Quem és tu que em mim apoias o olhar?
Juntas no colo sentado flores que lembram rosas,
mas não são rosas as flores que juntas no colo sentado.
Distas de mim quatro passos largos,
dados no soalho limpo de madeira importada.
A cadeira baloiça fugazmente, ficando parada
onde mais certa é a luz que lhe incide.
Tal luz, focada na figura que em mim apoia o olhar,
faz sombra a restante sala e apaga tudo o que não vejo.
Tal vermelhão em teu regaço lembra-me que olho a rosas,
tão únicas que se fossem outras flores não seriam rosas.
Tal momento faz a vida ficar eminente ao olhar perdido
em que me olhas, em que te olho, onde estás, afastada
de mim, baloiçando, na luz que te faz tudo no nada da sala.
terça-feira, 13 de agosto de 2013
sábado, 3 de agosto de 2013
Gato - Pablo Neruda
Que bonito é um gato que dorme,
dormir com as pernas e peso,
dorme com suas unhas cruéis
e seu sangue sanguinário,
dorme com todos os anéis
que como círculos queimados
constroem uma geologia
de uma cola cor de areia.
dormir com as pernas e peso,
dorme com suas unhas cruéis
e seu sangue sanguinário,
dorme com todos os anéis
que como círculos queimados
constroem uma geologia
de uma cola cor de areia.
Queria dormir como um gato
com todos os pêlos do tempo,
com uma lígua de siléx,
com o sexo seco de fogo
e depois não falar com ninguém,
deitar-me sobre todo o mundo
sobre as telhas e terra
intensamente concentrado
em caçar as ratas no sono.
com todos os pêlos do tempo,
com uma lígua de siléx,
com o sexo seco de fogo
e depois não falar com ninguém,
deitar-me sobre todo o mundo
sobre as telhas e terra
intensamente concentrado
em caçar as ratas no sono.
Eu vi como ondula o gato dormindo: correndo na
noite, no escuro, como água,
E às vezes eles cairiam,
talvez se enrolasse
nu em montes de neve,
cresce talvez dormindo
como um tigre bisavô
e salta para a escuridão
telhados, nuvens e vulcões.
Dorme, dorme gato noturno
com cerimónias de bispo,
o teu bigode de pedra:
ordena todos os nossos sonhos,
dirige a escuridão
das nossa proezas sonhadas
com o teu coração sanguinário
e largo pescoço e longa cauda.
noite, no escuro, como água,
E às vezes eles cairiam,
talvez se enrolasse
nu em montes de neve,
cresce talvez dormindo
como um tigre bisavô
e salta para a escuridão
telhados, nuvens e vulcões.
Dorme, dorme gato noturno
com cerimónias de bispo,
o teu bigode de pedra:
ordena todos os nossos sonhos,
dirige a escuridão
das nossa proezas sonhadas
com o teu coração sanguinário
e largo pescoço e longa cauda.
Pablo Neruda
terça-feira, 30 de julho de 2013
Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra - Álvaro de Campos
Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra,
Ao luar o ao sonho, na estrada deserta,
Sozinho guio, guio quase devagar, e um pouco
Me parece, ou me forço um pouco para que me pareça,
Que sigo por outra estrada, por outro sonho, por outro mundo,
Que sigo sem haver Lisboa deixada ou Sintra a que ir ter,
Que sigo, e que mais haverá em seguir senão não parar mas
seguir?
Ao luar o ao sonho, na estrada deserta,
Sozinho guio, guio quase devagar, e um pouco
Me parece, ou me forço um pouco para que me pareça,
Que sigo por outra estrada, por outro sonho, por outro mundo,
Que sigo sem haver Lisboa deixada ou Sintra a que ir ter,
Que sigo, e que mais haverá em seguir senão não parar mas
seguir?
Vou passar a noite a Sintra por não poder passá-la em Lisboa,
Mas, quando chegar a Sintra, terei pena de não ter ficado em Lisboa.
Sempre esta inquietação sem propósito, sem nexo, sem consequência,
Sempre, sempre, sempre,
Esta angústia excessiva do espírito por coisa nenhuma,
Na estrada de Sintra, ou na estrada do sonho, ou na estrada da vida …
Mas, quando chegar a Sintra, terei pena de não ter ficado em Lisboa.
Sempre esta inquietação sem propósito, sem nexo, sem consequência,
Sempre, sempre, sempre,
Esta angústia excessiva do espírito por coisa nenhuma,
Na estrada de Sintra, ou na estrada do sonho, ou na estrada da vida …
Maleável aos meus movimentos subconscientes do volante,
Galga sob mim comigo o automóvel que me emprestaram.
Sorrio do símbolo, ao pensar nele, e ao virar à direita.
Em quantas coisas que me emprestaram eu sigo no mundo!
Quantas coisas que me emprestaram guio como minhas!
Quanto que me emprestaram, ai de mim!, eu próprio sou!
Galga sob mim comigo o automóvel que me emprestaram.
Sorrio do símbolo, ao pensar nele, e ao virar à direita.
