sexta-feira, 24 de maio de 2013

A minha vida é o pior suicídio

A minha vida é o pior suicídio.
E o pior é que sou feliz,
com alegria em minha volta
e a voz suave de quem me diz

"É tempo! Faz-te à vida, rapaz!".
A vida faz-se a mim e eu nem pedi.
Espanca-me com a piedade do tempo
e ilude-me com a doce brisa de ti.

Viver é a única coisa a que não presto,
tirando isso, sou bom a tudo.
Nunca fiz sofrer e nunca sofri,
apenas com o sofrimento me iludo

na bonança temporal de viver.
Falam da vida como se falassem
do sonho. Falam a dormir,
como se no sonho amassem.

(A vida é sentir o coqueiro em colónia,
abraçar o choro na solidão
da franja sóbria esticada,
é pedir o que os poetas não dão.)

É tempo.

terça-feira, 21 de maio de 2013

Sou fraco

Sou fraco, mísera criatura.
Desenquadrado da vida
(esta vida que não me pertence),
destinado à triste ruptura da inocência.

Eu nada mais sou que um bicho
baixo da rede de alimentação,
que não sobrevive à Terra sequer.
Vou morrer e nem vivi.

Nada me entristece e tudo parece bem.
O problema é não ter problema,
o problema é viver dependente do problema!
Nada sou e para nada vou.

Quero força, mas força inteira!
neste suicídio que é viver,
nesta alegria constante de morrer
e nunca parar o coração.

Pára coração, não vale a pena!
Esforças-te para tudo acabar,
mais vale então começar.
Chamem o mundo à minha beira

para que vejam alguém a viver,
para que vivam a morte que é deles!
Ninguém deseja a morte para depois,
que os desejos são momentos.

É condição estar condicionado!
Ou que os desejos desinibem a áurea
humana que é ser limitado?
Nada é errado se é desejado.

Quero viver, duplamente!
Quero desejar a morte, quero-a já!
Viverei sem nada, sem rima.
Desejarei a vida, que já acabou.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Pássaros

A vida, se quisermos,
não tem ritmo.
É um pássaro sem bico
que voa e canta mudo:
voa para onde nunca
esteve, para o fim
do mundo, talvez.
A vida não tem sentido!

Os pássaros, os que voam,
seguem rotas e rumos,
todos juntos, com canto
aleatório e sistemático.
As vidas, as que sobram,
quebram-se na procura,
porque aos pássaros a morte
se destina em outro lugar.
À vida nada se destina.

Não há vida na vida...
Não há alma no corpo
se não a quisermos nem
mistério na morte se não
a temermos de feição.
Há melodia na vida
dos pássaros, não
por natureza, ou por serem
animais, mas por serem
pássaros e voarem.

sábado, 27 de abril de 2013

De mil olhos

De mil olhos caíram lágrimas
que por ti se fizeram em rio.
E nem um gesto teu mereceram,
nem uma corrente oposta
surgiu na tua nascente,
essa seca e sem olhar.

Amar-te-ei passivamente,
por assim cair em choro.
E ao escorrer no rosto,
agora soro da verdade,
minha lágrima ecoa calma
e inércia sem sentido.

E nenhum som maior
é silenciosamente produzido,
senão aquele que brinca
à vida, o que sente e significa,
aquele que espera a condição
ideal de se lhe chamar coração.

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Paranóia

Paranóia:
dos homens do mundo que fazem um;
da mulher incógnita que as faz todas.

Paranóia espiral:
dos governos que são corruptos;
da corrupção que não se sabe.

Paranóia ziguezague!:
do tempo misterioso
e do mistério das ruas que mudam.

Paranóia sem fim
de tudo o que tem início,
porque se não tivesse, nada teria fim.

Paranóia e não se soube que sim.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Sucessão

Sou preso na indolência
do aparatoso rebuliço.
Sou a sã consciência
do costume conciso.

Amanhã é outro hoje.
Estou num Destino
que dele sempre foge:
tudo um futuro cretino.

Fui a vítima retardada
da vaidosa melhoria
que é sempre adiada
até à final sinestesia.

