quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Festa de aniversário

Em tempos estavam todos comigo.
Tinham o bolo guardado
e velas postas de lado,
numa alegria contínua.
Era tudo brincadeira.
Vinham então à minha beira:
Que crescido estás! Quantos faz?

Mas eu dizia que era da bebedeira
a queda que fingia,
para que se rissem.
Ou para que assim vissem
que o rapaz por fora crescia
mas a criança permanecia
na brincadeira doce e tenra.

Hoje poucos me vêem.
O bolo permanece,
mas a alegria retrocessa.
Tiraram-me dias e anos.
Tiraram-me gentes que antes
viam o rapaz no centro da mesa
a sorrir e a soprar... Só a soprar...

Oh identidade divina,
que faço eu comigo próprio?
Com que brinco agora
que perdi o brinquedo?
Tenho a idade de brincar,
nunca antes quis mais.
Ah! Soubesse eu naquela hora!

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Decomponibilidade da vida

O tempo é perdição.
Nele vivemos.
Dele memórias guardamos.
E tudo o que recebemos
é um leve passar de anos,
que nos leva para longe
do que hoje somos.

Passa tão leve.
(Já lá vai! Já lá foi!)
Nada deixa nada,
tudo vai e já não vem:
As ideias que em mim contém,
os jovens de hoje que nem
amanhã serão filhos de alguém.

Já passou, foi em vão.
Aprendemos a viver,
esquecemos a vida.
Então vemos que nada
é nada. Somente isso: nada.
O que é tudo, nada vai ser,
porque ele passa sem querer.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Faz-me sonhar

Faz-me sonhar.
Se não me poderes
fazer sonhar,
deixa para ti 
os teus sonhos.

Ou dá-os ao teu amor.
Se não for eu o
teu amor, deixa-me
ao menos os teus
sonhos de amar.

Se me deres isso,
dás-me a vontade
de te querer dar
o amor que sonho:
Em campos de
papoilas vermelhas,
dois encarnados
corações dão as
mãos e sonham
em amar, deitados
no chão, a rebolar,
como duas crianças
que amam a brincar.
Inspirado em Álvaro de Campos

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Costumes

O branco ocupa a parte funcional do meu pensamento, completando um jardim outonal de ignorantismo oblíquo. As palavras são escassas, o tempo inútil, a razão aborrecida e a realidade deambulante. Os sucessivos acréscimos de ideias incompletas tornam-me numa máquina sentimental, semelhante a qualquer outra que através de engrenagens e engenhos mecânicos realiza uma função orgânica e estrutural, e tudo o que me sobra é uma amplificação enumerativa de pensamentos. 

Se a filosofia fosse empresa, então tudo o que a complementa seria lógico como uma linha de produção automática que vê no tempo um ciclo periódico de entrega de produto. Mas não. Comigo a rotina rompe-se na sua origem, na sua essência imperativa. Idealizá-la seria romper o sentido coerente da sua concepção, uma rotina incomum fora da literatura que se anula num oxímoro pertinente e a mim associável. Raciocinar não faz parte de um hábito porque um hábito requer instintos baseados em indicações extrínsecas a nós.
Romper o ódio e incentivar o amor é parte da rotina social: erróneo e paradoxal, afirmo com prontidão. O ódio gera discussão, gera mudança e instabilidade, gera contra-hábitos simultâneos a uma ideia de dever cumprido. Rotinas é o que em maior quantidade existe. Com espontaneidade conquistaremos o mundo, ou a parte interessante dele.

domingo, 13 de janeiro de 2013

Sentir tudo

Não posso escrever sem especificar
que o que sinto é exterior a quaisquer
realidades que ao coração se queiram fincar.
É objecto que assombra o dilatado Ser concreto
inventor de palavras magníficas, que representam
tudo menos a razão inerente ao objecto.

É um pêndulo pesado que pesa mais que
ele próprio. Vai repetido de sangue esforçado
e volta limpo pelo sucesso garantido. Sobe
pelo mesmo caminho que desce, num vai-vem
entre o real e a imaginação que ninguém
entende mas que todos percebem.

Pode ser um relógio que num tique-taque
atormentado pelo tempo se julga dono
do mesmo, que cessa por um ataque
de fase que o faz sofrer mais e pingar
na folha vazia tinta negra, repleta de tudo
o que o mundo sente e quer para não parar.

Assim sinto-me eu: fechado por situações reais
e infinitas, que não pedem explicação,
mas que eu insisto em criar perturbação
necessária. Porque no infinito me sinto a mais
e no finito não me sinto, procuro então, entre
aquilo a que chego e o inalcançável, o coração.

sábado, 5 de janeiro de 2013

Ensaio sobre o futuro - REMAKE!