Em quantas coisas que me emprestaram eu sigo no mundo!
Quantas coisas que me emprestaram guio como minhas!
Quanto que me emprestaram, ai de mim!, eu próprio sou!
À esquerda o casebre – sim, o casebre – à beira da estrada.
À direita o campo aberto, com a lua ao longe.
O automóvel, que parecia há pouco dar-me liberdade,
É agora uma coisa onde estou fechado,
Que só posso conduzir se nele estiver fechado,
Que só domino se me incluir nele, se ele me incluir a mim.
À direita o campo aberto, com a lua ao longe.
O automóvel, que parecia há pouco dar-me liberdade,
É agora uma coisa onde estou fechado,
Que só posso conduzir se nele estiver fechado,
Que só domino se me incluir nele, se ele me incluir a mim.
À esquerda lá para trás o casebre modesto, mais que modesto.
A vida ali deve ser feliz, só porque não é a minha.
Se alguém me viu da janela do casebre, sonhará:
Aquele é que é feliz.
Talvez à criança espreitando pelos vidros da janela do andar que está em cima.
A vida ali deve ser feliz, só porque não é a minha.
Se alguém me viu da janela do casebre, sonhará:
Aquele é que é feliz.
Talvez à criança espreitando pelos vidros da janela do andar que está em cima.
Fiquei (com o automóvel emprestado) como um sonho, uma fada real.
Talvez à rapariga que olhou, ouvindo o motor, pela janela da cozinha
No pavimento térreo,
Sou qualquer coisa do príncipe de todo o coração de rapariga,
E ela me olhará de esguelha, pelos vidros, até à curva em que me perdi.
Deixarei sonhos atrás de mim, ou é o automóvel que os deixa?
Talvez à rapariga que olhou, ouvindo o motor, pela janela da cozinha
No pavimento térreo,
Sou qualquer coisa do príncipe de todo o coração de rapariga,
E ela me olhará de esguelha, pelos vidros, até à curva em que me perdi.
Deixarei sonhos atrás de mim, ou é o automóvel que os deixa?
Eu, guiador do automóvel emprestado, ou o automóvel
emprestado que eu guio?
Na estrada de Sintra ao luar, na tristeza, ante os campos e a
noite,
noite,
Guiando o Chevrolet emprestado desconsoladamente,
Perco-me na estrada futura, sumo-me na distância que alcanço,
E, num desejo terrível, súbito, violento, inconcebível,
Acelero …
Mas o meu coração ficou no monte de pedras, de que me desviei
ao vê-lo sem vê-lo,
Perco-me na estrada futura, sumo-me na distância que alcanço,
E, num desejo terrível, súbito, violento, inconcebível,
Acelero …
Mas o meu coração ficou no monte de pedras, de que me desviei
ao vê-lo sem vê-lo,
À porta do casebre,
O meu coração vazio,
O meu coração insatisfeito,
O meu coração mais humano do que eu, mais exacto que a vida.
O meu coração insatisfeito,
O meu coração mais humano do que eu, mais exacto que a vida.
Na estrada de Sintra, perto da meia-noite, ao luar, ao volante,
Na estrada de Sintra, que cansaço da própria imaginação,
Na estrada de Sintra, cada vez mais perto de Sintra,
Na estrada de Sintra, cada vez menos perto de mim…
Álvaro de Campos - 1928
Na estrada de Sintra, que cansaço da própria imaginação,
Na estrada de Sintra, cada vez mais perto de Sintra,
Na estrada de Sintra, cada vez menos perto de mim…
Álvaro de Campos - 1928
quinta-feira, 27 de junho de 2013
Inicialmente
Se tudo fosse poesia,
nada alma própria teria.
A condição do poeta
é ter alma nas coisas:
em cada alma; em cada coisa.
À religião da lírica
nada lhe é sagrado.
Tem os livros dos
que fazem poesia
e a fé de quem lê alegria.
Mas na última estrofe
não faltam conclusões -
e por vezes uma abertura
que ao ler é fechada.
Se a poesia fosse alma, o mundo acabava.
segunda-feira, 10 de junho de 2013
Romantismo bárbaro
Quero ser eu no máximo
esforço da razão perdida!
Esquecer a realidade,
tão curta quanto a medida
da cortina da vaidade.
Ser Miguel sendo Pedro!
Tomar a vida por emoções
e entregar a fúria Divina
ao desleixo puro das sensações.
Querer tomar arte por certa
e a ciência por dúbia sincronia.
Até ao fim de mim ninguém será
mais que qualquer História suma.
Serei, por agora, o que procura
desconhecer verdade alguma.
Desespero fechado
A unha que em meus dentes roça
já está gasta de muito pensar.
O olhar que olha defronte a nossa
parede branca ficou em lá chegar,
ao fim do pensamento, existente
na cor que em minha frente
se acumula e esquece que os avós
são pais e parente de todos nós.
Deforme-se a unha e o olhar!
A vida é tempo, comprido e atroz!
Veremos quem mais terá a pesar
na balança celeste, se eu, se nós.
já está gasta de muito pensar.
