terça-feira, 6 de novembro de 2012

O amor vence tudo

Será o amor um sentimento dispensável ou essencial? Talvez ambos. Quem sente o calor corporal da pessoa amada, os gestos de ternura, doçura e afecto, pode afirmar convictamente que é feliz, realizado, satisfeito. Sente-se amado e retribui. Por oposição, existem os "tímidos": tristes almas que existem num mundo sentimental que, pensam, não foi feito para eles. Foi feito para os fracos de espírito que procuram nada mais que mera atracção física, apego manipulador e facilmente contornável. Mas felizes são os que vêem o que a visão não permite. São os que vivem numa angústia intolerável, com um abundante negativismo que torna todos os contactos sociais com o sexo oposto em algo embaraçoso e difícil. Etiquetam o género contrário de forma a saberem em quem confiar o seu desalento, a sua melancolia. Escolhem os mais fáceis, aqueles que ajudam na árdua tarefa de simplesmente "arranjar um tema", "manter conversa", "dizer coisas".
Vivemos num mundo condutado pelas aparências exteriores, pelas facilidades, pelo cómodo, satisfação, deleite... Auspiciosamente, ainda existem seres humanos dignos dessa designação; porque é exclusivo desta espécie a sapiência, a emoção e os sentimentos, não obstante alguns deles estarem exageradamente representados na nossa existência individual de poucas décadas.

Ser tímido é ser forte, pensativo, calculista, preventivo. É ter tudo para amar e verificar que a infelicidade se contém naqueles que pensam que amam. É ser portanto feliz, amando quem merece.

Omnia vincit amor.

domingo, 21 de outubro de 2012

Caminha o menino

Pudesse uma criança deveras
decidir se à Terra queria vir,
viria ela tão prontamente
como vem fazer à mãe dor sentir?

Quisesse a mãe ver no filho
aquilo que nela antes ver queria,
nasceria assim tão perpetuamente
como nasce uma triste mente?

Fosse ele ao longo do seu destino
buscar quem poucos ofícios tem
mas, sim, muito tempo de menino,
seria ele o tormento de sua mãe?

Da fonte que em criança o colheu,
que água quente jorra em seu leito,
para a torrente fria do Fado seu,
caminha o menino em seu jeito.




segunda-feira, 8 de outubro de 2012

English attempt

The birds are discontinuously singing outside. It's a sign: autumn's here. The lying season, the coarse god's masterpiece. As the spring crosses the other side of the circle, warming the people, hopelessly, the beginning of the cold mixes with my hot tempered heart. Yes, I think it's fake. The passion, the love, the things I should feel when spring begins, when the hope begins, these things... I'm feeling all of them now. 
When a leave falls, the ground stills strong. When the cold wind brings the sadness and the monotony, my soul remains loud and hot like an echo that deafens the surroundings. It's like a lollipop with a sugar topping: bitter when you first taste it, but delicious when you begin to be used to it. 

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Fernando Pessoas


Vamos ler Fernando Pessoa. Vamos vaguear na mente de um doido que de parvo tinha pouco. Naufragamos nos versos dos seus poemas desamparados pelo seu restrito sentido, pela sua ambígua estupidez, pela sua genérica interpretação. Desacataremos a forma e a métrica e atentemos as marcas linguísticas e os recursos expressivos utilizado pelo que finge. É uma introspecção do leitor na sua revisão acerca da mensagem pseudosubliminar contida nas estrofes. Pseudo porque disto tinha Pessoa imenso. Tinha tanto que até heterónimos tinha, para disfarçar a sua razão psíquica e utiliza-la na alma emotiva-sentimental de outras gentes por ele criadas. Sentir-se-ia ultrapassado por ele próprio. Mas como seria possível ele saber que se estava a transcender, sendo ele, ele? Racionalizou então outros eles, mas que não fossem ele. Quis ao mundo dar a saber que o seu entendimento excessivo e socialmente pejorativo não era apenas e só seu. Era dele e de outros eles, dentro dele. Queria descartar aquilo que bate para dar importância àquilo que nos dá a razão. Queria colocar os miolos no tórax e o coração no crânio, queria uma sombra que sofresse metamorfoses projectada por um corpo imutável. 