Oi migos!
Hoje, em comemoração da XLIII publicação do "Vou Escrever um Blog", dirigir-me-ei aos fantásticos leitores num registo mais informal e abandalhado. Regressarei também às origens remotas deste blogue e escreverei uma nova versão do "Ensaio sobre o futuro". Será portanto um "ensaio sobre o futuro v2.0" ou, se preferirem, um "Ensaio sobre o futuro, no futuro". Fica ao vosso critério.

De uma coisa tenho a certeza: o Futuro é um preguiçoso sem medida, visto que está sempre a adiar a sua vinda. Ainda ontem disseram que vinha hoje e o maroto afinal só vem amanhã! Uma pessoa nunca sabe quando é que ele chega, nunca marca uma data nem um sitio para se encontrar connosco... Muito menos sabemos onde raio é que esse patife está metido! Se fosse minimamente educado falava connosco. Ora agora parece que se escondeu e não quer ser encontrado. É antissocial, só pode. No entanto, preocupamo-nos imenso com ele mesmo sabendo que o gajo é um velhaco e não quer saber de nós.
Sabem quem é que é um tipo porreiro? É o Passado, claro! É um gajo impecável, completamente nosso amigo, aliás, até nos alerta para os erros que cometemos com ele para não agirmos de modo semelhante para com o Futuro - esse c*brão. E nós, mal agradecidos, tentamos sempre esquecer o Passado, não lhe agradecemos e queremos vê-lo pelas costas o mais rapidamente possível. Alguns até dizem que fez sofrer imensas pessoas e é o responsável pela eventual má disposição do Futuro. Mas não, este amigalhaço não tem a culpa da nossa estupidez e irresponsabilidade. Aliás, ele até nos alerta: "Olha meu caro, tu não agiste muito bem quando arrebentaste com duas cidades, meu amigo. Se calhar era melhor não voltares a fazer isso!" e nós respondemos "Vá esquece lá isso e pira-te daqui que vou pensar no teu assunto.". Isto é má criação da nossa parte. Será que as nossas mães estariam orgulhosas se soubessem que tratamos tão mal alguém que nos quer bem? Duvido imenso.

Voltando ao tema inicial.
Tal como tentei imperfeitamente metaforizar, considero que o passado nos pode ser imensamente útil na concretização do futuro. Pode-se aproveitar tudo o que realizamos em tempos anteriores, especialmente os acontecimentos negativos, para que estes não se voltem a realizar nos tempos que estão para vir. Porém, o negativismo adjacente ao futuro justifica-se com o momento que vivemos, com o que nós, sociedade, andamos a fazer no que chamamos "presente".
Crescem cada vez mais as sensibilizações relativas à preservação do meio natural e respeito pelas gerações vindouras, mas o que conta é a acção global, um efeito massivo, para que resultados se notem nos diferentes sub-sistemas terrestres.
Nós, os ocidentais, crescemos com abundante água potável. Contrariamente, os meninos da África subsariana deparam-se com um escassez crescente de água própria para consumo. A desidratação adjacente provoca uma das mais dolorosas mortes possíveis. Imaginem cada célula do vosso corpo a contrair-se radicalmente, até que as suas membranas rompam. Podemos mudar isto, podemos juntar forças para que no futuro isto se altere.
Tudo depende do presente e o presente somos nós.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Natureza

As folhas verdes agitam-se no jardim.
Toda a Natureza fria e desanimada
está em mim contida, difundida num
Ser que por sentir se aflige mediocremente.

No exterior do meu recolho permanece o ânimo
que perambula tão distante desta entidade escondida,
criada para empunhar o inútil e desagradável:
pretendo idealizar a árvore perfeita com fruto saboroso.

Pudesse eu perder a verdura fresca que me afeta.

Como te desejo, tarde serena. Em ti correr
alegre, despreocupado. Encher-me de sol e paixão,
procurar a rocha da ambição escondida no querer
adquirir a virtude interminável e encher-me de poder.

Interrogo-me como um filósofo, mas procuro a verdade
acima de todas as coisas inalcançáveis. Por perder
a Existência, derrubo-me interminavelmente.
Por pura coesão ideológica, quero investigar a Natureza.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Escrever