E tiro de mim quem sou
no panorama ideal,
de onde tudo se tirou
e se tem apenas o mal.

Virão vis e duras águas,
virão coisas já escritas,
mas nunca virão letras
afogar as palavras já ditas.

sábado, 13 de abril de 2013

Os dias são descontínuos
e as noites têm sonhos leves primeiros.

Há na minha vida gente que a vive
com mais certezas que as que eu sempre tive.
Sei que outrora quando era fácil
ver a vida a lutar por mim, quando
o sonho era melodia ensaiada
nas vivências da infância
e a insanidade um estado
de qualquer momento,
podia ser toda a coisa encantada,
especial na infinidade do tempo que sobrava.
Hoje a vida não é por mim mais brincada
por querem de mim aquilo que querem de todos:
dinheiro e arrojos simples para o ter.
Já não me pertence a vida que é pública.

A noite chora na tempestade
que lá fora desflora de imaginação
de arranjar cobres que para ela não são.

Já tiraram tudo à Vida: na noite e no dia,
no são e na podridão da via errónea da Escolha.
E as crianças só têm em não crescer em demasia
a liberdade de escolher a prática teoria de nada saberem,
de serem meninos no tempo e adultos no espaço
onde nada cabe, nem mesmo o regaço da Mãe Fatal.

Ao viver aprendamos que nada se vive em liberdade.
Que só no cansaço se repousa em compulsividade
e que nem na repulsa de sentimentos excluímos a doce idade
de menino poeta no ser e no sentir.
E quando a hora da Escolha escolher realmente permitir,
saibamos que nada nos exibe um verdadeiro sorrir,
a não ser a verdade de querer escolher a vida antes de morrer.

Raia o dia de fininho e por fim a escuridão desvanece
na condição empírica de trabalhar no espaço
que é o tempo de ganhar tostão gasto instantaneamente.

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Creio nas coisas que vejo,
como na caneta física que escreve
tinta contínua, numa limitada
carga ou grafite carbónica.

Creio em coisas que nunca vi
por me encontrar num estado
inerte, sem esforço para querer ver
algo em que creio e sei existir.
Que seja um planeta longínquo,
num sistema estelar brilhante, onde
qualquer Deus é um Deus central
que crê em qualquer eu existente por lá.

Mas de mim nada vem senão dúvidas,
interrogações que conheço, que me
fazem impossível na crença própria.
Vejo-me existente num mundo
feito de coisas tocáveis, limitadamente
contáveis, que funcionam por
estranhas leis estáveis e reais.

Confundo crença com existência,
onde nada significa tudo. Onde não
existem limites fronteiriços, que onde
uma realidade não acaba para
que a contrária comece.

Vejo-me como um viajante na
filosofia de locomotiva, que pensa
num veículo em movimento,
limitado por um vidro transparente
em que a realidade aparece distorcida,
mas o que é real é o pensamento.

Só em mim me sinto completo.
Mas não quero nada.
Que poderia eu querer?
Neste tempo que limita o nascimento
a uma morte próxima, que varre tudo
e não deixa o progresso existir,
tudo arrasa a vontade de querer algo.

domingo, 7 de abril de 2013

Testemunho

Se o sofrimento se sente
por choro ou por dor,
passa-se algo diferente
com o sofrer por amor.

Também se chora,
mas é entalado...
E aquela dor de hora
é de alguém angustiado.

Mas não é humano
sentir na paixão
algo de insano?

Viver é ter tempo vago
para dizer com saudade
ao amor de verdade:
"deixo-te a mágoa que trago".

Infância adulta

Isolem-me do mundo,
façam-me o que quiserem.
Só não me tirem a vontade
de ser algo de feliz.
De sentir a vida parada,
de ter sonhos violeta
e de ser pequeno para sempre.
De comprar doces e gostar,
de ser feliz a brincar,
de ver asas no carro
cortando montanhas
e paisagens estranhas
na berma do sonho.

O amor de gente crescida
tira tempo e tira vida,
colhe sonhos pela raiz
e deixa morrer o petiz.