O olhar que olha defronte a nossa
parede branca ficou em lá chegar,
ao fim do pensamento, existente
na cor que em minha frente
se acumula e esquece que os avós
são pais e parente de todos nós.
Deforme-se a unha e o olhar!
A vida é tempo, comprido e atroz!
Veremos quem mais terá a pesar
na balança celeste, se eu, se nós.
terça-feira, 4 de junho de 2013
Poema radioactivo
No centro tudo é perfeito.
Tudo é uno...
Nada expira nem prevalece.
Mas separa o rosto imaginado
Pesa-me
o coração por
me condensar na dimensão
sistemática de querer imaginar.
É todo o dia noite assim,
e custa passá-la
sem mim.
na folha
na caneta
na escrita que passou.
Tudo é uno...
Nada expira nem prevalece.
Mas separa o rosto imaginado
Pesa-me
o coração por
me condensar na dimensão
sistemática de querer imaginar.
É todo o dia noite assim,
e custa passá-la
sem mim.
na folha
na caneta
na escrita que passou.
sábado, 1 de junho de 2013
Quinze minutos sono adentro
Deitei-me sóbrio na conclusão de chegar por via do adormecimento até ti. Sabia que haverias de chegar bela, sinuosa, pela rua que eleva a condição de cidade a marco de identificação ideológica, que chegarias no teu pé de dança doirado, descalça pela noite. A rua, toda ela de calçada preta e argilosa nas bordas que delimitavam a tua paixão fervorosa de estaca meia do meu pensamento, enche-se de luar brilhante, pois tu, Lua sim, beleza sim, preenches o universo por coexistência acidental. E amas-me, e aproximas-te, e beijas-me. Em vão, que tudo é limitado por momentos, todos eles encadeados direccionalmente para um momento geral que não é mais que um particular intervalo de tempo, delta o chamam, minúsculo para o infinito mais pequeno, maiúsculo para o infinito que não se conta, ávido sol de pouca dura do que fazemos onde não estamos e do que queremos fazer porque estamos, pelo menos, na árvore da vida. E massajas-me o rosto com as mãos suaves de algodão, e encaras-me directamente no olhar, e aproximas-te, e beijas-me. Não sintas o meu afecto que ele é duvidoso; não beijes meus lábios pois minha alma encontra-se num mar de podridão, não me amas porque não existe amor.
Um paraíso estendido ao sonho de acordar mais tarde, quando a realidade desaparece.
Um paraíso estendido ao sonho de acordar mais tarde, quando a realidade desaparece.
Aequalis aequalem delectat.
sexta-feira, 31 de maio de 2013
Tríplice
Acalma minha alma o desespero.
Vi-te passar e não disse nada,
talvez por achar curto o erro
de falar consciente contigo calada.
Anima minha voz quem me cansa.
O teu cabelo nada ao mundo diz,
mas contrário é o gesto que amansa
tua seda pendurada quando sorris.
O que sorri é meu espírito amado.
Três é o número da tua felicidade,
nas três vozes e nos três gestos
da grande sombra que é a saudade.
Vi-te passar e não disse nada,
talvez por achar curto o erro
de falar consciente contigo calada.
Anima minha voz quem me cansa.
O teu cabelo nada ao mundo diz,
mas contrário é o gesto que amansa
tua seda pendurada quando sorris.
O que sorri é meu espírito amado.
Três é o número da tua felicidade,
nas três vozes e nos três gestos
da grande sombra que é a saudade.
sexta-feira, 24 de maio de 2013
A minha vida é o pior suicídio
A minha vida é o pior suicídio.
E o pior é que sou feliz,
com alegria em minha volta
e a voz suave de quem me diz
"É tempo! Faz-te à vida, rapaz!".
A vida faz-se a mim e eu nem pedi.
Espanca-me com a piedade do tempo
e ilude-me com a doce brisa de ti.
Viver é a única coisa a que não presto,
tirando isso, sou bom a tudo.
Nunca fiz sofrer e nunca sofri,
apenas com o sofrimento me iludo
na bonança temporal de viver.
Falam da vida como se falassem
do sonho. Falam a dormir,
como se no sonho amassem.
(A vida é sentir o coqueiro em colónia,
abraçar o choro na solidão
da franja sóbria esticada,
é pedir o que os poetas não dão.)
É tempo.
E o pior é que sou feliz,
com alegria em minha volta
e a voz suave de quem me diz
"É tempo! Faz-te à vida, rapaz!".
A vida faz-se a mim e eu nem pedi.
Espanca-me com a piedade do tempo
e ilude-me com a doce brisa de ti.
Viver é a única coisa a que não presto,
tirando isso, sou bom a tudo.
Nunca fiz sofrer e nunca sofri,
apenas com o sofrimento me iludo
na bonança temporal de viver.
Falam da vida como se falassem
do sonho. Falam a dormir,
como se no sonho amassem.
(A vida é sentir o coqueiro em colónia,
abraçar o choro na solidão
da franja sóbria esticada,
é pedir o que os poetas não dão.)
É tempo.
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