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Procuro-me

Parece absurdo, mas durante o período lectivo, o Daniel é muita coisa. É crítico, cínico, controlador... Exagerado e palerma. Durante as aulas, o Daniel é tudo, menos o Daniel. Se nas férias conseguia encontrar a essência da minha existência nela própria, já nas aulas acontece o oposto. Nas aulas não sei ler, não sei escrever, não sei contar nem como me movo no espaço. As aulas fazem-me burro e absurdo. Transformam-me numa aberração social, invertem-me as opiniões e as afeições. Não consigo encontrar uma constante lógica na qual apoie a minha realidade... Tudo o que faço ou digo é errado à primeira vista, tudo o que digo ou faço é fútil, redundante e ingénuo. Acabo a pensar por extensas horas, à procura das respostas ao trio de questões que a nossa realidade fatalista nos coloca. Penso que vim de não sei onde, vou para não sei onde e sou não sei o quê. Não se trata de não saber que os is têm pontos, trata-se de não saber como pôr os pontos nos is.

domingo, 16 de setembro de 2012

O perfeito é o mundo mudo

O mundo é lógico.
Não seria lógico se não fosse,
absurdo.
Ele não se ria do absurdo se não fosse,
lógico e absurdo.
Não seria lógico se ele se risse,
sendo mudo.
Seria perfeito se o mundo fosse lógico, sendo, então,
mudo.

O mundo somos nós;
o nós é lógico, mas absurdo.
Então o nós é o mundo
que se ri de nós, por sermos,
imundos, e não mudos.
Seria perfeito se o nós fosse lógico, sendo, então,
mudo.

Imundos seremos por sermos,
parte do mundo.
Por parte do mundo sermos,
somos nós: imundos.
Seria perfeito se mais mundos fossem lógicos, sendo o nós,
mudo.
Mas se mais mundos fossem lógicos, mudos não seriam.
Porque se mais mundos houvessem, lógicos não seriam.

:)

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

A insónia


Estava eu na cama posto
Pronto para meu descanso,
Quando à cabeça me vem teu rosto.

Na minha mente ávida
A tua bela imagem começa
Como uma flor que pouco gosto
Pisada pela travessa vida;
É quando à cabeça me vem teu rosto.

Depois de pisada a raiz sobeja
Pronta para germinar de novo
Aquela flor que odeio e pica,
Para que pelo pé pisada seja.
Então à cabeça me vem teu rosto

Assustado enfim adormeço
E é então que a sonhar começo.
Nele teu rosto escarlate aparece
Livre dos espinhos malvados.

Vi então que tinhas mudado.
E que flor desejada eras!
Porque na honestidade acreditar puderas,
Acordo por ti desafiado.
E é quando à cabeça me vem teu rosto.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Assassinos de dicionário

Para certas pessoas, falar para um auditório é difícil. Não por desconhecerem as palavras que pretendem utilizar, mas por não conseguirem encandear logicamente as ideias a transmitir. Podem ter o plano previamente feito e, na hora de falar, os olhos escapam-se automaticamente para a folha manuscrita e as mãos pregam-se ao papel, o que arrasa a linguagem corporal e o discurso que até esse momento era fluido, contínuo e ininterrupto. Saber língua portuguesa e praticar convenientemente são requisitos para melhorar a oratória, tão importante no nosso dia-a-dia.
No plano da escrita, porém, começam os problemas. O meu uso excessivo de Internet proporciona-me alguns momentos bastante agradáveis. No entanto, sempre que me ligo a algum serviço social onde pessoas dão a sua opinião incoerente, insatisfatória, descontextualizada e absurda, a frustração apodera-se de mim. Virtualmente, já assassinei centenas de pessoas devido à sua estupidez e idiotice. E vou ser sincero: a minha consciência não está arrependida de ter esfaqueado, estropiado, empalado ou baleado as pessoínhas arrogantes e mesquinhas que opinam erroneamente e com autêntico desleixo pela língua portuguesa. 
Para mim, saber escrever bem, recorrendo às diversas figuras de estilo, torna possível que os leitores percebam claramente as ideias que pretendemos transmitir. E mais divertido ainda, é que a canalha que constantemente e apenas por burrice e estupidez plena maltratam e descredibilizam todo o seu português, pensam que qualquer texto minimamente estruturado é sinónimo de perfeição. O que faz com que compositores de palavras simples, mas sinceras, como eu, que embora não dominem totalmente a língua, mas têm vontade de aperfeiçoar, sejam os pequenos heróis e um refúgio aos vagabundos da gramática. E isso, faz-me sentir especial. Obrigado.

