tudo no nada da sala.

sábado, 3 de agosto de 2013

Gato - Pablo Neruda

Que bonito é um gato que dorme,
dormir com as pernas e peso,
dorme com suas unhas cruéis
e seu sangue sanguinário,
dorme com todos os anéis
que como círculos queimados
constroem uma geologia
de uma cola cor de areia.
Queria dormir como um gato
com todos os pêlos do tempo,
com uma lígua de siléx,
com o sexo seco de fogo
e depois não falar com ninguém,
deitar-me sobre todo o mundo
sobre as telhas e terra
intensamente concentrado
em caçar as ratas no sono.
Eu vi como ondula o gato dormindo: correndo na
noite, no escuro, como água,
E às vezes eles cairiam,
talvez se enrolasse
nu em montes de neve,
cresce talvez dormindo
como um tigre bisavô
e salta para a escuridão
telhados, nuvens e vulcões.
Dorme, dorme gato noturno
com cerimónias de bispo,
o teu bigode de pedra:
ordena todos os nossos sonhos,
dirige a escuridão
das nossa proezas sonhadas
com o teu coração sanguinário
e largo pescoço e longa cauda.
Pablo Neruda

terça-feira, 30 de julho de 2013

Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra - Álvaro de Campos


Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra, 

Ao luar o ao sonho, na estrada deserta, 

Sozinho guio, guio quase devagar, e um pouco 

Me parece, ou me forço um pouco para que me pareça, 

Que sigo por outra estrada, por outro sonho, por outro mundo, 

Que sigo sem haver Lisboa deixada ou Sintra a que ir ter, 

Que sigo, e que mais haverá em seguir senão não parar mas
seguir?
Vou passar a noite a Sintra por não poder passá-la em Lisboa,

Mas, quando chegar a Sintra, terei pena de não ter ficado em Lisboa. 

Sempre esta inquietação sem propósito, sem nexo, sem 
consequência,

Sempre, sempre, sempre,

Esta angústia excessiva do espírito por coisa nenhuma, 

Na estrada de Sintra, ou na estrada do sonho, ou na estrada da vida …
Maleável aos meus movimentos subconscientes do volante,

Galga sob mim comigo o automóvel que me emprestaram. 

Sorrio do símbolo, ao pensar nele, e ao virar à direita. 

Em quantas coisas que me emprestaram eu sigo no mundo! 

Quantas coisas que me emprestaram guio como minhas! 

Quanto que me emprestaram, ai de mim!, eu próprio sou!
À esquerda o casebre – sim, o casebre – à beira da estrada.
À direita o campo aberto, com a lua ao longe. 

O automóvel, que parecia há pouco dar-me liberdade, 

É agora uma coisa onde estou fechado, 

Que só posso conduzir se nele estiver fechado, 

Que só domino se me incluir nele, se ele me incluir a mim.
À esquerda lá para trás o casebre modesto, mais que modesto.

A vida ali deve ser feliz, só porque não é a minha. 

Se alguém me viu da janela do casebre, sonhará:
Aquele é que é feliz. 

Talvez à criança espreitando pelos vidros da janela do andar que está em cima.
Fiquei (com o automóvel emprestado) como um sonho, uma fada real. 

Talvez à rapariga que olhou, ouvindo o motor, pela janela da 
cozinha

No pavimento térreo, 

Sou qualquer coisa do príncipe de todo o coração de rapariga,

E ela me olhará de esguelha, pelos vidros, até à curva em que 
me perdi.

Deixarei sonhos atrás de mim, ou é o automóvel que os deixa?
Eu, guiador do automóvel emprestado, ou o automóvel 
emprestado que eu guio?
Na estrada de Sintra ao luar, na tristeza, ante os campos e a
noite,
Guiando o Chevrolet emprestado desconsoladamente, 

Perco-me na estrada futura, sumo-me na distância que alcanço, 

E, num desejo terrível, súbito, violento, inconcebível,

Acelero …

Mas o meu coração ficou no monte de pedras, de que me desviei
ao vê-lo sem vê-lo,

À porta do casebre, 
O meu coração vazio,
O meu coração insatisfeito,

O meu coração mais humano do que eu, mais exacto que a vida.
Na estrada de Sintra, perto da meia-noite, ao luar, ao volante,

Na estrada de Sintra, que cansaço da própria imaginação, 

Na estrada de Sintra, cada vez mais perto de Sintra,

Na estrada de Sintra, cada vez menos perto de mim…

Álvaro de Campos - 1928