Escrever é sentir com os dedos. Observar o real e tornar a ficção em algo que paralelamente o complementa. É fazer sonhar o leitor, dar-lhe acesso a uma chave que abre todas as portas de um mundo gigantesco, maior que este onde vivemos e sentimos. É modificar uma dor sentida e poética noutra qualquer acessível a todos os interessados a viver para além das palavras. Uma dor suja que se torna num velho à chuva ou num céu azul feliz, servindo de recreio à imaginação de quem lê. É sofrer como quem quer sofrer, usar comparações inadequadas e um vocabulário rigorosamente elementar, com explicações sentidas e feridas no papel branco manchado de tinta preta. É contrastar o sangue ardente e flamejante que segue nas veias e, numa vontade incessante, querer que estas escorram tinta preta; sempre preta: o luto inerente à arte poética e à solidão magnífica. É falar mal e não saber o que se diz concretamente, responder a questões sem lógica, dúvidas que permanecem durante fracassos seguidos e permanentes até se amontoarem num acúmulo de desespero e indignação trazido pelo sucesso tardio.
Na verdade, quem escreve nega o seu bem mais precioso: sentir. Quem o julga poderá afirmar que tal não é verdade e que a escrita subjectiva o contradiz etimologicamente. Mas só ele o sabe, só ele sente o que não sente, apenas ele deve dar encanto aos cantos perpendiculares da sua folha com alegorias e figuras imaginativas e criativas. Não se limita a transgredir o real, nem a obstiná-lo, apenas o usa para contentamento geral, para hilaridade comum. Quando finita o seu Destino, acabam os sonhos ou tudo aquilo que até antes nunca tinha acabado. Nada continua excepto o seu nome, o seu nome requintado e utilizado para outro contentamento geral, gozando de um estatuto de mártir quando na verdade era apenas um doido desajustado a uma regra social desadequada, vivendo num hospício sem a ele pertencer.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Mensagem


Num sábado como qualquer outro, estava uma menina entretida com a troca repetida de mensagens de telemóvel que tanto a fascinava e fazia sonhar. Estava em repouso no seu sofá macio, com uma perna por debaixo da outra, descalça, vestia uns curtos calções de ganga com bainhas desfiadas com bolsos cor-de-rosa que se notavam por tão curtos serem os calções. Como era um sábado soalheiro das férias de Verão, tinha uma camisola cinzenta pertencente a seu pai vestida, que por lhe ser larga, tinha um nó junto à anca robusta, que a ajustava ao seu fino corpo, tornando-a mais curta e apertada, descobrindo a sua elegante barriga morena. Tinha longos cabelos louros e uns olhos azuis claros, como o fundo de um mar cristalino. A menina estava notavelmente agitada. Aguardava nervosa pela resposta do seu destinatário, aquele telemóvel, aliás: aquele rapaz, era o centro do seu mundo e da sua imaginação repleta de cenários apaixonados. Sonhava um dia estar protegida sobre os seus braços firmes e de ouvir a sua voz suave dizer-lhe "Está tudo bem... Não chores mais.". Não se sentia infeliz naquele momento, mas sonhava estar, de algum modo, triste para ser reconfortada pelo seu pseudo-namorado.. Ansiosa sim, mergulhada num oceano de incertezas porque a resposta tardava... "Mas o que será que ele ficou a pensar?" - questionava-se. Essa dúvida surge porque ela está à espera da resposta a isto:
Sabes como me sinto... Estranha. Não sei como te explicar em tão poucos caracteres, mas tu és especial, lindo... Fazes-me sentir desejada, estas a ganhar espaço no meu coração... Espero estar contigo para te dizer tudo isto, para poder ver os teus olhos, ver a tua sinceridade.. Sou tão burra, eu nunca devia ter dito isto desculpa.
Numa falta de sentido lógico, o que ela fez foi, tinha agora noção, uma enorme estupidez. Numa paranóia consequente, julgou que o rapaz jamais voltaria a falar com ela quer visualmente quer por uso das telecomunicações. Uma paixão idiota, concluiu. Provavelmente ela não gostava assim tanto dele e alem disso apenas tinha 15 anos. No entanto, quando se preparava para contar à amiga dita mais chegada, uma vibração preenche a sua mão direita que segurava o telemóvel. Era a resposta anteriormente aguardada do rapaz. Ao abrir, deparou-se com algo tão simples como "Lol, és fofinha :3". Por pouco não soltou um gritinho meio estérico meio de contentação. Levantou os braços e cantarolou feliz "Ele gosta de mim, ele gosta de mim...". Assim estava a menina de 15 anos atenta a responder de forma habitual, feliz e contente, afirmando que se tratava do melhor dia da sua vida. Portanto estava a menina entretida com a troca repetida de mensagens de telemóvel que tanto a fascinava e fazia sonhar...

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Cliché

O Universo é tão vasto...
Tão preenchido com coisa nenhuma,
difundido nas orlas de um espaço gasto,
dilatando perpetuamente, em suma.

Há quem diga que não:
que chegará um dia em que tudo
regressa ao reduto anterior, em vão.
Mas, porquê? Porque não mudo?

Defino-me assim como uma parte
do universo em mudança e expansão
que apenas tenta entre a arte
e a ciência que a faz ver a relação.

Olho à noite aquilo que o dia
me impede de com os olhos ver:
o modo como Deus alfa sorria,
como ele poderia sequer ser.

E assim, com mais ou menos
matemática complexa e escrita,
com matéria e corpos serenos,
se descobre o que para lá medita.