Um caso real, retirado do Youtube, que me fez vir escrever isto neste soalheiro dia de Agosto:
"nao sei porke kuado nos nacemos ja nao havia pink floyd ou queen ou hevie metal porke temos so agora justin bieber e nao kero ouvir e kero ouvir os outros e nao poso"

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Bagunça de Assuntos

O que dói mais? Ter um prego entre a unha e a carne do dedo grande do pé e dar uma biqueirada na parede ou sofrer por amor? Claramente a primeira. Digam o que disserem, não há dor inigualável. Até me dá arrepios só de pensar. Todavia, grande parte dos adolescentes hoje em dia receia que o lancinante sentimento do amor mais cedo ou mais tarde resulte numa aflição psicológica que, violentamente, possa manietar e controlar todas as acções do indivíduo. Bem, na verdade até não. Os adolescentes não querem saber nada disso. Tudo o que receiam é materializado.
As adolescentes, no entanto, querem fazer fotografia quando nem sabem o que a palavra significa. Querem ouvir os rapazes dizerem que são bonitas para que, satisfeitas, os possam ignorar e desprezar. Querem também receber "gostos" nas fotografias que publicam no Facebook, não interessando que parecem ridículas com um sorriso manchado e ingénuo, ou "patamente abocanhadas". Eu próprio gosto de "gostos", quem não, de direito? Foi, de facto, a grande invenção, depois da roda. O "gosto" mudou jovens acneicos para verdadeiros gigolôs da avaliação física de raparigas seminuas - acreditem, eu sei do que estou a falar. O "gosto" permitiu que pessoas, consideradas tímidas, pegassem em seus aparelhos de registo fotográfico e o utilizassem ao contrário, literalmente, com a objectiva direccionada para o simultâneo motivo e fotógrafo, ficando o visor à responsabilidade da atmosfera que, se Deus ajudar, criará então o plano focal desejado pelo sujeito que pega na máquina. Parece-me simplesmente absurdo, depois de analisar a situação. Resulta num subconsciente paradoxo fotográfico! Ou bem que se é o fotógrafo ou bem que se dá a fotografar. Talvez possamos considerar que, neste caso, a atmosfera seja o fotógrafo. Nesse caso, o paradoxo está resolvido.

E o mais engraçado é que nesta "bangunça de assuntos" (reparem que significa o mesmo que a tão venerada "mixórdia de temáticas") se encontra a minha perfeita e apurada descrição. Se quero criticar, mais vale começar por criticar o alvo mais fácil e a realidade que mais conheço: eu.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

A luz apagou-se

Consigo tocar nas estrelas
porque as consigo alcançar.
São misteriosas, luminosas
são o astro divinal.

Consegui, sem querer, lá mexer
naquele distante ponto que
encanta o vagabundo navegante;
que aquece o coração de quem a acolher.

Mas a estrela afastou-se,
parou de traçar o rumo do pobre vagabundo,
o sentido inexistente pareceu desaparecer,
todo o seu esforço se desmoronou.

Dissipe-se a traidora luminosidade
irradiada pela desleal estrela miserável!
Que eu próprio encanto o pobre mendigo;
que se concretize a ideia que o trouxe àquele trilho afável.